Diários de quarentena (17): Manual de sobrevivência e treinar a mente em casa

| 3 Abr 20

Manual de sobrevivência

Pintura de Ana Cordovil.

 

Isto assim não pode ser! Após poucos dias de quarentena forçada estou mais cansado do que andava com a rotina habitual de trabalho-netos-amigos-casa. A agitação máxima atingiu as redes sociais. Toda a gente fechada em casa está possessa de enorme vontade de comunicar. Mais é impossível. A todo o segundo um novo toque: SMS, WhatsApp; mail. Felizmente não estou no Facebook ou em qualquer outra do género. É que não se pode! “O que será agora?” Vai-se ver e já se interrompeu o trabalho. Retoma-se e… zás! Cai nova SMS, novo mail. Interrompe. Responde. Retoma o trabalho. Zás! – C’os diabos, outra?…

Ou bem que estou de quarentena e aproveito o recolhimento que este tempo me oferece, ou então faço-me de tolo e não paro de mexer no telemóvel. Não, vou pôr cobro a isto!

Resolução 1: baixar o toque dos sons aviso do telemóvel para as notificações de e-mail; agenda; SMS; etc… pianinho é que eu gosto de ti!

Resolução 2: só pegar no telemóvel e ir ver mails de 2 em duas horas… não há nada de urgente nas redes sociais. As urgências chegam por chamada telefónica!

Resolução 3: de cada vez que parar: beber um copo de água… dizem que, se for morna, mata mais depressa o bicho!…

Jorge Wemans é jornalista e membro da equipa editorial do 7MARGENS

 

Praticar em casa o treino da mente

Se afirmássemos que uma parte integrante de qualquer caminho espiritual passa pelo recolhimento, pela reflexão interior ou contemplação, ninguém o negaria. Tal como ninguém contestaria que a oração é um espaço que se abre no nosso interior ao afastarmo-nos das exigências e da agenda da vida mundana.

Na via budista, um instrumento fundamental de prática é o treino da mente, um exercício que nos recolhe na capacidade de atenção a si próprio, ao momento presente e ao mundo que nos rodeia. Ter consciência das emoções e dos pensamentos que nos habitam faz parte desta prática de meditação.

Neste contexto perturbador em que vivemos, os estados emocionais negativos como a ansiedade, o medo, a depressão ou a irritabilidade podem ser transformados através do desenvolvimento de uma atenção plena e de uma visão profunda. Assim, conseguimos gradualmente acalmar esse turbilhão e repousar na calma mental.

Este é um primeiro gesto que nos permite caminhar em direção àquilo que é a natureza da mente, liberta de constrangimentos, onde encontraremos mais disponibilidade para nos abrirmos à compaixão e sabedoria. Agora que estamos em casa, recolhidos, podemos praticar!

Mingyur Rinpoche, um mestre do budismo tibetano, oferece semanalmente sessões em que nos orienta nesta prática: Living with Distress – Mingyur Rinpoche Live Teaching. Pode aceder-se à primeira sessão através do canal YouTube. Para as restantes sessões é necessária uma inscrição na página da Tergar Meditation Community.

Catarina Rodrigues é praticante budista

Artigos relacionados