Diários de quarentena (18): Pessah judaica – agradecer que vivemos

| 3 Abr 20

Uma Haggada (recitação da narrativa da libertação do Egipto), com a família reunida à volta da mesa de Pessah. Obra de Arthur Szyk (1894-1951).

 

Estamos a poucos dias da celebração da festa judaica de Pessah (“passagem”, Páscoa). Celebração esta em que o foco fundamental é fazermos o relato da história da libertação do Povo de Israel da escravatura no Egipto. E a “passagem” pode ser como alusão ao milagre que D-us* Bem Dito fez ao abrir o Mar Vermelho.

Pessah é a festa da comemoração da libertação do Povo de Israel como uma nação coletiva.

Não vivemos em tempos bíblicos, e a nossa travessia depois da epidemia será outra. Não haverá desígnio divino nem a liderança de Moisés para nos guiar; e não será uma lembrança de povos em confronto, mas a do conjunto da humanidade a enfrentar um “inimigo” comum. E não será somente a travessia do povo judeu, deverá ser a travessia da humanidade.

Não importa onde, religião, raça ou posição social, todos nos sentimos parte da mesma comunidade humanidade e a mesma batalha, em cuja frente não estão exércitos, e sim médicos, enfermeiros e cientistas. Hoje a noite de Pessah é diferente de todas as outras noites de Pessah.

Todos nós queremos voltar à nossa vida normal. Alguns, esperemos que não muitos, como o faraó do Egito, não aceitaram que a sua omnipotência fosse questionada. Outros, cada um à sua maneira, usarão a oportunidade para mudar sua conduta, na sua vida pessoal e coletiva.

Porque aprendemos da experiência em tempos de epidemia, devemos agradecer:

Shehechyanu, ve´quiemanu ve’higuianu lazeman haze.

Que vivemos, que existimos, que chegamos a este momento.

Isaac Assor é oficiante dos serviços religiosos na Sinagoga Shaaré Tikva (Portas da Esperança), em Lisboa

* No judaísmo, o nome de Deus é grafado normalmente com a vogal omitida, por ser considerado impronunciável

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