Diários de quarentena (19): Confinamento, Domingo de Ramos e a beleza do grupo (um poema e duas fotos)

| 5 Abr 20

Crucifixo em lego. Viena 2012.

Cristãos em Domingo de Ramos. Crucifixo em lego. Viena 2012. Foto © António José Paulino

 

Confinamento

Sim, há medo.
Sim, há isolamento.
Sim, há compras de pânico.
Sim, há a doença.
Sim, há mesmo a morte.
Mas, dizem que em Wuhan depois de tantos anos de barulho,
Se podem agora ouvir os pássaros.
Dizem que, depois de algumas semanas de calma,
O céu já não está carregado de fumaça
Mas é azul, cinzento e claro.
Dizem que, nas ruas de Assis,
As pessoas cantam nas praças vazias,
Deixando as janelas abertas
para que os que estão sós
possam escutar os sons das famílias à sua volta.
Dizem que há um hotel no oeste da Irlanda,
que oferece refeições gratuitas e as entrega aos que estão confinados em casa.
Hoje, uma mulher que eu conheço,
Está ocupada a distribuir panfletos com o seu número
No bairro
De maneira que as pessoas idosas possam ter alguém a quem se dirigir.
Hoje, as Igrejas, as Sinagogas, as Mesquitas e os Templos preparam-se para acolher e proteger os sem-abrigo, os doentes, os extenuados.
Por toda a parte no mundo, as pessoas abrandam o passo e refletem
Por toda a parte no mundo, as pessoas olham para os seus vizinhos duma maneira nova
Por toda a parte no mundo as pessoas despertam para uma nova realidade.
Até que ponto somos enormes.
Até que ponto temos pouco controlo.
Ao que conta verdadeiramente.
Ao Amor.
Por isso rezamos e lembramo-nos que
Sim, há medo.
Mas não pode haver ódio.
Sim, há isolamento

Mas não pode haver solidão.

Sim, há compras de pânico,

Mas não pode haver avidez,

Sim, há a doença,

Mas não pode haver a doença da alma.
Sim, há até a morte,
Mas pode haver sempre uma renovação do amor.
Sê responsável das escolhas que fazes quanto à maneira de viver agora.

Hoje, respira.
Escuta, por detrás dos sons de fábrica do teu pânico,
Os pássaros cantam de novo,
O céu fica limpo,
Chega a primavera,
E nós estamos sempre rodeados pelo Amor.
Abre as janelas da tua alma
E mesmo que não possas, entra na praça vazia.
Canta.

Fr. Richard Hendrick, OFM

(Traduzido por ir. Zélia Prior, Irmãs da Apresentação de Maria, mosteiro de Palmela; sugerido por Lucy Wainewright e Teresa Vasconcelos)

 

Em grupo somos mais belos e mais fortes

Em grupo somos mais belos e mais fortes. Foto © António José Paulino

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