Diários de quarentena (2): Jacintos e narcisos que brotam, a comunidade, e o tempo ganho

| 18 Mar 20

Os jacintos e os narcisos brotam, apesar desta vida com silenciador (texto de Laura Pisanello)

Desde as férias do carnaval, a Itália parou. E não foi por piada. Escolas, bares, restaurantes, muitas lojas, todos aqueles que podem trabalhar a partir de casa em tele-trabalho pararam por decreto. As cidades foram silenciadas, os canais de Veneza, com muito pouco trânsito, têm água clara como nunca antes, no campo e nas aldeias ouvem-se os sinos e os pássaros a cantar porque já não há barulho dos carros; até o ar mudou e parece estar limpo.

Seria belo, um mundo mais lento poderia ser melhor. Mas todos os dias aumenta o número de doentes infectados pela Covid-19 e, infelizmente, o número de mortos – mesmo os jovens, como um funcionário de Bérgamo do 118 (o serviço de emergência). As unidades de terapia intensiva (reanimação) dos hospitais da Lombardia estão cheias e em grande dificuldade. No Véneto, são reabertos hospitais parcialmente fechados, como os de Valdobbiadene (Treviso) e Monselice (Pádua).

Os hábitos de todos mudaram e não se sabe por quanto tempo continuará esta vida com um silenciador. Muitos usam o telefone, videochamadas para falar com os pais, com as crianças em outras cidades. As missas são proibidas para as pessoas e são transmitidas em vídeo ou na televisão local. O Papa foi em peregrinação para rezar pelo fim da pandemia, junto do Crucifixo milagroso que salvou Roma da praga de 1522.

Há necessidade de médicos, foram chamados os já aposentados e até mesmo aqueles acabados de se formar; um padre Fabio, da Lombardia, também médico com experiência em missões, vestiu de novo a bata branca para também fazer a sua parte [outros casos idênticos aqui].

Redescobre-se o patriotismo nesta Itália onde se é forçado a autoisolar-se em casa. Marcam-se encontros, como as canções nas varandas ou as luzes acesas juntas, à noite, para dizer que juntos vamos conseguir. Sairemos deste tsunami e este misterioso convidado indesejado irá embora da mesma forma que chegou.

Há mil dicas que circulam pelos telemóveis, mil dicas para fazer deste tempo um tesouro. Em casa. Aulas de ioga, convites para meditar, para pensar que tudo isto será passageiro.

Também podemos trabalhar bem em casa, mesmo se ouvirmos o carro da protecção civil, com o alto-falante a convidar os cidadãos a ficarem em casa, mesmo que vejamos que as ruas lá fora estão a ser lavadas. Podemos rezar, olhar pela janela para as flores, os jacintos, os narcisos que estão brotando, as árvores cobertas de flores, porque a Primavera está a chegar. Como sempre.

Laura Pisanello é jornalista, trabalha na revista Messaggero di Sant’Antonio e vive em Pádua

  

O sentido de comunidade para vencer a pandemia (vídeo de Catarina Marcelino)

 

Catarina Marcelino é deputada do Partido Socialista na Assembleia da República

Em busca de Tempo ganho (texto de Sofia Távora)

Em dias de necessário recolhimento que obrigam a uma privação de proximidade física cresce a consciência do quanto dela somos carentes. Apercebemo-nos do imediatismo a que nos habituámos e isso poderia conduzir-nos facilmente a caminhos de auto-recriminação pelo consumismo da sociedade que estamos a construir.

Pela imposição e contingências que vivemos, somos facilmente tentados a encarar este período como um tempo de vida perdido. Pode ser ou não. Pode a coincidência da Quaresma com esta pandemia levar-nos a questionarmos em que temos empregue o nosso tempo? Temos perdido ou ganho vida? Aquilo de que mais falta sentirmos durante esta privação há de indicar-nos o que é que é fundamental na nossa vida, para que, ao regressar à normalidade, o possamos saborear melhor. Dando mais tempo ao essencial e menos ao que é apenas desperdício e dispersão.

Sofia Távora é estudante de Direito e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

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