Diários de quarentena (23): Fonte de Vida e A Última Ceia

| 8 Abr 20

Fonte de vida armazenada

Fonte de vida armazenada. Mazagão, El Jadida (Marrocos), 2007

Mazagão, El Jadida (Marrocos), 2007. Foto © António José Paulino

 

A Última Ceia

(poema de Maria do Rosário Pedreira, sugerido por Ana Cordovil e dito por Júlio Martín)

 

Trouxe as palavras e colocou-as sobre a mesa.
Trouxe-as dentro das mãos fechadas (alguns disseram

que apenas escondia as feridas do silêncio).

 

Pousou-as na mesa e começou a abri-las devagar,
tão devagar como passa o tempo quando o tempo

não passa. E depois distribuiu-as pelos outros,
multiplicou-se em dedos, em palavras (alguém disse
que chegariam a todos, ultrapassariam os séculos e
teriam a duração do tempo quando o tempo perdura).

 

Ceou com todos pão que não levedara e vinho áspero

das videiras magras do monte que os ventos dizimavam.
Quando se ergueu, havia ainda palavras sobre a mesa,
coisas por dizer no resto do pão que alguém deixara,

feridas fundas nas mãos que fechou em silêncio e devagar.

 

Perto dali uma figueira florescia. À espera.

 

(in A casa e o cheiro dos livros, 1996)

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