Diários de quarentena (26): Se não te abrires, irei à tua procura; Esperança; e uma oração em tempo de pandemia

| 12 Abr 20

Se não te abrires, irei de qualquer modo à tua procura

Flor Foto © Fernando Sousa.

Não sei porque é que o faço desde domingo passado, a verdade é que acordo todos os dias, cedo, para a ver; para ter a certeza de que está viva. E esta manhã estava e voltei a bendizer a senhora que ma apanhou, fugira eu do fartanço da casa e fora beber um café. Bebericava-o, em pé, num copinho de plástico, do outro lado da rua, a olhar para ela, eu de kispo e carapuço, ela de pétalas brancas e olho negro ao meio, a ver-me. E eu, a ela. “Gosta?” Gosto. “Vou apanhá-la para si”, disse a dona, saindo detrás de uma janela. Não, não a arranque, pedi, fica melhor aí, no seu canteiro, eu venho cá todos os dias. “Vou arrancá-la. Quando chegar a casa ponha-a numa jarra, mais tarde na terra. Assim pode vê-la todos os dias, não tem de sair de casa, olhe o isolamento!” Está na terra, num vaso, na minha varanda, fecha-se todas as noites, abre-se todas as manhãs. Hoje voltou a abrir, aí está ela. Se amanhã não o fizer, voltarei a sair de casa, à procura dela.

Fernando Sousa é jornalista

 

Pequena oração em tempo de pandemia

Cristo ontem e hoje, Princípio e fim, Alfa e Omega, A Ele o tempo e a eternidade, a glória e o poder pelos séculos sem fim. Ámen.

Senhor da Vida e da História, quando estivermos presos nas dificuldades do presente, faz-nos sentir irmãos de todos os que viveram antes de nós.

Quando nos descobrimos pequenos, limitados e indefesos, abre o nosso coração aqueles que vivem sempre na precariedade e na incerteza.

Quando sentimos falta da oração e do pão partilhado com a comunidade, enche-nos de um sentido de comunhão profunda com todos os que pelo mundo fora celebram a Páscoa.

Neste tempo de exceção, ajuda-nos a dar mais valor à vida quotidiana e às pequenas coisas de todos os dias.

Nesta globalização que se faz realidade de tantas maneiras, faz-nos ter a consciência que todos formamos parte da mesma família humana.

Amor que contagia, passa-nos o vírus da solidariedade, da empatia e da esperança no teu Amor que nunca nos deixa.

Vida plena dada até ao fim, sê o nosso Caminho e a nossa direção em todas as adversidades.

Boa Páscoa.

Sergi d’Assis é monge de Montserrat, neste momento a viver num mosteiro beneditino no Uganda 

 

Esperança, poema de Mário Quintana, dito por André Bragança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

André Bragança é aluno de Educação Moral e Religiosa no Agrupamento de Escolas José Estêvão (Aveiro)

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