Diários de quarentena (27): Humor pascal e Jesus Christ Superstar

| 13 Abr 20

Humor pascal, com the baby bu

Cartoon The Baby Bu - Páscoa

Páscoa. Cartoon © The Baby Bu, cedido ao 7MARGENS.

 

Com esta pandemia, até Jesus tem de encontrar novas formas de aparecer diante dos seus discípulos. Este ano, todos estão sozinhos em quarentena e ninguém foi ao túmulo, os discípulos não puderam estar juntos, Tomé teve de manter distanciamento social e não pôde tocar nas suas feridas, não havia ninguém a andar no caminho para Emaús, e até o próprio Jesus, como cidadão responsável, decidiu não sair. O mesmo se aplica a todos os crentes que, fisicamente afastados e juntos em oração, têm de encontrar novas formas de celebrar a ressurreição. the baby bu deseja a todos uma feliz e santa Páscoa.

(the baby bu está disponível no Instagram e Facebook; a versão em português é especial para o 7MARGENS)

 

Jesus Christ Superstar: a música e o resto de uma grande obra

Desde há muito que Jesus Christ Superstar me fascina. Comecei pelo filme, como quase todos entre nós. Só muito mais tarde ouvi uma das versões da ópera, afinal a primeira (1970), com música de Andrew Lloyd Webber e guião e poemas de Tim Rice. Mantive a adesão mais forte ao filme: pelos cenários, pela rudez a da encenação, pelo forte carácter das personagens. E, enfim, pela música e pelas vozes.

Sábado passado, noite de vigília pascal, a RTP2 ofereceu-nos uma das encenações nova-iorquinas contemporâneas de Superstar, em versão de concerto ao vivo, mas encenado. Grandes nomes da música (de diferentes proveniências e géneros), momentos de belo efeito cénico (a crucifixão, os andaimes para a orquestra e vários movimentos…). E a música, sempre a música.

Está lá tudo, estamos lá todos, nesta obra que considero ímpar (há ou havia quem a considerasse ímpia ou quase, mas há sempre quem prefira atirar pedras em vez de ver os lírios do campo): as hesitações, as angústias pessoais, a dúvida, as traições (e não só as de Judas), a lógica do poder… Mas também a força de uma mensagem, a capacidade do amor e da redenção, a proposta de uma linguagem contemporânea para uma palavra de sempre. E, nesta versão concerto e operática, ver um Jesus mulato e sem barba (John Legend) também é uma bela opção, para nos fazer desprender de imagens demasiado renascentistas, medievais ou barrocas.

Sim, nesta versão há algumas frustrações (sempre do ponto de vista pessoal): apesar de serem grandes vozes, quase nenhuma me encheu tanto como a dos actores do filme (Ted Neeley como Jesus, ou o malogrado Carl Anderson como Judas; além de “Pilatos” e “Herodes”, por exemplo, todos uns furos acima na versão cinematográfica, parece-me, com as suas vozes poderosas e intensíssimas – e mesmo com Alice Cooper como o burlesco “Herodes”). Maria Madalena (a cantora e pianista Sara Bareilles nesta versão) está praticamente ao nível da do filme (Yvonne Elliman) mas o meu gosto ainda tende para esta última.

Para quem não viu, e entre a multiplicidade da oferta televisiva /internáutica destes tempos, vale a pena ver, pois ainda é possível recorrer ao cabo ou à RTP Play, pelo menos até sábado que vem. Nota menos positiva para a tradução, com momentos de tropeção, outras vezes pobrezinha (dois exemplos, entre alguns, demasiados para uma obra destas: quando Judas recebe as moedas, diz “I don’t want your blood money, traduzido por “Não quero ser pago por sangue”, em vez de “Não quero o vosso dinheiro de sangue”; e no tema Poor Jerusalem, Jesus canta: “While you live, your troubles are many”, que é traduzido por “Enquanto perdurares…” em vez de “Enquanto vives/viveres”, que me parece muito mais fiel ao original e mais rica).

“Vi então milhares de milhões/ chorando por esse homem…” canta Pilatos no seu Pilate’s Dream. E poderia acrescentar-se: vivendo por esse Homem…

António Marujo, jornalista do 7MARGENS

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