Diários de quarentena (29): Dos telemóveis e da salvação; e uma peça de Liszt com Khatia Buniatishvili ao piano

| 14 Abr 20

Dos telemóveis e da salvação

Ainda alguém se lembra da canção dos “telemóveis”? Aquela que rezava assim: “eu parti o telemóvel/ a tentar ligar para o céu/ pa’ saber se eu mato a saudade/ ou quem morre sou eu”? Lembram-se?

Das tantas histórias lancinantes que circulam pelas redes e pelos jornais, histórias que são como que antivírus contra a angústia e medo do presente, porque a nossa necessidade de consolação é impossível de satisfazer, há uma em particular que gostaria de fazer correr à velocidade do contágio, porque não podemos adiar mais o amor. Não podemos adiar mais o amor, agora que nem sequer há tempo para um adeus, um último adeus, porque a morte radicalizou todas as distâncias fazendo-se assim tão tristemente próxima.

O frei Aquilino Apassiti tem 84 anos e, na sua vida de missionário capuchinho, nada há que o surpreenda em matéria de horrores e sofrimento. Mas agora, depois de velho, tocou-lhe ser o capelão do Hospital São João XXIII em Bérgamo, o epicentro de toda esta tragédia. Os mortos ali caem como tordos e nem a violência e o quase desrespeito das palavras se aproxima à dor que deveras sentem os bergamascos.

O nosso frade capuchino tem um tumor no pâncreas, mas não tem tempo para pensar nisso. O seu pensamento está fixo nas vítimas do vírus e nos seus familiares excluídos de qualquer contacto e proximidade dos defuntos. Todos lhe telefonam, desesperados.

E o que faz o nosso velho frade? Responde candidamente: “Os familiares dos defuntos telefonam, eu coloco o telemóvel em cima do caixão e rezamos juntos”. Palavra da salvação!

Frei Aquilino Apassiti

Frei Aquilino Apassiti, 84 anos, frade capuchinho, capelão do Hospital São João XXIII em Bérgamo. Foto: Direitos reservados

Mário Rui de Oliveira (em Roma), padre e autor de O Livro da Consolação

 

Liszt – “Ständchen” Piano Transcriptions After Schubert, interpretado por Khatia Buniatishvili ao piano

[Vídeo sugerido por Isabel Allegro de Magalhães, professora catedrática de Literatura Comparada (Universidade Nova de Lisboa) e participante do Graal, movimento de mulheres cristãs]

Artigos relacionados