Diários de quarentena (3): Uma pequena flor, um hamster com asas e um vírus que não nos isola

| 19 Mar 20

Alimentar esta “pequena flor que parece ser nada” (Texto de Teresa Vasconcelos)

Esta manhã bem cedinho, enquanto andava em passo estugado no parque da Quinta das Conchas e dos Lilases (perto de minha casa, um privilégio!), bem “protegida” e saboreando esta primavera verde e irradiante que brota por todos os lados, veio-me à mente um poema de Sophia. Em momentos difíceis da minha vida, não me cansava de o murmurar. Sei-o quase de cor. Cheguei a casa e verifiquei se estava a dizê-lo bem:

Depois da cinza morta destes dias,

Quando o vazio branco destas noites

Se gastar, quando a névoa deste instante

Sem forma, sem imagem, sem caminhos,

Se dissolver, cumprindo o seu tormento,

A terra emergirá pura do mar

De lágrimas sem fim onde me invento.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral)

Quinta das Conchas, em Lisboa. Foto © Teresa Vasconcelos

De repente “cai-me” uma mensagem no telefone: uma amiga muito querida, mãe de três rapazes, que vive e trabalha em Bruxelas, está com o coronavírus. Uma mulher nos seus quarenta anos, profissional muito ativa no âmbito do diálogo entre culturas. Esta é a primeira notícia relacionada com os que me são próximos. Tomo consciência aguda de que vai ser assim.  A “cinza morta destes dias”… a preocupação e o “vazio branco das noites”. Quero acreditar, como Sophia, que “a terra emergirá pura do mar” e que todos “nos vamos [re]inventar” a partir das lágrimas que derramarmos… Todos somos convocados a alimentar a esperança, cette petite fleur qui a l’air de rien du tout, como lhe chamava Charles Péguy.

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e integra o Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)  

 

Uma festinha a um hamster com asas (Fotolegenda de Catarina Sá Couto)

Já há uns dias me vinha à mente o estranho desejo de ver um filme sobre pandemias mundiais, para fazer um “descubra as diferenças!” com a realidade actual. Nos debates sobre a origem do corona e no filme que acabei por ver – O Contágio – percebi o quão inconsciente/irresponsável foi a festinha que fiz a este amoroso hamster com asas em S. Tomé, na fotografia. Ainda bem que não causei uma epidemia mundial…

(Catarina Sá Couto, missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona)

 

Não há vírus que nos isole! (Texto de Joaquim Nunes)

Reina o paradoxo.  As sociedades apelam à redução daquilo que as constitui.  Evitar ao máximo possível as saídas de casa, as idas à rua, os encontros, os contactos sociais, as viagens, as concentrações… Os locais de encontro – cafés, centros comerciais – estão vazios, por si ou mesmo fechados por lei…  E até as Igrejas, habitualmente preocupadas com a diminuição da prática religiosa, cancelam agora as suas celebrações, desmarcam encontros e reuniões. A vida social no seu conjunto está posta em causa…

Se há que aceitar as análises dos peritos no que diz respeito à necessidade de tais medidas para travar a epidemia, sinto no entanto, dentro de mim, como é importante encontrar formas de manifestar a sua convicção de que os outros nos faltam, de que continuará sempre a ser melhor um abraço apertado que um sorriso à distância, que o isolamento quase nunca termina bem e que é necessário tudo fazer para não deixar ninguém isolado… Como viver esta “quarentena” sem resignar nem perder a fé nos valores em que sempre acreditamos: na proximidade, na comunidade, na comunhão?

Há que encontrar gestos simbólicos.  Os italianos deram o exemplo: a horas marcadas, vêm às janelas e varandas para cantar. Onde não é possível mudar a realidade nos seus factos e durezas, há que encontrar gestos que tenham força profética, que mantenham acesa a chama da esperança, que sejam interrupção e protesto.

É a força de um destes gestos que eu sinto e estou a viver nestes dias.  Os permanentes de Taizé dos anos 1980-1982 (“permanentes” são essas e esses que ficam em Taizé um tempo prolongado para ajudar nas tarefas do acolhimento e da organização dos encontros) continuamos em contacto e, ao longo dos últimos anos, completou-se a lista dos nossos contactos via e-mail.

Foto © Joaquim Nunes

Uma de nós lançou a bela ideia de fazer um gesto de comunhão contra todas as formas de isolamento… e convidou todos os elementos do grupo (e são muitos!)  a parar todos os dias às 12h00 para um momento de oração, lá onde cada uma e cada um se encontra, cada um em sua casa, mas todos em comunhão. E a adesão está a ser grande! Espalhados por toda a Europa, e mesmo fora da Europa, ao meio-dia estamos em comunhão para rezar!  Não há vírus que nos isole!

Joaquim Nunes é assistente pastoral da Igreja Católica e vive em Offenbach (Alemanha)

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