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Marília Maia e Moura.

Diários de quarentena (30): Uma curta lista; e talvez ainda haja mar

| 15/04/2020

Diários de quarentena (30): Uma curta lista; e talvez ainda haja mar

by | 15 Abr 20

Uma lista, muito pequena

Já todos ouvimos muitas vezes que temos de ficar em casa. Muitos de nós pensam que não sabem como lidar com esta situação, este desafio que nos foi imposto.

Cada um está a viver estes tempos à sua maneira, com teletrabalho, a cuidar de quem precisa, fazer aulas online, brincar com filhos ou sobrinhos, psicologicamente melhor ou pior, mais sozinhos ou cheios de gente em casa. Há quem tenha o dia muito preenchido, outros nem tanto.

Somos constantemente bombardeados com informação sobre esta coisa má que nunca pensámos cá chegar e que nos caiu no colo num ano que todos dizíamos e achávamos ser O ano!

Mas temos de sentir bem os pés na terra, medir o que ouvimos. Com isto quero dizer que não devemos estar sempre de ouvido aberto para todo o mal que nos está a acontecer. E não deixar que o medo ou a solidão ou a saudade tomem conta de nós. É uma boa altura para pararmos e estarmos connosco.

A minha quarentena tem sido muito agitada, como o meu dia-a-dia “pré-covid”. Mas, nos poucos momentos de pausa, penso como esta vida é curta. Um dia pode estar tudo bem e, no dia seguinte, tudo mal. (Graças a Deus que, para já, está tudo bem com todos os que conheço e amo.)

A diferença é que, no meu dia-a-dia agitado, desmarco cafés, almoços, visitas porque “posso marcar para mais tarde”, dou como garantida a vida, a minha e a dos outros. Nesta quarentena caí em mim e preciso de mudar isso: não vou adiar a vida, os abraços, os almoços, os telefonemas! É isso: não vou adiar a vida!

Neste tempo difícil, olho em frente, com este simples sorriso e com a esperança de que todos juntos saibamos dar a volta este desafio.

As listas de desejos e objetivos ajudam-nos. Já tenho várias: uma lista de casas para visitar, abraços para dar, amor para distribuir! Já tenho uma lista das coisas que não posso adiar mais na minha vida!

E tenho outra lista. Muito pequena, com um pedido apenas: não adies a tua vida!

Marília Maia e Moura, aluna de Educação Moral e Religiosa Católica no Agrupamento de Escolas José Estêvão (Aveiro).

Marília Maia e Moura fotografada por Daniel Nunes, em Taizé, durante a peregrinação dos alunos de EMRC de Aveiro, no Carnaval.

 
Deve ainda haver mar

Nas poucas lojas abertas, uma mesa, uma esfregona cruzando a porta em diagonal, duas cadeiras, um banco, um qualquer outro obstáculo impedem-nos a entrada. Somos agora fregueses de rua. Comerciamos na mesma, mas não entramos. Somos atendidos na soleira da porta. Nem dentro nem fora. Estes são os espaços tornados estranhos em que nos movemos: casas sempre cheias de gente e transformadas em locais de trabalho; ruas vazias, sem barulho nem poluição; lojas em que não entramos; vizinhos que deixámos de ver… deve ainda haver mar, mas de há tanto tempo não o ver…

Que memória guardaremos destas imprevistas paisagens? Que saudades levaremos das caras e dos locais agora ausentes? Desesperamos hoje, preparando a desforra para quando voltarmos às ruas, aos locais de trabalho, às lojas, aos lugares de romaria de cada um?

Não, não quero viver isto para depois me desforrar. Não sei nem compreendo onde isto nos vai levar. Sim, é preciso compreender, mas, talvez antes, é preciso dar conta do que sentimos. Guardar todas estas coisas no coração. Coração inquieto, mas sem raiva nem desespero: “Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse. Depois desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração.” (Lc 2, 50-51).

Jorge Wemans, jornalista e membro da equipa editorial do 7MARGENS

 

Um Sol que nos ilumina

Um Sol que nos ilumina. Foto António José Paulino

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