Diários de quarentena (34): O infinito na palma da mão, numa ruína em Sintra

| 19 Abr 20

Ruínas do ermitério de São Romão, em Sintra

Ruínas do ermitério de São Romão, em Sintra. Foto © Fernando Sousa

 

As voltinhas que tenho dado à roda de casa para não dar em doido, essas morrerão por si. Sem história. Das que dei nestes dias de quarentena por carreiros de cabras até perder o sol de vista ficará a visita a São Romão – nome de ruínas de um velhíssimo ermitério do século XIII. Gosto de lá ir por caminhos por onde ninguém anda e de lá ficar sem gente à vista.

No lugar onde rezaram ou dormiram os eremitas já não há devoção. Criado poucos anos depois do primeiro rei ter conquistado Sintra, hoje está cercado, o eremitério, de casas parvas com vista para o castelo. Recebeu talvez o nome do santo de Lyon, também um asceta, não do sírio que mesmo depois de lhe cortarem a língua continuou a pregar.

Norte Júnior quis reconstruí-lo mas a vontade não passou dos papéis. Agora tem no sítio do altar amores-de-hortelão que se nos agarram às mãos e amoras que nos adocicam a boca, e, no dormitório, roseiras bravas, mais não sei que ervas embaladas por uma brisa de fim de tarde. Olho, para aquela migalha de tempo e de oração e recordo um poema de William Blake:

Ver um mundo num grão de areia
E um céu numa flor selvagem
É ter o infinito na palma da mão
E a eternidade em uma hora.

Ruínas do ermitério de São Romão, em Sintra.

Ruínas do ermitério de São Romão, em Sintra. Foto © Fernando Sousa

Fernando Sousa, jornalista

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