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Num tempo em que podíamos estar juntos. Essaouira, Marrocos, 2003.

Diários de quarentena (35): Por quem os sinos dobram (e a foto de quando podíamos estar juntos)

Diários de quarentena (35): Por quem os sinos dobram (e a foto de quando podíamos estar juntos)

by | 21 Abr 20

Por quem os sinos dobram

Muitos europeus, quando tomaram consciência da pandemia do covid-19 e se preparavam para a quarentena, correram a comprar A Peste, de Albert Camus, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Os dois romances subiram nos tops de alguns países. Perante uma crise que atrai o adjetivo “inimaginável”, talvez algumas pessoas busquem na ficção, além de um refúgio, uma forma de, recorrendo à imaginação de outros, se prepararem para situações imprevisíveis.

Enquanto digeria as notícias e alguns textos de opinião em blogues defendendo que a morte de algumas pessoas de grupos de risco não justifica paralisar a economia com uma quarentena, lembrei-me de um texto de John Donne (1572-1631), poeta inglês cujo irmão morreu de peste na prisão, aonde foi parar por razões político-religiosas:

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

Li pela primeira vez este breve texto como epígrafe de um romance de Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram, e reencontrei-o na internet, em sites antigos e em textos recentes sobre a covid-19.

Sempre me intrigou que um texto tão genérico sobre a condição humana servisse de epígrafe a um romance sobre a Guerra Civil espanhola, uma tragédia tão enraizada na História. Agora não vejo contradição entre esta afirmação genérica acerca da condição humana e a sua leitura em situações concretas muito distintas, todas elas em ambiente de crise europeia e de intensos conflitos político-religiosos: o século XVII, a década de 1930, 2020.

Da crise de covid-19 não sairemos só mais saudáveis ou doentes, mais personalistas ou individualistas, sairá também uma sociedade ainda mais desigual ou mais equitativa, ainda mais fragmentada ou mais coesa, mais democrática ou mais autoritária. Viktor Órban e Donald Trump estão aí para nos mostrar que caminhos políticos contra a democracia podem ser percorridos em nome da resposta à covid-19.

Permanece obscura para nós a conexão entre os pequenos gestos quotidianos que podemos fazer em regime de confinamento e as grandes narrativas transformadoras que se estão a construir neste momento. Talvez uma função dos “diários de quarentena” possa ser essa: além de registar um tempo da nossa vida, procurar iluminar um pouco como o nosso pequeno mundo se interliga, através do tempo, ao mundo todo.

João Miguel Almeida, historiador integrado no Instituto de História Contemporânea/Universidade Nova, e colaborador do Centro de Estudos de História Religiosa/Universidade Católica Portuguesa.

 

Num tempo em que podíamos estar juntos…

Num tempo em que podíamos estar juntos. Essaouira, Marrocos, 2003.

Essaouira, Marrocos, 2003. Foto © António José Paulino

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