Diários de quarentena (40): Uma pequena deceção

| 25 Abr 20

Uma pequena deceção

Tomei o Tomo 2 do Volume IV (Os Livros Sapienciais) da Bíblia traduzida por Frederico Lourenço (FL) com elevada expetativa sobre os salmos reescritos por ele. Apesar de se estar a rir para mim desde o último Natal, ainda não lhe tinha pegado. Pensei que este tempo de recolhimento lhe seria propício. Melhor, pensei que a leitura dos salmos “reescritos” pela belíssima pena de FL seria uma experiência contrastante com a clausura destes dias, capaz de me fazer sair dela, ainda que ficando em casa.

Tomei o tomo com a recordação do prazer imenso que fora ler as suas traduções da Odisseia e da Ilídia, do Novo Testamento e de alguns livros proféticos da tradição bíblica. Com eles viajara extasiado pelo conto, pela língua, pelo ritmo e rima, pelas imagens e linguagens, em alguns casos relendo textos que conhecia de cor e que agora surgiam com uma espantosa novidade graças a pormenores (quando não “por maiores”) ganhos pela finura da tradução e pela erudição do tradutor.

A magnífica Nota introdutória aos Salmos – curtíssima para o que nos habituou o autor – só aumentou em mim a certeza do banquete de emoções que me esperava. Pura ilusão! Devia ter lido com mais atenção o que FL nela escreve sobre os salmos gregos dos LXX e os latinos da Vulgata que, afirma, são “(…) belíssimos textos poéticos. Sobretudo os latinos – os mais conhecidos no mundo católico, depois de tantos séculos em que foram lidos, ouvidos e cantados com a fraseologia do Saltério Galicano (fraseologia essa a que foi concedido o dom, dir-se-ia milagroso, de permanecer para sempre prístina, nunca envelhecendo) – constituem objetos textuais de fascínio imorredouro.”

É isso mesmo, o Saltério que conheço, que me está nos ouvidos, na memória e no canto que não pratico interpunha-se entre mim e o que lia, fazendo prevalecer a beleza das suas frases, a marca das suas construções 100 vezes repetidas e entoadas. Bloqueio. Desisto. Regresso às traduções consagradas. Fico-me por estas. Pela primeira vez não as enriqueço com o que apreendo da novidade da tradução de Frederico Lourenço. Não sou exegeta nem crítico literário. Apenas leitor.

Fico à espera da tradução do Génesis. Tenho a certeza de que me vou maravilhar como me aconteceu com os outros textos. Mas fico com algum receio de pegar no Livro de Job (Tomo 1 deste Volume IV). Não pode, de maneira nenhuma, defraudar-me. É um diálogo demasiado fundador, demasiado belo e importante. Não posso deixar de encontrar na tradução de FL a letra que me faça descobrir imagens e significados novos. Mas, para já, deixo-o na estante. Fica para depois.

Jorge Wemans, jornalista e membro da equipa editorial do 7MARGENS

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