Diários de quarentena (42): O cuidado com o outro” me interpela, mesmo num passeio…

| 27 Abr 20

Teresa Vasconcelos. Quinta das Conchas. Jardim. Parque. Natureza

Foto © Teresa Vasconcelos

Os velhos, os velhinhos,
fortes e mansos,
são leões com coração
de passarinhos…
(Afonso Lopes Vieira, adaptado)

 

Cá vou” religiosa” e disciplinadamente para a minha caminhada matinal no parque das Conchas. Hoje a manhã apareceu cinzentona, há mais movimento na rua, estamos todos bastante cansados/as de estar confinados/as às nossas casas. Estamos fartos (eu, pelo menos, e os meus olhos…) dos écrans azul metálico dos telemóveis.

Queria, no entanto, refletir sobre uma situação que me interpela quando vou à frutaria (sempre com lentas filas), ao multibanco ou, mesmo, saborear um bom café: os idosos como eu (ou mais idosos ainda…) na rua. São cerca de 30 minutos por dia fora da minha casa e é tudo. Deixo à entrada os sapatos de sair, enfio outros sapatos e inicio as tarefas quotidianas. Apresento as minhas desculpas aos idosos, como eu, a comparação que faço com a metáfora do poema tão belo de Afonso Lopes Vieira da minha infância, que ainda sei de cor. Mas, se queremos atenção e respeito, temos de o ganhar…

Hoje havia quatro polícias municipais no parque, numa roda ampla de conversa. Detive-me e interpelei-os à distância devida. Se não poderiam exercer alguma pedagogia não repressiva com as pessoas “idosas” como eu. Que no parque, juntamente com os freaks da corrida, são eles os que não usam as precauções devidas (distâncias, máscara, luvas…) e frequentemente se aproximam indevidamente das pessoas, carentes como andamos de um forte abraço ou de uma simples mão alheia no ombro. Ai se os compreendo!

Os polícias afirmaram que os “idosos” não prestam atenção, não querem saber, que põem em risco a saúde dos outros, que dentro de si mesmos dizem que “já não vale a pena”… os argumentos do costume. Eu pedi-lhes que não deixassem de fazer alguma pedagogia, lembrando-lhes com muita ternura o que é uma cidadania do “cuidado com os outros”, sobretudo com as gerações mais novas. Os polícias têm uma autoridade e um dever que eu não tenho. Não sei se gastei o meu latim em vez de olhar para as árvores, de cheirar os eucaliptos e os arbustos do caril, de inundar os olhos de verde… mas não quero desistir minha responsabilidade cidadã.

Não posso deixar de revisitar o lindíssimo texto do cardeal Tolentino Mendonça no Expresso de sábado passado, Honra os Teus Velhos. Somos “comunidade”, temos “a vulnerabilidade de quem já tem de suportar tanto”. Não sou “um número”, não! Não me quero sentir “abandonada periferia”, desejo, muito simplesmente, “morrer cansada”! Mas, se sou cidadã de parte inteira tenho direitos, sim, mas responsabilidades também…

Afirmava Lévinas: “o cuidado com o outro” me interpela, me compele também…

Teresa Vasconcelos, professora do Ensino Superior (aposentada), participante do Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

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