Diários de quarentena (46): Dez mil refeições e um cesto de cravos

| 1 Mai 20

CLIB (Colégio Luso-Internacional de Braga). Acção de refeições solidárias na pandemia.

Cartões levados pelos voluntários do projecto e colocados à porta por uma das famílias beneficiárias. Foto: Direitos reservados

 

A minha experiência de dias de quarentena não será, talvez, a mais comum. Partilho-a assim, ao correr da pena, porque é também de forma apressada que se têm passado os meus dias. Depois de algumas semanas isolado num quarto, entre febre, livros, luto e silêncio, os meus dias mudaram completamente em muito pouco tempo. Juntei-me a um projecto do CLIB (Colégio Luso-Internacional de Braga), que, vendo que muitas instituições sociais estavam a fechar portas ou funcionavam só durante os dias de semana, numa altura em que a quarentena empurrava tantas pessoas, desamparadas, para situações de emergência, decidiu transformar a cantina do colégio numa linha de montagem de refeições solidárias.

No início, a meio de Março, eram à volta de 60 refeições (almoço e jantar para 30 pessoas), mas o número cresceu rapidamente e, quando fui pela primeira vez, a 1 de Abril, já se preparavam 180 refeições por dia. Hoje são à volta de 300, mais de 400 ao fim-de-semana. Esta quinta-feira, ultrapassámos as 10 mil refeições.

CLIB (Colégio Luso-Internacional de Braga). Acção de refeições solidárias na pandemia.

A equipa da cozinha do CLIB: duas portuguesas, uma refugiada marroquina e uma refugiada iraquiana. Foto: Direitos reservados

 

Tudo isto implica uma enorme logística. Há que garantir que as rotas são actualizadas diariamente, com as indicações que os voluntários ou os beneficiários fazem chegar, há que escolher o menu para o dia seguinte, há que gerir os donativos, as necessidade de compras e os prazos de validade, há que preparar a cozinha e cozinhar, há que gerir os voluntários e garantir que temos gente suficiente para a confecção das refeições, preparação dos sacos e distribuição, tendo em conta os limites a que as regras de distanciamento social nos obrigam, há que seguir com a identificação e validação de novos casos que continuam a aparecer diariamente, há que fazer um trabalho, que se tem revelado muito mais complexo do que seria ideal, de acompanhamento da situação de cada família e encaminhamento para os apoios a que têm direito.

Para que isto seja possível, contamos com os funcionários do colégio, todos incansáveis, que falam com carinho e esperança (e nunca com pena) de quem recebe as refeições; com uma equipa de quase 100 voluntários, sempre prontos a ajudar, munidos de um sorriso que a máscara tapa, mas transborda pelos olhos. Entre eles, deixa-me especialmente comovido a presença de tantos refugiados, vindos da Síria, Iraque e Camarões. É evidente a vontade genuína de ajudar, dizem-se felizes por poderem devolver à comunidade o acolhimento que receberam. Quanto a mim, sinto-me com sorte por presenciar tamanha humanidade.

 

Livros e bons hábitos – e um cravo a lembrar a liberdade

CLIB (Colégio Luso-Internacional de Braga). Acção de refeições solidárias na pandemia

Cesto de cravos de papel para distribuir a 25 de Abril, juntamente com as refeições. Foto: Direitos reservados

 

Nas mesas, estendemos os tabuleiros. Cada um, uma família. Distribuímos a fruta, os iogurtes, fatias de bolo, sopa, almoço e jantar. Vamos acrescentando outras coisas que nos chegam e sabemos que as pessoas precisam. Leite, bolachas, produtos de higiene, produtos de limpeza, roupa, brinquedos… agora, começámos a recolher e distribuir também livros: aproveitamos o tempo mais aborrecido que muitas destas famílias têm passado, para desenvolver bons hábitos. No final, acrescentamos sempre um postal desenhado por um aluno do colégio. A 25 de Abril, juntámos à refeição um cravo de papel, feitos por duas voluntárias, porque lembrar e celebrar o dia em que conquistámos a liberdade é algo para fazer em qualquer contexto, sempre.

Os donativos vão aparecendo justamente quando são precisos. Há dias, estávamos a ver que a comida não ia chegar, quando entra alguém com uma panela de arroz com carne. Noutro dia, eram os iogurtes que não eram suficientes para a manhã seguinte; quando o comentávamos, alguém ligou a dizer que tinha um carregamento para doar. Recebemos também duas grandes ofertas de fiambre, vindas de uma empresa e de uma escola; não tendo como o cortar, decidimos que íamos usá-lo aos cubos em várias refeições. No dia seguinte, aparecia uma máquina de cortar fiambre…

CLIB (Colégio Luso-Internacional de Braga). Acção de refeições solidárias na pandemia

Desenho de Leandro a agradecer aos voluntários.

Temos ainda ofertas que nos deixam com um sorriso especial. Um refugiado sírio com bastantes dificuldades económicas e filhos para alimentar, quando recebeu um cabaz, foi entregar-nos o conteúdo, por haver quem precise mais; uma menina que viu a mãe comprar iogurtes para nos ir dar quis contribuir doando a sua mesada; uma beneficiária fez um bolo para ser partilhado com outras famílias e usou para ele o sumo das poucas laranjas que lhe tínhamos dado no dia anterior…

Se há coisa que me tem impressionado nestes dias, é ver esta generosidade espontânea e sem limites de tantas pessoas. Quanto ao que recebemos, tudo é aproveitado; se não for nas refeições que entregamos, é noutros projectos que dão respostas paralelas e complementares. Até o que não pode ser entregue a pessoas é recolhido para os animais de uma voluntária.

Há 31 dias que vou todas as manhãs para o CLIB. No início, fazia apenas a distribuição de uma rota, depois comecei a ajudar na preparação e embalagem, a sistematizar processos, a colaborar na identificação e validação de novos casos, na procura de soluções para todas estas famílias que nos recusamos a deixar desamparadas quando a escola tiver que reabrir. Quanto mais me envolvo, mais admiro todas as pessoas que dão vida a esta cantina e que garantem cada uma destas refeições.

 

O choque da realidade

Civitas Braga. Acção solidária na pandemia

Parte da equipa da Civitas Braga. Foto: Direitos reservados

 

Paralelamente, com a Civitas Braga, uma associação para a defesa e promoção dos direitos humanos de cuja direcção faço parte, estou a colaborar na preparação de cabazes para serem distribuídos pelo Programa Autoestima de Braga e o Grupo Partilha d’a Vida, grupos focados no apoio a trabalhadores/as do sexo e suas famílias, que ficaram agora numa situação ainda mais marginalizada.

A Civitas decidiu usar o que consegue recolher em quotas e donativos, para comprar produtos para estes cabazes. Esta semana, distribuímos cabazes para 83 famílias, num total de cerca de 200 pessoas. Também aqui, tanta força de vontade, os que ajudam a carregar coisas e a dividi-las, a encaminhar pessoas para outros apoios, a garantir donativos que mantenham tudo isto a funcionar. Um espaço de enfermagem que, em vez de fechar, se transforma para enfrentar uma necessidade ainda mais urgente.

Ao mesmo tempo que me espanta e entusiasma toda a solidariedade e corações abertos, tenho tido alguma dificuldade em lidar com o choque da realidade. A quantidade de pessoas em situação de carência profunda é avassaladora. Esta pandemia veio alargar as diferenças sociais e colocá-las a nu. Tantos os casos de pessoas em situação estável que, de repente, se vêem a passar fome. Tantos os casos de pessoas com contratos de trabalho precários ou sem contrato ou com pequenos negócios, que ficam em situação de desespero. Não há um único dia em que não encontremos mais situações dificílimas. Só imagino o que mais se esconde por detrás de tantas paredes… quanta fome, quanto desespero e, quantas vezes, a vergonha de pedir ajuda.

A enfermeira do Programa Autoestima dizia-me outro dia que tinha de ajudar estas famílias, não porque fosse o seu trabalho, mas porque era “um pouco mais que enfermeira”. É esta capacidade de ser “um pouco mais” que tenho encontrado em tantas pessoas, de tantas formas diferentes. Esta capacidade de se entregarem ao outro e de se reinventarem, transformando rotinas e espaços. É esta capacidade de ser “um pouco mais” que me dá esperança numa sociedade que se possa reinventar e encontrar soluções para todos. Sem deixar ninguém de parte.

 

Luís Nuno Barbosa é estudante de Economia e vice-presidente da Civitas Braga

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