Diários de quarentena (47): Para onde nos fugiram as nossas cidades? (e a beleza do que podemos fazer juntos)

e | 2 Mai 20

A beleza do que podemos fazer juntos
(Foto de António José Paulino)

A beleza do que podemos fazer juntos. Aves. Praia. Pedra.

 

Para onde nos fugiram as nossas cidades?

Para onde fugiu a minha cidade? Procuro sentar-me a trabalhar junto das janelas possíveis. Isso permite olhar a rua, ver gente, um carro que passa uma vez por outra ou o autocarro que, muitas vezes, era o único veículo na rua, nos intervalos de 20 ou 30 minutos com que passava (e que quase nunca parava na paragem defronte).

Através da janela, ou em alguma curta saída para uma caminhada (menos que as necessárias…) percebo, nos últimos dias, que o trânsito já não se limita ao transporte público e a um ou outro veículo esparso.

Para onde fugiu a cidade? Onde se esconderam as nossas cidades e aldeias? Espaços habitados foram preenchidos de silêncio e vazio. Os nossos lugares permaneceram humanos na sua essência, mas deixámo-los penetrados por ar mais puro, por música que ouvimos com outro ouvido, por livros a que voltámos ou nos quais procurámos, pela primeira vez, uma iluminação para este tempo, por filmes que nos falam de outras histórias. Ou ainda por melros no pequeno jardim ao lado, perto da janela, por animais à solta no espaço urbano…

Ou nada disso: trabalho multiplicado de professores ou muitos outros (quantas pessoas a referi-lo…), necessidade de organizar tudo de outro modo, tensões acumuladas, depressões surgidas, impossibilidades de pensar serenamente, vontade de tudo criticar (ah, não íamos ser melhores e ficar tudo bem?…) ou de tudo comparar (a Páscoa, as missas, o 25 de Abril, as compras, o 1º de Maio, o trabalho…)

E o silêncio, sempre. Maior do que o horizonte que nos chega pelas janelas. A única vez que me lembro de um silêncio assim foi há uns anos, junto ao rio Douro: do lado espanhol, quem vem de Zamora encontra a linha de fronteira e vê o rio, bem lá no fundo, entre montanhas; um pequeno barco com duas ou três pessoas mostrava que a água estava viva (de outro modo, seria apenas uma sucessão de curvas verde escuro entre serras); e o silêncio sobre nós: apenas insectos quebrando-o, apenas a nossa respiração confirmando que era ali que estávamos…

E agora? Que respiração nos confirmará e em que lugar? Sabemos que podemos começar a voltar ao normal. Mas que normal? O dos medos? O das desumanidades? O de um modelo que insiste no crescimento (ainda não saíamos disto e já soam as campainhas a dizer que a economia tem de crescer…)? O das desigualdades que se agravam? O dos sistemas de saúde ou de protecção social postos em causa?… O de (muitos “por aí fora”)…?

Talvez tenhamos aprendido que, afinal, já noutras épocas tivemos muito medo e que também procurámos continuar a ajudar quem mais precisava.

Voltaremos ao normal, mas que normal? O das mulheres da limpeza que, invisíveis, desinfectam os locais de trabalho onde se trabalha, para assegurar tranquilidade e regras de segurança, mesmo sem máscaras porque os seus patrões não as dão? [a partir dos 12’50”] O dos agricultores, padeiros ou trabalhadores das fábricas que produzem o que temos precisado para viver fechados? O dos profissionais de saúde que lutam para devolver a vida? O de quem se mune de máscara para poder continuar a ajudar outros?… O de (tantos…)?

Não, o normal que nos faz falta não é o da especulação, o da gestão preocupada com números, o do capitalismo que pretende um crescimento até ao infinito e mais além, o da multiplicação do que-fazer, o da corrida armamentista, o dos povos dispensáveis

Sabemos que já vivemos guerras. De umas saímos com vontade de ser melhores, de outras apenas com desejos de vingança. Com o último grande conflito, os povos europeus perceberam que era preferível resolver os problemas pelo diálogo e não com a morte e a destruição que a guerra provoca. Perceberam, como dizia o Papa há um mês sobre o que deveríamos entender agora, que estamos todos no mesmo barco e que só juntos venceremos as crises que temos pela frente. Mas, depois disso, continuámos a exportar armas para que outros se matem no nosso lugar – e, pelo caminho, fomos esquecendo o que os nossos pais e avós viveram, começando de novo a exaltar o nacionalismo em vez da humanidade, o conflito em vez da cooperação, a finança em vez da pessoa.

Sabemos que a conversa terá de se fazer acerca do modelo que queremos e não acerca de recuperações absurdas. Se alguma coisa tem de ser recuperada, deve ser apenas o que seja fundamental para que cada pessoa possa viver com dignidade.

Começaremos, agora, a sair do confinamento. Onde marcaremos encontro com as cidades que nos fugiram?

António Marujo, jornalista do 7MARGENS

(Com a 47ª página dos Diários de Quarentena e com o fim do estado de emergência em Portugal, chega ao fim este espaço. Obviamente, continuaremos a dar espaço às reflexões, sugestões, leituras e propostas sobre o tempo que estamos a viver. A equipa editorial do 7MARGENS agradece às dezenas de pessoas que enviaram textos, fotos, músicas e outras sugestões e que permitiram alimentar esta coluna para um tempo especial das nossas vidas.)

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