Diários de quarentena

O Espírito surpreende-nos

Este livro não tem índice. Não tem nem precisa. Seria redundante. É uma coleção de diários. Todos os dias, de 24 de março a 29 de maio. Um exercício de diálogo com a Palavra, com os acontecimentos do dia – dos mais próximos e pessoais, aos mais longínquos e de todos conhecidos –, com as inquietações, as esperanças e as alegrias de cada dia.

Diários de quarentena (43): Fechados em casa com uma janela para o mundo

Guardado na gaveta estava um projeto de um novo site para a paróquia da Vera-Cruz, em Aveiro. As limitações de tempo eram sempre a desculpa para que tal acontecesse mas, em tempo de isolamento social e reunidas as vontades entre o pároco e a equipa de comunicação, a ideia foi sendo concretizada com mais vigor, intensidade e assertividade.

Diários de quarentena (40): Uma pequena deceção

Tomei o Tomo 2 do Volume IV (Os Livros Sapienciais) da Bíblia traduzida por Frederico Lourenço (FL) com elevada expetativa sobre os salmos reescritos por ele. Apesar de se estar a rir para mim desde o último Natal, ainda não lhe tinha pegado. Pensei que este tempo de recolhimento lhe seria propício.

Diários de quarentena (37): Insensibilidade político-social? (e uma fotografia do poder da luz)

No meio de tantos atos de solidariedade e dedicação, marcados não raro por verdadeiro heroísmo, seria pouco sensato falar de insensibilidade político-social. Em todo o caso, a persistência de várias lacunas neste domínio – também observadas nas crises económico-sociais anteriores – convidam-nos, pelo menos, a alertar para elas. Registo apenas três, por ora: a informação regular sobre a situação social; a universalização da Rede Social; e a coordenação nacional das intervenções sociais.

Diários de quarentena (35): Por quem os sinos dobram (e a foto de quando podíamos estar juntos)

Muitos europeus, quando tomaram consciência da pandemia do covid-19 e se preparavam para a quarentena, correram a comprar A Peste, de Albert Camus, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Os dois romances subiram nos tops de alguns países. Perante uma crise que atrai o adjetivo “inimaginável”, talvez algumas pessoas busquem na ficção, além de um refúgio, uma forma de, recorrendo à imaginação de outros, se prepararem para situações imprevisíveis.

Diários de quarentena (34): O infinito na palma da mão, numa ruína em Sintra

As voltinhas que tenho dado à roda de casa para não dar em doido, essas morrerão por si. Sem história. Das que dei nestes dias de quarentena por carreiros de cabras até perder o sol de vista ficará a visita a São Romão – nome de ruínas de um velhíssimo ermitério do século XIII. Gosto de lá ir por caminhos por onde ninguém anda e de lá ficar sem gente à vista.

Diários de quarentena (33): Registar o tempo que passa

Dizem os historiadores que a Guerra da Secessão (1861-64) é a primeira sobre a qual se sabe muito, se pode investigar e conhecer imenso. Porquê? Porque, ao contrário do que se passara em anteriores conflitos, nela muitos soldados e baixas patentes sabiam escrever. E escreveram. Diários, cartas e outros textos. Sobretudo cartas. Durante a guerra e nos anos posteriores. Um enorme registo de emoções, razões, expetativas, interpretações, sofrimentos e alegrias.

Diários de quarentena (32): O que fazemos para ultrapassar esta quarentena? (e um poema de Miguel Torga)

Joana Damasceno, Ana Carapina e Lara Martins, alunas de Educação Moral e Religiosa Católica do Agrupamento de Escolas José Estêvão (Aveiro): O que é a nossa quarentena. “Neste vídeo mostramos o que temos feito para ocupar a nossa quarentena. Pode também servir como ideias de atividades para outras pessoas, há muita coisa que se pode fazer! Em fundo, Joana Damasceno canta Andrà Tutto Bene (Tudo ficará bem), de Cristóvam.

Diários de quarentena (31): Por que não pontos de situação do âmbito social? (e uma homenagem com música aos que curam feridas)

Diariamente, o Ministério da Saúde faz o ponto de situação da covid-19 no país; pelo contrário, não existe informação regular acerca da situação social. A insuficiência de rendimentos, com ou sem pobreza anterior, a dependência (resultante de doença grave, idade avançada, deficiência ou acidente incapacitantes…), o isolamento sem companhia, a falta de habitação condigna, a violência doméstica… são realidades que a pandemia está a agravar e que, publicamente, quase não existem.

Diários de quarentena (27): Humor pascal e Jesus Christ Superstar

Com esta pandemia, até Jesus tem de encontrar novas formas de aparecer diante dos seus discípulos. Este ano, todos estão sozinhos em quarentena e ninguém foi ao túmulo, os discípulos não puderam estar juntos, Tomé teve de manter distanciamento social e não pôde tocar nas suas feridas.

Diários de quarentena (22): Um cartaz em Sintra e um poema de Drummond

Obrigado como todos nós a ficar em casa, Luís mandou estendeu uma bandeirola na varanda do seu apartamento, em Sintra: “Separados mas juntos!” Quem passa pela pequena praceta onde ele mora, sorri ao abraço. Não sabe é que o autor do bom grito, um jovem técnico de iluminação, 28 anos, desempregado, mandou o seu recado ao mundo quando também perdia a namorada

Diários de quarentena (18): Pessah judaica – agradecer que vivemos

Estamos a poucos dias da celebração da festa judaica de Pessah (“passagem”, Páscoa). Celebração esta em que o foco fundamental é fazermos o relato da história da libertação do Povo de Israel da escravatura no Egipto. E a “passagem” pode ser como alusão ao milagre que D-us* Bem Dito fez ao abrir o Mar Vermelho.

Diários de quarentena (17): Manual de sobrevivência e treinar a mente em casa

Isto assim não pode ser! Após poucos dias de quarentena forçada estou mais cansado do que andava com a rotina habitual de trabalho-netos-amigos-casa. A agitação máxima atingiu as redes sociais. Toda a gente fechada em casa está possessa de enorme vontade de comunicar. Mais é impossível. A todo o segundo um novo toque: SMS, WhatsApp; mail.

Diários de quarentena (15): Uma pandemia, um desafio à solidariedade

Parecemos regressados a outros tempos, os das pestes medievais ou das epidemias de há cem anos. Este facto faz-nos refletir na ilusão a que nos conduz o excesso de confiança nas capacidades humanas e na ciência. O ser humano continua a ser vulnerável diante da doença e da morte e deve reconhecer humildemente essa sua vulnerabilidade.

Diários de quarentena (14): Tudo ao contrário? Em tempos de “des-samaritanização”

A ação social básica, própria das relações de família, vizinhança e amizade, tem sido bastante descurada: ao longo da história, relevaram-se mais as diferentes instituições que foram sendo criadas, seguindo-se-lhes a consagração e desenvolvimento do Estado social. Deste modo, o patamar básico da ação social foi menosprezado, a favor do intermédio, ou institucional, e do estatal.

Diários de quarentena (12): Entre a solidão e o medo só o amor nos liberta

Os dias parecem-nos intermináveis e as noites demasiado longas para um descanso que se torna desassossego. As rotinas sucedem-se mais iguais do que nunca por se confinarem a um espaço que, sendo o nosso, parece querer sufocar-nos. Terrível experiência esta, nunca antes vivida, em que, sendo livres, nos sentimos aprisionados no lugar que ainda há dias era de acolhimento.

Diários de quarentena (10): E nós aqui tão perto

Depois de jantar, quando não há ninguém nas ruas, saio e vou até ao jardim público. Procuro não tocar em nada. Caminho durante meia hora. Cruzo-me à distância com três ou quatro pessoas. Cumprimentos com acenos de cabeça, cada qual numa borda do passeio. Um rente às casas, outro na borda da rua. Passamos.

Diários de quarentena (6): Redescobrir sentido e os mocassins dos outros

Vivemos uma época de muita preocupação. Quem vive com profissionais de saúde, tem familiares já idosos com outros problemas de saúde, alguns à distância de uma viagem, anda com o coração um pouco apertado. (…) tenho-me lembrado das descrições sobre a vida nas leprosarias que lia nos almanaques das missões na casa da minha avó.

Diários de quarentena (1) – É agora o tempo

Estamos a viver uma época extraordinária. Um tempo único. Convém não o encher de coisas ordinárias. No futuro, não poderemos olhar para este tempo apenas como um tempo cinzento em que nada de notável nos aconteceu, para além do confinamento domiciliário sobressaltado por tristes notícias. Temos de fazer agora coisas marcantes.

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