KOMOREBI { 木漏れ日 } é a palavra japonesa para a luz do sol
filtrada através das folhas das árvores.
Especificamente significa
os raios de luz que são visíveis.

“Hirayama é o personagem central deste filme, passado em Tóquio dos nossos dias. Parece ser um homem calmo e satisfeito com a vida.” Foto: Imagem do filme Dias Perfeitos de Wim Wenders
Debruço-me hoje sobre o filme Dias Perfeitos de Wim Wenders, o grande cineasta alemão. Já o tinha visto antes do Natal mas fui há dias vê-lo pela segunda vez. Um desejo profundo de voltar a passear por imagens tão belas e repousantes.
Há uma palavrada-chave no filme: KOMOREBI. Esta palavra está relacionada com a luz do sol filtrada através das folhas das árvores. Interessante não termos, no Ocidente, uma palavra única para indicar este fenómeno luminoso. Só a subtileza japonesa é capaz de a criar.
Komorebi é uma palavra que os ocidentais poderiam usar. Não apenas adicioná-la ao nosso vocabulário, mas também “às nossas vidas”: descreve a beleza dos raios de luz deslizando através das folhas por cima das nossas cabeças, provocando uma dança de sombras no chão da floresta.
Hirayama é o personagem central deste filme, passado em Tóquio dos nossos dias. Parece ser um homem calmo e satisfeito com a vida. Trabalha como empregado de limpeza de latrinas públicas – um trabalho bem “invisível” –, limpeza que faz na perfeição como se estivesse a moldar uma obra de arte: tocante o momento em que verifica com um espelho de bolso a limpeza das zonas menos visíveis da latrina.
Nos tempos de lazer dedica-se aos simples prazeres da leitura, da música e da fotografia. Tem ficheiros e ficheiros em casa apenas com fotografias de komorebi. Recolhe as imagens no jardim público onde se senta a comer um almoço frugal ou a partir das janelas da sua simples casa num bairro pobre, à luz do poente.
Kôji Yakusho, Hirayama no filme, recebe o prémio de melhor ator no festival de Cannes. Hirayama é um homem sereno, grato à vida, e que sabe encontrar beleza do seu quotidiano. Vive uma vida povoada de repetições e rituais simples. Acordar – frequentemente à luz de komoberi dançando na sua janela. Toalete simples depois de dobrar o seu futon que ocupa parte da sala. Barbeia-se, acertando meticulosamente as bordas do seu bigode. Veste o fato de trabalho. Sai de casa espreguiçando-se e olhando o céu com satisfação, tirando de uma máquina a bebida que faz o seu pequeno-almoço. Entra na carrinha que conduz pela cidade de Tóquio ao som de músicas dos anos 70 – Nina Simone, Otis Redding, Patti Smith, Bee Gees, Cat Sevens, Simon & Garfunkel, The Houses of the Rising Sun. Que saudades dessas músicas que alimentaram a minha juventude!
Regressado a casa ao fim do dia, estaciona a carrinha, pega na sua bicicleta para se deslocar aos banhos públicos; jantar frugal numa ruela estreita. Finalmente em casa trata das pequenas plantas que recolhe no jardim público com uma delicadeza extrema num pedaço de papel de jornal dobrado em copo e coloca em vasos que desenham a sua varanda. Leitura até adormecer: William Faulkner, Patrícia Highsmith, etc. Um homem com um substrato cultural alto. A sua vida é um ritual que se repete todos os dias, uma rotina diária muito estruturada: um quotidiano quase monástico, numa “liturgia das horas” tecida de silêncio e de um respeito imenso pela vida.
Tudo é estética, reverência pela beleza e simplicidade da vida. Hirayama é um homem belo, sim. Uma beleza que vem de dentro. Circulam outros personagens à sua volta. Um jovem colega, funcionário nas limpezas, que faz o seu trabalho mal feito e apenas está interessado em conquistar o coração de uma jovem. Meninas que se sentam no mesmo banco de jardim à hora do almoço, no intervalo da escola, um sem-abrigo que se abraça às árvores qual Mário Césarini. A dona de um bar que aos domingos canta melodias belíssimas. Finalmente uma sobrinha, jovem-menina que foge de uma vida luxuosa e sem sentido e pede abrigo ao tio que lhe mostra um outro lado da cidade e da vida…
O passado vai sendo intuído ao longo do filme, à medida que Hirayama se cruza com pessoas que lhe são próximas. Pressente-se uma vida anterior de fartura e luxo, talvez sem sentido, também. Assume-se na escolha de uma vida simples e frugal, de escuta e encantamento com um quotidiano que grande parte das pessoas considerariam irrelevante. Explica o seu quotidiano à sobrinha: “Agora é agora”. (…) “Afago cada dia”. É solidário e cortês com as pessoas à sua volta: o colega de trabalho, o dono do restaurante, a cantora, a sobrinha. Respira bondade e discreta atenção a quem o aborda.
Hirayama fala pouco e rodeia-se de silêncio. Inspira a bondade das coisas. Não precisa de muitas palavras porque a palavra central da sua vida é Komorebi. Ouve-se a música Sitting in the Rock of the Bay enquanto Hirayama dialoga com o marido da cantora do bar, doente com um cancro. Ambos fumam um cigarro cúmplice e bebem cerveja enquanto contemplam o movimento da água, ao anoitecer.

“Komorebi simboliza a capacidade de encontrar beleza no mundo que nos rodeia. É um sentimento, não apenas algo que se vê. É incompletude. É o cruzamento da luz e da sombra que perpassa através das folhas das árvores.” Foto © xGhostx /wall.alphacoders
A palavra Komorebi é composta de várias partes: “Ko” significa árvore ou árvores. “More” significa algo que vem através, algo que brilha através ou se infiltra. “Bi” significa: sol ou luz do sol. A palavra “Komorebi” reflete o amor romântico e emocional que os japoneses têm pela natureza. Komorebi é simultaneamente um sentimento que se expressa na manhãzinha quando o sol toca nas folhas das árvores ou quando, especialmente ao fim do dia, o sol como que beija o chão deslizando entre as árvores É uma espécie de espera daquilo que há-de vir no seu pleno, um sopro, um cheiro: o dia ou a noite. Mas por causa da promessa que contem em si a manhã é o mais belo momento do dia. Esta palavra leva-nos a uma dimensão transcendental. Daí que faça sentido o misterioso jogo do papel (semelhante ao jogo do galo) que repousa num esconderijo de uma das casas de banho e que vai sendo completado em interação com um invisível personagem ao longo dos dias. Komorebi não é apenas luz… é um feixe de luz.
Ouso afirmar que Komorebi simboliza, em termos mais gerais, a capacidade de encontrar beleza no mundo que nos rodeia. É um sentimento, não apenas algo que se vê. É incompletude. É o cruzamento da luz e da sombra que perpassa através das folhas das árvores. Esta palavra para os japoneses significa uma bela, calorosa e silenciosa imagem de algo que invade a nossa mente trazendo prazer e paz.
O conceito de Komorebi leva-nos a pousar o nosso espírito nas coisas positivas que ajudam a dispersar a dúvida, o medo ou a ansiedade. Nas situações de escuridão ou névoa há a “pequena luz bruxuleante” (Jorge de Sena) que vai orientando o nosso caminho. Por isso Hirayama fotografa obsessivamente Komorebi e as organiza em ficheiros meticulosamente arrumados.
Encontrei na internet uma interessante reflexão sobre esta palavra: Renu Vijayanand (1) afirma que “a filosofia ocidental diz-nos que haverá luz ao fundo do túnel. Contrastando com isto Komorebi lembra-nos que podemos procurar esses pequenos raios de luz ao longo da passagem pelo escuro túnel. A vida é uma viagem, não um destino”. Komorebi chama a nossa atenção para os traços de luz que podemos já ter passado sem os reconhecermos. Chama a nossa atenção para a realidade do “aqui e agora” porque não há qualquer garantia em relação ao “depois”.
Segundo o mesmo autor Komorebi trata do tecer das nossas paixões na vida de todos os dias procurando a luz quando caminhamos nas sombras e acreditando que cada traço de luz continuará a iluminar o nosso caminho. A vida é curta e não pode ser vivida na sombra. São as pequeninas coisas que trazem encanto e magia a cada dia. Hirayama descobre isso mesmo e assim não perde o encantamento: o cheiro a terra molhada quando chove (em Tóquio chove muito!), o trinar de um pássaro, uma luz que treme entre as árvores, o som das ondas rebentando na areia.
Este filme convida-nos a refletir sobre as nossas vidas. Porque corremos? Porque competimos? Porque cavalgamos o tempo e as vidas das outras pessoas? Onde a raiz da nossa inquietação? Porque consumimos, porque temos de ter tudo? Que sentido tem crescer menos, escolher o “decrescimento” (2), a tal “abundância frugal”… Sim, Hirayama pode ser uma referência, um exemplo, um desafio. Por isso me senti compelida a ir ver este filme pela segunda vez. Acaricio a palavra Komorebi. Guardo-a na palma da minha mão. Inscrevo-a no coração para não esquecer… respiro a vida que evoca.
Komorebi lembra-me o haiku japonês, chamado “um momento presente congelado em palavras”, como afirma Tam Huyen Van. Um haiku é “minimalista, simples, quase banal; (…) para captar um haiku é preciso um olhar atento e uma mente livre, (…); de acordo com a nossa capacidade contemplativa, a nossa sensibilidade à linguagem subtil do mundo” (…). Ao ler um haiku, a nossa mente e coração devem estar afinados com a delicadeza do mundo”.
Penso nos “Dias Perfeitos” vividos por Hirayama e pronuncio baixinho, quase em silêncio, um haiku de Matsuo Bashô:
Quero ainda ver
nas flores no amanhecer
a face de um deus
2. A palavra ‘Decrescimento’ pode parecer peculiar ou provocar mal-entendidos. Mas ela existe em algumas línguas latinas, como no francês ou no italiano, onde “la décroissance” ou “la decrescita” se referem a um rio voltando ao seu fluxo normal após uma inundação desastrosa. O termo inglês “Degrowth” tornou-se comum para descrever o movimento após a primeira conferência internacional de Decrescimento em Paris, em 2008. Desde então, é ubíquo na literatura académica e nos órgãos de comunicação social, sendo também usado por movimentos sociais e profissionais. Assistimos hoje à falência da felicidade quantificada tal como fora prometida pela modernidade. E, com ela, a um «crash» ecológico mais do que certo. Perante esta crise da sociedade do crescimento, é necessário inventar uma sociedade da «abundância frugal». A frugalidade elimina todo o consumo desnecessário: implica uma limitação voluntária das necessidades. (in: Wikipédia.
Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e integra o Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)










