República Centro-Africana

Dieudonné Nzapalainga, o cardeal Coragem

| 2 Jun 2021

 

Capa do livro Je suis venu vous apporter la Paix. Le combat d”un cardinal courage au cœur du chaos. Ed. MédiasPaul, Paris, 2021.

Acaba de sair o livro Vim trazer a Paz a todos. O combate de um cardeal coragem no meio do caos, que traça o perfil do mais jovem cardeal da Igreja, Missionário Espiritano. Depois dele, vem o cardeal português Tolentino Mendonça. Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, assina o prefácio que mostra o rosto de um país ainda destroçado por violências que não se sabe quando vão terminar. A visita do Papa a Bangui, a Plataforma Inter-Religiosa pela Paz e as múltiplas intervenções em contexto de violência extrema dão esperança e futuro a este povo que habita o coração da África.

 

 

 

Uma família pobre e ecuménica

Dieudonné Nzapalainga não é apenas um nome. Nasceu a 14 de março de 1967, a quilómetro e meio da fonte onde ia, várias vezes ao dia, buscar água. É o quinto de dez irmãos. A pobreza tomava conta da sua casa, como da maioria, naquela periferia de Bangassou, a 750 kms de Bangui, capital da República Centro-Africana (RCA). Trabalhou desde criança para ajudar a assegurar a sobrevivência da sua família, pobre.

O cardeal com famílias muçulmanas, em Bangui: “Vou ao encontro de todos, não medindo riscos. Não tenho medo do desafio das periferias”. Foto: Direitos reservados.

 

Os pais eram profundamente cristãos e Dieudonné nasceu num contexto ecuménico: a mãe é protestante e o pai católico. Quando nasceu, os pais tinham acabado de perder um filho. Por isso o seu nome é um duplo acto de fé: Dieudonné quer dizer, em francês, “dado por Deus” e Nzapalainga traduz-se na língua local (o sango) por “Deus sabe!”

Insistindo na matriz ecuménica da sua família, o cardeal Dieudonné explica que ainda hoje a família é metade católica e metade protestante baptista. E faz revelações inéditas: acompanhou a mãe à igreja nos primeiros anos da sua vida, sendo baptizado na Igreja protestante, ainda hoje maioritária na RCA (cerca de 51%). Aos 9 anos fez birra e quis, a tudo o custo, acompanhar o pai à igreja dele. Gostou, fez-se acólito e bem depressa o padre Leon, um missionário espiritano holandês, lhe foi abrindo caminhos atrás de caminhos para que ele entrasse no seminário.

Em casa, a oração era intensa, conta, e ele acaba por ser fruto de dois enormes exemplos de fé: o do pai e o da mãe. Por isso, confessa: “Impregnaram-se em mim duas vozes de duas tradições diferentes, eu escolhi a Igreja Católica, mas tenho sempre um grande respeito pela Igreja Protestante. Aliás, nas minhas visitas pastorais, quando digo que a minha mãe é protestante, abrem-se os olhos e os corações e algo especial nos aproxima.”

 

O salto de Bangassou a Paris

O cardeal Dieudonné Nzapalainga em Roma, em Maio. Foto © Tony Neves

 

O cardeal Dieudonné apresenta-se como um jovem de Bangassou que cedo entrou nos seminários da Congregação do Espírito Santo na RCA. Cita com reconhecimento o exemplo enorme dos Missionários Espiritanos que marcaram a sua infância, havendo uma referência especial ao já referido padre Leon, que jogava futebol com os mais novos.

Um “branco diferente”, pois os outros não iam ao bairro nem se misturavam: “foi ele que me inspirou a vontade de ser padre como ele”. O padre Leon ensinou-lhe que ser padre não podia ser vocação exclusiva dos jovens das cidades, mas era uma vocação aberta a todos.

Estudaria nos Camarões e no Gabão, antes de ser enviado a Paris para concluir, no Centre Sèvres dos Jesuítas, a sua formação teológica. Ordenado padre em Bangassou em 1998, os seus primeiros oito anos de missão aconteceriam em Marselha, na Obra dos Órfãos Aprendizes de Auteuil, apoiando uma paróquia.

De regresso à RCA, acabaria por ser eleito, em 2005, Superior dos Espiritanos e, em 2009, administrador da Arquidiocese de Bangui, cargo para que seria nomeado arcebispo em 2012. Duas grandes surpresas o esperariam – segundo confessa: a visita do Papa em novembro de 2015 para abrir a “porta santa” do Jubileu da Misericórdia e a escolha para cardeal, anunciada a 9 de outubro de 2016, tornando-se o cardeal mais jovem da Igreja.

 

Plataforma para a Paz

A RCA foi tomada de assalto, em 2013, por grupos rebeldes, auto-proclamados islâmicos. Semearam o pânico, mataram, destruíram. A própria capital ficou dividida em bairros prós e contra. Os três líderes das grandes comunidades religiosas na capital reuniram-se e decidiram avançar juntos para a reconciliação: Dieudonné, o imã Omar Kobine Layama e o pastor Nicolas Gbangou. Abriram uma das páginas mais belas da história recente da RCA, apresentada como exemplo para a África e o resto do mundo. Andrea Riccardi, no prefácio, designa-os de “os três santos de Bangui”.

Conta o cardeal que quando um muçulmano era morto na capital, a resposta era matar 20 ou 30 cristãos. Com esta Plataforma e, depois, com a visita do Papa, tudo mudou para melhor.

Os três fizeram inúmeras visitas em todo o país, arriscaram enfrentar estes grupos armados, lançaram iniciativas várias de sensibilização e compromisso pela pacificação, gritaram por apoio à comunidade internacional, amplificando o grito deste povo martirizado à conta de interesses alheios.

Dieudonné, figura chave da Plataforma, insiste na importância do trabalhar juntos, apesar das diferenças. Tal opção deu força a esta missão porque gerou confiança no seio das comunidades católicas, islâmicas e protestantes.

 

Visita ousada: Francisco no meio dos tiros

O Papa Francisco na RCA em novembro de 2015: durante seis meses não se ouviram tiros. Foto: Direitos reservados.

 

O capítulo 12 do livro conta como foi o gesto profético do Papa Francisco ao decidir visitar Bangui num momento em que o caos total estava instalado na cidade. O Papa Francisco, que tinha surpreendido tudo e todos com a decisão de fazer esta viagem missionária, deslocou-se a uma cidade a arder, para ali abrir o Jubileu do Ano da Misericórdia.

Viu-se ali um Papa “cirúrgico” nas escolhas de viagens, gestos simbólicos ou metáforas a utilizar. Foi um “milagre”, confessa emocionado o cardeal. Assim, a 30 de novembro de 2015, abriu de par em par a porta santa da catedral de Bangui, lançando um grito à intervenção e ajuda da comunidade internacional para que a estabilidade e a paz regressassem à RCA. O Papa disse: “Bangui tornou-se hoje a capital espiritual do mundo. O Ano Santo da Misericórdia chega antes a esta terra, uma terra que sofre há diversos anos a guerra, o ódio, a incompreensão, a falta de paz.” As imagens correram o mundo e a RCA passou a constar no mapa dos países a ser apoiados.

O Papa teve a coragem de ir até ao Km5, um bairro islâmico radical. Muitos dos muçulmanos apreciaram tanto esta visita que foram atrás de Francisco até ao estádio e participaram na missa, juntamente com os católicos – conta o cardeal no livro.

Na sua homilia, o Papa colocou o dedo em várias feridas, pedindo que todos poisassem as armas da morte e apostassem na justiça, no amor e na misericórdia. Dieudonné salienta, desta intervenção do Papa Francisco, a referência ao amor aos inimigos como valor evangélico extremo. Disse o Papa: “Uma das exigências essenciais da vocação cristã é o amor pelos inimigos, que protege contra a tentação da vingança e contra a espiral das represálias sem fim.”

A ida do Papa ao Km5 abriu um precedente positivo. A partir daí, quando morria algum muçulmano de forma violenta, o cardeal ia até ao bairro e os ânimos acalmavam.

O cardeal Dieudonné não poupa elogios à coragem do Papa: uma semana antes da visita havia confrontos directos na capital. “Mas o Papa teve a coragem de arriscar. A sua visita veio dar esperança. A sua presença confortou e permitiu realizar eleições livres e transparentes, com o povo a votar em paz. Durante seis meses não se ouviram tiros”.

 

Da violência à calma relativa

Após seis meses de graça, a violência regressou em força com os rebeldes a controlar, novamente o país, situação dramática que se estendeu até ao início de 2021, quando as tropas do Governo retomaram as suas posições. Para os rebeldes, só interessam os diamantes, o ouro e o gado…

A Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Bangui, foi palco de um dos atentados mais assassinos desta guerra cruel. Foi a 1 de maio de 2016, festa de S. José Operário. Um bando rebelde atacou a igreja durante a missa, disparando sobre os padres e o povo. Mataram um padre e seis fiéis.

2017 é marcado pelo grande ataque dos rebeldes a Bangassou, terra natal do cardeal. O ano seguinte, 2018, voltou a ser terrível. Os rebeldes tomaram de assalto todas as cidades do país fazendo colapsar as estruturas de governo e ordem pública. A situação humanitária tornou-se de uma gravidade extrema e a insegurança era total.

Alindao, outra cidade, foi barbaramente tomada de assalto, com cerca de 60 pessoas a serem massacradas. O paço episcopal foi atacado e dois padres foram mortos. Dieudonné deslocou-se a Alindao e, no regresso a Bangui, deu uma conferência de imprensa juntamente com o imã Layama, começando por gritar: “Nós não nos podemos calar!” Os dois líderes denunciaram a incapacidade das forças governamentais e dos militares internacionais de pararem com as barbaridades do grupo armado que age com total impunidade, aterrorizando as populações indefesas. Falaram ainda da desnutrição da população em geral, pedindo apoio urgente da comunidade internacional.

 

“Gosto de estar nas periferias”

Dieudonné Nzapalainga com o pastor Nicolas Gbangou, presidente da Aliança Evangélica Centro-Africana, e o imã Omar Kobine Layama, em Abril 2014, a fazerem uma declaração comum pela paz. Este último, diz o cardeal, “era um homem de Deus e um artesão de paz”. Foto © VOA/Wikimedia Commons.

 

O cardeal Dieudonné está contente com o caminho percorrido, embora consciente do muito que está por fazer. Alegra-se com o apoio sempre incondicional do Papa Francisco e com o facto de o povo se sentir mais livre e confiante. Considera fundamental o diálogo inter-religioso e explica porquê: “Havia muitos discursos sobre a situação; construímos, a seguir, discursos comunitários (católicos, protestantes, islâmicos); finalmente, sentamo-nos e vamos chegar a um discurso inter-religioso”.

As relações dos líderes religiosos com os líderes políticos e militares são sempre difíceis e tensas. Quando se fala de impor a justiça como caminho de paz, é-se mal entendido e mal aceite. Mas há que sentar, dialogar e encontrar caminhos de justiça.

Quando o confrontaram com o facto de ele estar num pedestal diante da comunidade internacional, a resposta dele é outra: “Sou pobre, vindo de um país pobre. Não tenho motorista, ninguém me abre e fecha portas, não deixo que a vaidade tome conta de mim. Se eu aceitasse, o Governo tinha-me dado carro e guarda costas. Nunca aceitei. Eu fico com o povo. Vêm à minha casa ministros e pobres. Recebo todos. E vou ao encontro de todos, não medindo riscos. Não tenho medo do desafio das periferias. Gosto de lá estar. Como o Papa Francisco diz, somos Igreja em saída”.

O posfácio é uma homenagem ao imã Kobine Layama que, inesperadamente, a 28 de novembro passado, faleceu em Bangui com 62 anos. Confessa o cardeal: “Era um erudito profundamente humilde. Era um homem de Deus e um artesão de paz.”

O cardeal Dieudonné termina esta conversa com o jornalista francês Laurence Desjoyaux, garantindo: “Seja qual for a duração da noite, o dia há-se surgir. A aurora nova chegará e eu sou uma sentinela que espera por esta aurora.”

 

Cardinal Dieudonné Nzapalainga (avec Laurence Desjoyaux)
Je suis venu vous apporter la Paix. Le combat d”un cardinal courage au cœur du chaos.
Ed. MédiasPaul, Paris, 2021.

 

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