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Diferenças culturais

| 18/12/2020

“Stupeur et Tremblements é um livro de Amélie Nothomb que fala dos choques culturais entre japoneses e uma belga nascida no Japão que pensava que conhecia o país”. Foto: ActuaLitté – Amélie Nothomb, Le Livre sur la Place 2018 / Wikimedia Commons

 

Stupeur et Tremblements é um livro de Amélie Nothomb que fala dos choques culturais entre japoneses e uma belga nascida no Japão que pensava que conhecia o país. O livro relata a sua carreira numa empresa: começou no posto mais baixo, e a partir daí foi sempre a descer. Gosto muito da Amélie Nothomb, e este é um dos seus livros que li com mais gosto.

Como ela, também eu tenho uma série de faux pas cometidos contra culturas alheias. No que diz respeito à japonesa, segue-se um apanhado de saberes de (triste) experiência feitos (acho que já contei algumas, mas repito, que na minha idade tudo se perdoa…):

Uma vez, num restaurante japonês, assoei-me ruidosamente. Fez-se um silêncio sepulcral na sala, e eu percebi, envergonhada, que em público os japoneses não têm corpo. De facto, não chegam a existir: não mostram emoções, não suam, não se assoam.

Uma amiga minha foi a um banco no Japão levantar dinheiro ao balcão, e quando o recebeu fez o que qualquer europeu faz: contou-o. Uma ofensa terrível ao empregado na caixa, porque lhe estava a mostrar que não confiava nele.

Outra vez apanhou simpaticamente a carteira que uma senhora tinha deixado cair no autocarro. Ou seja, várias ofensas horríveis, a saber: ela viu o erro que a senhora tinha feito (ao deixar cair a carteira, faz algo fora da normalidade, ou seja: passa a existir no espaço público), e ao baixar-se para a apanhar chamou a atenção de todo o autocarro para o erro da senhora e ainda a pôs em posição de dever um favor. Caramba!

Um amigo meu, a viver no Japão durante algumas semanas, foi buscar a mulher ao aeroporto sem levar o passaporte, porque o tinha numa repartição estatal à espera de um visto. Um polícia prendeu-o durante horas, incomunicável, e não cedia de modo algum à sua argumentação sobre ser o próprio Estado japonês a obrigá-lo a entregar o passaporte, pondo-o em posição de andar na rua sem esse documento. A situação só se resolveu quando o meu amigo mudou o disco, e começou a dizer “tem razão, o que estou a fazer é imperdoável, como é que me ocorreu sair para a rua sem esse documento?, que estupidez a minha, não presto para nada, etc.”

O meu cunhado estava a instalar um software numa empresa japonesa. Em reunião com os chefes explicou as opções A e B, e perguntou qual preferiam. Eles abriram um grande sorriso e disseram “yes”. Contei a história a uma colega japonesa, que se riu e se ofereceu para o ajudar a entender a sua cultura. Na condição de casar com ela (andava à procura de um homem que a sustentasse). E estava a falar bastante a sério – para que conste que isto de faux pas contra culturas alheias é um pau de dois bicos.

Uma vez convidámos um casal japonês para vir jantar a nossa casa. Foi há muitos anos, e havia ainda muitas coisas que não sabíamos sobre a sua cultura. Só muito tempo depois juntei as pontas, e me dei conta de que eles devem ter jantado com o estômago todo embrulhado por verem que nós andávamos com os sapatos da rua dentro de casa.

 

Helena Araújo é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

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