Obituário

Dimas Almeida (1937-2021): Rosto marcante do protestantismo português

| 11 Ago 21

António Dimas Almeida, um dos mais importantes rostos do protestantismo português, morreu nesta quarta-feira, 11 de Agosto, ao início da tarde, na sequência de problemas oncológicos. O velório decorre nesta quinta-feira entre as 17h e as 20h (com uma pequena celebração às 19h) e o funeral realiza-se sexta-feira, 13, a partir das 14h, na Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa (Rua Tomás da Anunciação, em Campo de Ourique), e poderá ser acompanhado em transmissão vídeo através desta ligação da plataforma Zoom, com o Id da reunião 875 7501 1321 e a senha de acesso iepl. 

O 7MARGENS evoca aqui, num texto da autoria de David Valente publicado também na página da Sociedade Portuguesa da História do Protestantismoo percurso pessoal, eclesial e de exegeta bíblico de Dimas Almeida, autor de um extenso comentário à tradução dos Quatro Evangelhos promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa.

Antes disso, em 2020, já em plena pandemia, o 7MARGENS publicara “Uma oração possível num tempo (im)possível”, escrita também por Dimas Almeida na sequência de uma hospitalização.

António Dimas Almeida. Foto © Ana Serras.

 

Uma das figuras culturalmente mais marcantes do protestantismo português, António Dimas Almeida nasceu no Montijo em 28 de Abril de 1937, filho de António d’Almeida e de Madalena Dimas d’Almeida.

Cedo manifestou a sua propensão para o estudo e a sua sensibilidade religiosa na comunidade presbiteriana do Montijo. Ingressou no Seminário Presbiteriano de Teologia (mais tarde Seminário Evangélico de Teologia), em Carcavelos, tendo servido primeiro como evangelista e depois como seminarista em Moura, Pias e Aldeia Nova (Outubro de 1958 a Julho de 1959 e de Setembro de 1960 até 1961), onde encontra sua esposa Suzete Simão Arrais (Dimas Almeida) com quem casa em 1 de setembro de 1960. Vão ter dois filhos: a Célia (n. 1961) e o Paulo (n. 1970).

De volta a Lisboa para completar os seus estudos no Seminário, colabora na Igreja Evangélica Lisbonense à Rua Febo Moniz, com o reverendo Carlos A. Vasconcelos. Termina em 1965 a sua tese de licenciatura em Teologia, sobre o capítulo 4 da Carta aos Efésios, e é ordenado pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal.

Em 1965/1966, já ordenado, fica a pastorear a Igreja Presbiteriana de Lisboa, à Rua Tomás da Anunciação, pois o pastor desta paróquia, Rev. Augusto Esperança (1928-2018), estava em Boston, EUA, a fazer o seu mestrado. Nessa igreja, em 1965, Dimas Almeida é contactado por uma leiga católica, Teresa Martins Carvalho, que lhe lança o desafio ecuménico a que responderá o resto da sua vida. Juntamente com Teresa Carvalho, com o padre católico Gregório Neves, professor no Seminário dos Olivais, e com o bispo da Igreja Lusitana D. Luiz César Pereira (1908-1984) formam a primeira comissão para o Diálogo Ecuménico em Portugal.

Nesses meios fervilhava o debate político e a oposição ao Estado Novo; esse ambiente e as leituras de Karl Barth cimentaram em Dimas uma profunda consciência da vocação política do cristão. Quando é colocado como pastor nos Açores, em 1966, vai levar estas duas heranças: a ecuménica que desenvolve juntamente com o padre Edmundo M. Pacheco (1925-2015), na Ribeira Grande, onde mantêm uma coluna num jornal micaelense, e a da consciência do papel dos cristãos na política, que partilha com várias figuras de S. Miguel, como Ernesto Melo Antunes (v. A Oposição ao Salazarismo em S. Miguel e outras Ilhas Açorianas, de Mário Mesquita). De regresso a Lisboa, em 1969, vem pastorear a Igreja Presbiteriana de Lisboa – entretanto, Esperança saíra para dirigir a Sociedade Bíblica –, e volta a integrar-se nos ambientes ecuménicos e da oposição cristã a Marcelo Caetano. É um dos pioneiros na troca de púlpitos com padres católicos, tendo chegado a concelebrar com o padre Alberto Neto (1931-1987), para admiração e escândalo de muitos protestantes e católicos e para testemunho de que a «passagem do anátema ao diálogo era possível», segundo o próprio Dimas Almeida.

Dimas de Almeida. Foto © Centro Cristão Vida Abundante

 

Ao mesmo tempo, passa a lecionar e depois a dirigir o Seminário Evangélico de Teologia, onde é docente de Grego, Teologia do Novo Testamento, Exegese e muitas outras disciplinas. A atividade pastoral e docente de Dimas não passa desapercebida à PIDE-DGS, que em 27 de março de 1970 envia quatro agentes a sua casa, lhe revista a biblioteca e lhe apreende os livros Evangélisation et Politique, de Phillippe Maury, Information du Monde et Predication de l’Evangile, de Jean-Marc Chappuis, Educação Sexual para Crianças, e um cartoon do seu colega Manuel P. Cardoso.

Dois dias depois das buscas da PIDE nasceria o Paulo, segundo filho de Suzete e Dimas. Em 1973, juntamente com o então presidente da Igreja Presbiteriana de Portugal, Rev. Rui A. Rodrigues, toma posição pública sobre a prisão e morte pela PIDE do presidente da Igreja Presbiteriana de Moçambique, Rev. Zedequias Manganhela (1912-1972), na prisão de Machava, o que lhe traz novos dissabores.

Em 1973, Dimas deixa de pastorear a Igreja Presbiteriana de Lisboa e vai para a paróquia de Algés, que sendo mais pequena lhe deixava mais tempo livre para a sua paixão maior, o ensino teológico. Foi reitor do Seminário Evangélico de Teologia, primeiro na Avenida do Brasil e depois na Rua Tomás da Anunciação, escola viva por onde passaram muitos pastores presbiterianos, metodistas, lusitanos (anglicanos), católicos, batistas, portugueses bem assim como inúmeros oriundos de Angola e Moçambique. Depois de uma curta passagem pelo pastorado da paróquia da Ajuda (Lisboa), Dimas Almeida deixa a atividade pastoral, mas não abandona o ensino.

Sempre sensível ao evoluir dos tempos vai, a partir de 1995/1996, trabalhar num novo projeto em colaboração com o dominicano frei Bento Domingues. Trata-se do curso em Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, que arranca em 1998, e onde lecionou a alunos de licenciatura e mestrado as cadeiras de Grego, Introdução ao Pensamento Contemporâneo, Psicologia das Religiões, Ética e muitas outras matérias. Em 2003 vê reconhecidos os estudos que completara em França, na Faculdade de Teologia de Montpellier, por meio da Universidade Nova de Lisboa, que nomeou como júri o padre Joaquim Carreira das Neves e José Borges de Pinho, ambos professores na Universidade Católica Portuguesa.

Dimas também nunca abandona a atividade ecuménica, pois mantém até ao fim da sua vida, primeiro em sua casa, em Carcavelos, e depois de 2020, devido à pandemia, através dos meios de comunicação informáticos, um grupo de estudos bíblicos por onde passaram muitos católicos e protestantes, leigos e pastores interessados, conhecido como o Grupo Ecuménico de Carcavelos.

Traduziu diversas obras de que se destacam: 95 Teses de Lutero (2008), Breve Instrução Cristã, de Calvino (2009), Ética a Nicómaco, de Aristóteles (2012), Pequena Filocália (2017). Foi autor de diversos escritos, artigos, entrevistas, recensões, publicados em livros, revistas e em acesso online, de que se podem destacar: Guerra e Paz – Uma Perspetiva Bíblica (2002), a larga «Introdução» à Revista Lusófona de Ciência das Religiões com o tema As contingências e Incidências do Pensamento de João Calvino, e o Ensaio sobre a Tradução dos Evangelhos e Salmos da CEP (2020).

Ministrou via online um curso sobre o Evangelho de S. Marcos, que também traduziu do grego.

Intelectual de primeira água e comunicador de alto nível, Dimas Almeida marcou profundamente milhares de cristãos pelo seu ensino e o seu testemunho. Faleceu hoje, 11 de Agosto de 2021. A admiração que merece de muitos é grande, a saudade que deixa é enorme.

 

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Depois de ter promovido a realização de dois inquéritos sobre o sínodo católico 2021-23, o 7MARGENS decidiu reunir o conjunto de textos publicados a esse propósito num caderno que permita uma visão abrangente e uma utilização autónoma do conjunto. A partir de agora, esse caderno está disponível em ligação própria.

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