Um perfil biográfico

Dimas de Almeida (1937-2021): Protestante livre, apaixonado pela Bíblia e “católico”

| 18 Ago 21

A PIDE entrou-lhe um dia em casa mas não levou o livro “mais perigoso” que ele lá tinha: a Bíblia. Dimas de Almeida, que morreu no passado dia 11, tinha no texto sagrado dos judeus e cristãos uma das suas marcas indeléveis. Personalidade livre, que buscava incessantemente o rigor, marcou profundamente as pessoas que com ele se cruzaram e foi um dos rostos fundamentais do diálogo ecuménico com católicos, nas últimas décadas. Um antigo aluno fala de alguém que fazia um “trabalho de relojoaria” na exigência que colocava a si mesmo e aos outros.

Pastor Dimas de Almeida e Mulher (à esquerda), na XIII Semana Bíblica Nacional, 1988, Semana Bíblica

Dimas de Almeida com a esposa, Suzete (à esquerda), na XIII Semana Bíblica Nacional, promovida pelos Franciscanos Capuchinhos: a Bíblia era, para ele, o livro “mais perigoso e revolucionário”. Foto © Lopes Morgado, cedida pelo autor.

 

Em 1994, antes da eucaristia final da Semana Social católica, promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) no Fórum Picoas, em Lisboa, o pastor presbiteriano Dimas de Almeida vestiu a alva branca usada pelos padres católicos e colocou-se perto do altar, junto dos participantes. Para ele, explicaria, fazia sentido assumir o símbolo de ministro ordenado quando os seus irmãos católicos se preparavam para celebrar a eucaristia. Não concelebrou, respeitando a formalidade canónica que assim estabelece, mas essa foi a sua forma de manifestar a comunhão. Mesmo na diferença.

Em Março de 1970, a polícia política da ditadura foi a casa de António Dimas de Almeida, como lembrou David Valente no texto que sobre ele publicou no 7MARGENS, a propósito da sua morte, ocorrida na passada quarta-feira, 11 de Agosto. Os agentes da PIDE-DGS levaram vários livros sobre a dimensão social e política do Evangelho, ou sobre educação sexual de crianças. Quando iam a sair – lembrou também o pastor Joel Pinto no funeral, sexta-feira, 13 –, o próprio Dimas voltou-se para os agentes e recordou-lhes, com um sorriso irónico, que não levavam “o livro mais perigoso e mais revolucionário” que ele tinha na estante: a Bíblia.

Nestas duas histórias, condensam-se as paixões cristãs de Dimas de Almeida: o ecumenismo e a Bíblia. Por esta ordem, ou pela inversa: para ele, o ecumenismo só podia resultar da Bíblia e esta levava necessariamente à busca do diálogo nas diferenças.

Tomemos ainda essa palavra: a diferença, para ele, não era para aplanar ou desprezar em nome do diálogo. Bem pelo contrário: era na diferença – por vezes, bem convicta, assertiva e justificada – e, muitas vezes, mesmo por causa dela, que Dimas de Almeida se aproximava intensamente dos seus interlocutores.

“Tinha uma grande abertura em relação às outras pessoas”, diz Adelino Pereira, 60 anos, que foi aluno do pastor Dimas, na Universidade Lusófona, onde frequentou uma licenciatura e um mestrado. “Não com um sentido de simples tolerância, mas de procura da compreensão da situação e buscando pontos de encontro com cada um”, acrescenta.

As diferenças eram ainda, para Dimas de Almeida, uma condição de fecundidade. Numa entrevista que lhe fiz para o Público, em Julho de 2009, dizia, referindo-se às igrejas cristãs: “Houve um tempo do anátema recíproco. No século XX, passou-se do anátema ao diálogo, com o movimento ecuménico e o Concílio Vaticano II na Igreja Católica. Mas não se pode ficar eternamente no diálogo. O grande desafio é passar do diálogo ao reconhecimento de que a pluralidade é sinónimo de riqueza, porque não há nenhuma igreja que esgote toda a verdade nem tudo o que é bom. O espaço da pluralidade é fecundo, para o reconhecimento do outro.”

Admitindo na mesma entrevista que se verifica hoje “um certo esbatimento das fronteiras confessionais, que não deve redundar em perda de identidade”, Dimas de Almeida repetia com frequência que, se os cristãos dizem tantas vezes que é mais o que os une do que o que os separa, então deveriam ser consequentes: porque não preparam as diferentes igrejas temas de catequese em comum, naquilo em que assumem as mesmas convicções? Porque não trocam professores de teologia entre faculdades católicas e protestantes? Porque não… – e citava muitos outros exemplos.

 

Homem muito livre, para lá dos acidentes da história
Dimas de Almeida.

Dimas de Almeida no Grupo Ecuménico de Carcavelos: “ético, íntegro, livre e verdadeiro”. Foto © Ana Serras, cedida pela autora. 

Foi essa a experiência do padre Peter Stilwell, ex-reitor da Universidade de São José, em Macau, e professor da Universidade Católica Portuguesa (UCP): “Conheci António Dimas de Almeida nos anos 1980”, recorda ao 7MARGENS. “Encontrámo-nos, com alguma frequência, em várias iniciativas de caráter ecuménico e cultural na Capela do Rato, em Lisboa. Surpreendeu-me logo o modo como relativizava as diferenças entre protestantes e católicos. Não por considerá-las irrelevantes, mas porque a comum filiação cristã nos irmanava muito para lá desses acidentes da história.”

Acrescenta o também antigo director da Faculdade de Teologia (FT) da UCP: “É com saudade que recordo o entusiasmo com que o Dimas falava, como se sentia em casa quando nos visitava, a hospitalidade que emanava do seu lar em Carcavelos e fazia da rede dos seus contactos expressão embrionária de uma Igreja renovada.”

O padre carmelita Armindo Vaz, professor na FT-UCP, confessa-se também “muito triste” com o desaparecimento de Dimas de Almeida e recorda intercâmbios académicos: “Sendo protestante e presbiteriano, convidou-me para dar aulas de Antigo Testamento no Seminário Evangélico de Teologia [SET] e, mais tarde, já no curso de Ciências das Religiões da Lusófona. E quando eu estava na direcção da FT da UCP convidámo-lo para várias intervenções.”

Sonia Huli testemunha que o mundo de Dimas de Almeida não tinha fronteiras. Filha de uma sobrevivente da Shoah, Sonia foi directora de design de roupa de competição e de moda e reside há 31 anos em Portugal. Cinco ou seis anos depois de ter vindo do Brasil, uma amiga falou-lhe do grupo que era animado por “um senhor que faz estudos sobre a Bíblia”. “Fui e adorei”, ficando a participar nos encontros semanais do Grupo Ecuménico de Carcavelos que Dimas de Almeida animou até há meses, recorda agora, comovida pelo “vazio muito grande” que já sente com a morte do amigo.

Mesmo sendo judia e apesar de o grupo estudar sobretudo os textos do Novo Testamento cristão, Sonia Huli diz que isso nunca a impediu de se sentir acolhida: “Uma vez perguntei porque não estudávamos também alguma coisa do Antigo Testamento [a Bíblia hebraica], já que falávamos tanto de judeus…” E explica, ironizando: “Há muita gente que não sabe, mas o Novo Testamento só fala de judeus.”

A pergunta de Sonia, que integra a Comunidade Israelita de Lisboa, levou a que o grupo se debruçasse sobre os livros do Génesis e Êxodo. E ela pôde partilhar também “a visão judaica” sobre os textos. Por exemplo, sobre a frase “olho por olho, dente por dente”, vista como aceitação da ideia de vingança: “Como judia, isso significa que se eu tiro o olho, tenho de olhar por você; se tiro o dente, tenho de fazer-te a sopa.”

“Homem muito livre”, como diz Sonia Huli, o pastor Dimas considerava “interessante estudar a Bíblia e ter vários olhares” sobre ela. “Tinha um profundo respeito” por cada pessoa e pela sua “liberdade”, preocupava-se “com todo o mundo”. “Nunca conheci alguém tão ético, tão íntegro, tão livre e tão verdadeiro”, acrescenta.

A diversidade de olhares era, para Dimas de Almeida, uma matriz fundadora do cristianismo. Na sua permanente referência ao cristianismo das origens, tema central das suas indagações, insistia: “Os quatro evangelhos são o resultado da aventura de homens e mulheres apaixonados por Jesus, e são narrativas com uma profunda intenção teológica: os herdeiros reclamam também a sua herança de Jesus que é, desde o início, plural.”

Em 1997, no Encontro de Reflexão Teológica, do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, onde fez essa afirmação, dizia, a propósito da ideia de que “no princípio, era a heterodoxia: Jesus foi um mestre tão surpreendentemente livre que suscitou entre os seus discípulos uma pluralidade diversa de testemunhos”.

 

“Trabalho de relojoaria”
Dimas de Almeida.

Dimas de Almeida num encontro do Grupo Ecuménico de Carcavelos: um “trabalho de relojoaria” na forma como se aproximava dos textos e da sua exegese. Foto © Ana Serras

 

Nascido em 28 de Abril de 1937, no Montijo, António José Dimas de Almeida frequentou o Seminário Presbiteriano de Teologia (mais tarde, SET), em Carcavelos, como conta David Valente, no texto já citado. Foi ordenado em 1965 como pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal (IEPP), ficando como responsável da comunidade da Rua Tomás da Anunciação (Campo de Ourique, Lisboa). Em 1966 foi para os Açores, envolvendo-se com pessoas vinculadas ao diálogo ecuménico e/ou à oposição à ditadura do Estado Novo, que intensificará quando regressa a Lisboa três anos depois.

Começou a dar aulas e dirigiu, depois, o Seminário Evangélico de Teologia, por onde passaram cristãos de várias denominações e mesmo crentes de outras religiões. Esse trabalho culminaria com a criação da área de Ciência das Religiões, na Universidade Lusófona, projecto em que se envolveria com o seu amigo Bento Domingues, frade dominicano.

“Fui convidado para organizar o curso, ficando eu como director e o Dimas e Alfredo Teixeira [actualmente na Universidade Católica] com a responsabilidade do programa”, conta frei Bento. “O que mais apreciava no Dimas é que ele era um exímio conhecedor do grego e uma pessoa de enorme rigor, quase calvinista, no sentido de ser escrupulosamente rigoroso.”

Adelino Pereira, que é técnico superior da Segurança Social, usa outra expressão para caracterizar essa forma de estar: era um “trabalho de relojoaria” o que Dimas de Almeida manifestava na sua exigência para consigo e para com os outros. “Um grande ecumenista, que entendia a religião como importante para a compreensão e a paz entre povos.”

O franciscano capuchinho Lopes Morgado, chefe de redacção da revista Bíblica, recorda os convites sempre aceites para várias conferências nas semanas bíblicas nacionais organizadas pelos capuchinhos. E resume: “Era um homem estudioso, forte nas suas convicções, sabendo respeitar as dos outros, sem cair na armadilha de um consenso passivo sem ilustração nem diálogo, comprometedor para ambas as partes.” Acrescenta: “Muito exigente e sério, na sua reflexão e no modo como preparava as suas intervenções. E às vezes, ao defender o seu pensamento, fundamentado nas muitas leituras e na reflexão crente, poderia atingir o tom da polémica, talvez preferida por ele, como via de inquietação, ao diálogo sereno, mas amorfo, sem têmpera nem raízes.”

 

“Preciosos vagabundos”
Dimas de Almeida, Pai Nosso, Bíblia

Manuscrito de Dimas de Almeida com a tradução do Pai Nosso a partir do grego: os primeiros cristãos eram “preciosos vagabundos no encontro consigo mesmos”. 

O rigor de Dimas de Almeida também se plasmava, refere ainda Bento Domingues, nas diferentes obras por ele traduzidas e registadas no texto de David Valente. Entre elas, as 95 Teses de Lutero (2008), a Breve Instrução Cristã, de Calvino (2009), a Ética a Nicómaco, de Aristóteles (2012), e a Pequena Filocalia (2017). Mas a última tradução – em rigor, a revisão de uma tradição, foi a do evangelho de Marcos, enviada no início de Maio aos membros do Grupo Ecuménico de Carcavelos e alguns amigos mais a partir do hospital onde estava.

Na Pequena Filocalia, que reúne escritos de vários dos teólogos e pensadores dos primeiros séculos cristãos – os designados Padres da Igreja –, ficou traduzido o seu interesse central pelos tempos e movimentos fundadores do cristianismo – fosse o Novo Testamento, fossem os Padres da Igreja.

“Quanta admiração não foi a minha ao traduzir estes homens do Deserto!”, escrevia ele na nota com que, há quatro anos, apresentava a edição de Pequena Filocalia (ed. Paulinas). “Fortes, fisicamente fortes na sua mística, foram muitas as vezes em que os vi como preciosos vagabundos de um encontro consigo mesmos, peregrinos da busca do essencial”, acrescentava, referindo-se a esses autores, com os quais lutou durante oito longos anos até finalizar a tradução.

“Ao terminar as traduções da Ética a Nicómano e, sobretudo, da Pequena Filocalia, que o atormentaram durante anos, ele apareceu transformado, parecia outro”, recorda ao 7MARGENS o pastor Joel Pinto, amigo de Dimas de Almeida há muitos anos e que, a pedido dele, fez a homilia no funeral.

Bento Domingues insiste na importância desse labor: “No trabalho dele sobre os começos do cristianismo, do movimento cristão, ou em textos como o comentário à tradução dos evangelhos, publicado no 7MARGENS, está espelhado o sentido de toda a sua actividade”, acrescenta.

Armindo Vaz, que integra a comissão de biblistas nomeados pelos bispos católicos para a nova tradução da Bíblia, sublinha também a importância desse texto, que foi já debatido pelo grupo. “É muito positivo e faz sugestões para a tradução muito bem escritas e fundamentadas. Vamos seguramente acolher algumas como possibilidade de correcção ou melhoria desta nova tradução.”

Para lá do trabalho de investigação, o padre Armindo recorda um homem “acolhedor, afável, que a um dado momento se tornava amigo, independentemente dos diferendos religiosos ou institucionais”.

 

“Riqueza do evangelismo”, que “abria portas aos católicos”
Dimas de Almeida.

Dimas de Almeida, um “testemunho vivo e ecuménico” das igrejas protestantes. Foto © Ana Serras

Bento Domingues conhecera Dimas de Almeida quando a cooperativa Pragma, um dos grupos católicos de oposição à ditadura, organizou duas conferências sobre o texto do Concílio Vaticano II (1962-65) acerca do ecumenismo. Foi logo depois do final do Concílio. “Descobri aí o grupo ecuménico”, de Dimas de Almeida, Teresa Martins de Carvalho, do bispo da Igreja Lusitana César Pereira e do padre Gregório Neves, figura destacada do clero católico de Lisboa.

Andanças várias continuaram a ligá-los: conferências e debates no Centro Ecuménico Reconciliação, na Figueira da Foz, ou, mais tarde, os “Encontros do Lumiar”, no mosteiro das Monjas Dominicanas, em Lisboa – além de múltiplas outras iniciativas.

“Continuámos sempre amigos, trabalhámos juntos muitas vezes. Pessoalmente, para mim era uma referência de alguém completamente entregue ao conhecimento do Novo Testamento. Sabia que o podia consultar a toda a hora nas minhas hesitações e ignorâncias. E ele tinha sempre uma resposta não pronta: ia estudar. Foi fantástico na capacidade de programação da licenciatura de Ciência das Religiões, ele dava rigor ao curso.”

Se Dimas foi ainda “uma riqueza do evangelismo português”, na expressão de Bento Domingues, ele também “abria as portas aos católicos: “Nós tínhamos um conhecimento livresco das outras igrejas; ele era um testemunho vivo e ecuménico dessas outras igrejas.”

O envolvimento de Dimas de Almeida na primeira fase da Ciência das Religiões da Lusófona correspondeu também a uma fase de maior afastamento da sua realidade institucional na Igreja Presbiteriana. Dimas foi “fundamentalmente um professor”, diz Joel Pinto, pastor da Igreja Reformada na Suíça e da IEPP. Mas “o contexto em Portugal não favorecia uma carreira académica, que o protestantismo português na altura não valorizava suficientemente”. Noutros países, no entanto, “ele seria considerado um grande teólogo”, acrescenta Joel Pinto, que é também editor do blogue Itinerários, parceiro do 7MARGENS.

 

Um grande comunicador, com gosto pela ironia

“Era um homem muito complexo, muito perfeccionista, que falava através das palavras, mas também dos silêncios.” Foto © Ana Serras, cedida pela autora. 

 

“Teologicamente, Dimas de Almeida não criou um sistema original, mas singularizou-se pela sua capacidade em comunicar os grandes temas com erudição”, acrescenta Joel Pinto. “Era um grande comunicador, com um enorme gosto pela ironia, em quem a erudição, a contradição e mesmo o paradoxo estavam muito presentes.”

“As únicas coisas que guardamos dele são conferências, artigos e outras intervenções”, diz Joel Pinto, resumindo o lamento de amigos, admiradores ou companheiros de jornadas, por Dimas de Almeida não ter deixado uma obra que sistematizasse o seu pensamento. Joel Pinto recorda, ainda, que o amigo foi “cúmplice na reflexão sobre participar ou não na guerra colonial: decidi deixar Portugal para não fazer a guerra e ele acompanhou-me na decisão”.

“Era um homem muito complexo, muito perfeccionista, que falava através das palavras, mas também dos silêncios.” Era comum o pastor Dimas suspender a palavra, a mão e o olhar quando falava, à procura da expressão que se seguiria. Cada palavra era pesada e só podia ser aquela palavra. Por isso, a sua busca era, por vezes, demorada. Nas dúvidas do seu comentário à tradução dos Evangelhos, publicado no 7MARGENS, cada vírgula ou sinal de pontuação tinha um sentido. E por isso, cada correcção era pensada – e a versão publicada corresponde exactamente ao que ele pretendia.

Adelino Pereira toma, aliás, a foto de Ana Serras que acompanhou a publicação do obituário escrito por David Valente e que aqui fica de novo reproduzida: “Aquela foto é o Dimas, naquele gesto peculiar, que dava a sensação de que estava permanentemente a estender a mão ao outro. E o sorriso, um sorriso do tamanho do mundo. O seu rosto parecia sempre o de menino, de um permanente estado de espanto e admiração perante a existência e as outras pessoas.”

Dimas de Almeida foi também membro, entre 1975 e 1990, da comissão executiva da Conferência das Igrejas Protestantes dos Países Latinos da Europa, enquanto representante do Copic. Entre 1976 e 1986, integrou ainda, como teólogo, o Departamento de Teologia da Conferência Cristã pela Paz, com sede em Praga.

Várias mensagens de condolências chegaram à Igreja Presbiteriana na altura da morte e do funeral, enviadas pelos responsáveis das igrejas Lusitana-Anglicana e Metodista, que integram o Conselho Português das Igrejas Cristãs (Copic), a par da IEPP; da Aliança Evangélica Portuguesa e Sociedade Bíblica Portuguesa; da Comunidade Bahá’í e da Igreja Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Do lado católico, além de vários amigos, o Centro de Reflexão Cristã despediu-se “com gratidão” do seu sócio fundador, numa mensagem na página do Facebook, que remetia para o obituário de David Valente no 7MARGENS; e o padre José Constança, vice-reitor do santuário do Senhor Santo Cristo, de São Miguel (Açores) manifestou também o seu pesar.

 

Tarefa inacabada
Dimas de Almeida

Dimas de Almeida a baptizar uma criança, nos primeiros anos do seu ministério de pastor presbiteriano: “uma marca indelével em quem conviveu e aprendeu com ele”, diz o Copic. Foto © Direitos reservados.

 

No comunicado oficial a propósito da sua morte, a direcção do Copic resumia: “Deixou uma marca indelével em todos aqueles e aquelas que, pela sua excelência científica e pedagógica, tiveram o privilégio de conviver e aprender com ele ao longo de várias décadas e nos mais diferentes contextos. O pastor Dimas de Almeida viveu intrínseca e intensamente o ecumenismo, demonstrando uma visão marcadamente transbordante face a qualquer circunscrição denominacional. Pela vida e obra que nos legou, tornou-se uma personalidade de referência, inspiradora e respeitada pelos que o conheceram, bem como pelas mais diversas sensibilidades cristãs religiosas em Portugal.”

Apesar da importância que para tantas pessoas tinha o seu modo de agir e de ler a Bíblia, Dimas de Almeida reduzia-se à condição de alguém que apenas se apaixonara por Jesus e que o desejava para outros, através da escolha livre de cada pessoa. No texto que escreveu em Maio, na sua última hospitalização, enjeitava qualquer papel de “fundador” do Grupo Ecuménico de Carcavelos, colocando o seu centro na “força de Jesus de Nazaré”. E acrescentava, no documento que o 7MARGENS publicou:

“Este grupo de Carcavelos viu-se definindo cada vez mais como um grupo de Jesus. A sua figura veio-se impondo e impondo cada vez mais. (…) numa altura em que as igrejas católicas e protestantes recuam na sua influência, Ele, Jesus de Nazaré, continua a apaixonar muita gente fora das igrejas (quer mesmo em filmes quer em romances). Que o Grupo Ecuménico de Carcavelos se deixe impregnar por Ele.”

“Vejo o seu espírito ecuménico num excerto do seu comentário à tradução da Bíblia”, acrescenta Lopes Morgado, que cita: “Que fique bem claro isto: eu preciso da Igreja Católica (tal como ela é, como instituição e como acontecimento) para viver a Igreja que é também a minha (tal como ela é, como instituição e como acontecimento). A unidade da Igreja (é minha funda convicção) não temos de a conquistar: ela é já Una, na unidade que nos é dada em Jesus. Foi ele o grande conquistador dessa unidade: nós só temos de o seguir! A Igreja nascente proclamou essa unidade: na pluralidade fecunda que viveu. E quantos conflitos de interpretação não viveu ela!”

Há um ano, nesse texto de mais de 100 páginas que escreveu para comentar a tradução do Novo Testamento, promovida pela CEP (e que o 7MARGENS publicou ao longo de dez semanas), o teólogo e exegeta Dimas de Almeida escreveu a dado passo: “traduzir (…) é sempre uma tarefa inacabada. Quantas vezes não tenho eu revisto traduções feitas por mim em anos passados! Queria, pois, reafirmar aqui que é vivendo esta experiência de uma fraternidade na vulnerabilidade comum que vou deixar aqui a minha leitura de uma vintena (serão uma trintena?) de passos respigados dos evangelhos tal como eles são dados a ler nesta nova tradução católica. Nem sei bem quantos são esses passos: não os contei. O tempo falece-me para mais. Sim, literalmente, o tempo falece-me.”

Nas últimas semanas de doença, contou Joel Pinto no seu funeral, repetia à esposa, Suzete, com quem casou em 1961 e com quem teve dois filhos: “Diz a todos os que perguntarem por mim, que eu morro com Jesus, que eu morro em Jesus.”

Faleceu-lhe o tempo para mais, mas Dimas de Almeida morreu em Jesus.

 

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