Dimas de Almeida e a renúncia a si mesmo

| 2 Out 2021

Dimas de Almeida

Dimas de Almeida: “…coisa surpreendente, no meio de um cristianismo fatigado, a sua figura fundadora, Jesus de Nazaré, continua a ser uma figura fascinante. Cada vez mais homens e mulheres dizem não às Igrejas e sim a Jesus.” Foto © Ana Serras, cedida pela autora.

 

As rubricas católicas desencorajam “elogios fúnebres” nas missas com intenção.  Na eucaristia celebramos a radical entrega de Jesus Cristo à vontade do Pai; esse largar mão da vida em favor dos outros que Jesus aponta aos discípulos como caminho – caminho seu e caminho deles; esse tornar-se pão partido para a comunhão de todos. A celebração da eucaristia é expressão litúrgica desse deixar-se envolver – por leituras, cânticos, ritual, … – na única entrega de Cristo. Como se lê na anáfora: “Humildemente Vos suplicamos que… sejamos reunidos, pelo Espírito Santo, num só corpo”. Na celebração de 30.º Dia do seu falecimento, portanto, evocamos a memória do Dimas para que ela entre na grande memória que em cada missa fazemos de todos que morreram em Cristo para um dia com ele ressuscitar.

Ao lembrar hoje o meu amigo, o nosso amigo e irmão Dimas, recordo como, no fundo, foi isso mesmo que, na sua fé operativa, ele nos testemunhou: a unidade na caridade. Para lá dos detalhes – sem dúvida importantes – das doutrinas, e da tradição rica e plural dos rituais; congregando a multiplicidade de tantos caminhos percorridos, está a disciplina maior de nos descobrirmos imanados no seguimento de Cristo e, ao fazê-lo, descobrirmo-nos envolvidos no amor imenso – por cada um, por todos e pelo mundo – que nos renova como sopro do Pai.

Mas o evangelho de hoje [Marcos 8, 27-35, quando Jesus pergunta aos discípulos “E vós, quem dizeis que eu sou?”] vai mais longe.  Renunciar a si mesmo não é proposto por Cristo só a cada discípulo, individualmente.  É mandato também para as comunidades que em torno deles e depois deles se constituíram.  Para isso nos alertava, com insistência, o Pastor Dimas, como neste texto publicado um ano atrás:

… coisa surpreendente, no meio de um cristianismo fatigado, a sua figura fundadora, Jesus de Nazaré, continua a ser uma figura fascinante. Há, cada vez mais, homens e mulheres que dizem não às Igrejas e sim a Jesus. …

Daí a importância dos evangelhos. Daí a importância da sua tradução. Os quatro evangelhos, escritos num grego de singeleza aristocrática, são textos fortes que têm resistido e continuam a resistir à usura do tempo, e que continuam a surpreender-nos. Meu Deus! Como são fortes aqueles textos! Na sua pluralidade, nas interpretações diferentes que fazem de Jesus, atestam o quanto o cristianismo nascente foi plural. E, como tal, anti-totalitário. O Jesus de Nazaré que deles emerge é sempre surpreendente: gosta mais de fazer perguntas do que dar respostas e tem um comportamento não poucas vezes desconcertante. Nele não podemos pôr um rótulo porque ele é inclassificável.

Quer isto dizer que a Igreja (una e plural) é Igreja porque os quatro evangelhos, ao longo dos séculos, a têm portado e suportado. Sim, portado e suportado. É que ele, o Evangelho uno e plural, é infinitamente maior do que as nossas Igrejas, e é ele o Evangelho que as tem portado e suportado na desobediência que tem sido a delas. Elas precisam dele para viver.

… E é louvável que a Conferência Episcopal Portuguesa tenha mostrado o seu desejo de ouvir outras vozes neste projeto de uma nova tradução da Bíblia. Procurei ser uma dessas vozes.

Falece-me o tempo para mais. Literalmente, falece-me o tempo.

Permitam-me que termine com uma citação de Thomas Merton. Perante o mistério insondável da vida e da morte, seja esta aspiração cristã a nossa invocação de bênção para o Pastor Dimas, nesta hora:

“Tenho um só desejo…
desaparecer em Deus,
mergulhar na sua paz,
perder-me no segredo da Sua Face.”

 

Peter Stilwell é padre católico do Patriarcado de Lisboa; este texto corresponde à homilia da missa de 11 de Setembro, na celebração do 30º dia da morte de António Dimas de Almeida, celebrada na Capela do Rato, em Lisboa.

 

Silêncio: a luz adentra no corpo

Pré-publicação 7M

Silêncio: a luz adentra no corpo novidade

A linguagem não é só palavra, é também gesto, silêncio, ritmo, movimento. Uma maior atenção a estas realidades manifesta uma maior consciência na resposta e, na liturgia, uma qualidade na participação: positiva, plena, ativa e piedosa. Esta é uma das ideias do livro Mistagogia Poética do Silêncio na Liturgia, de Rafael Gonçalves. Pré-publicação do prefácio.

pode o desejo

pode o desejo novidade

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo I do Advento A. Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Novembro de 2022.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Manhã desta quinta-feira, 24

“As piores formas de trabalho infantil” em conferência

Uma conferência sobre “As piores formas de trabalho infantil” decorre na manhã desta quinta-feira, 24 de Novembro (entre as 9h30-13h), no auditório da Polícia Judiciária (Rua Gomes Freire 174, na zona das Picoas, em Lisboa), podendo assistir-se também por videoconferência. Iniciativa da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil (CNASTI), em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), a conferência pretende “ter uma noção do que acontece não só em Portugal, mas também no mundo acerca deste tipo de exploração de crianças”.

Porque não somos insignificantes neste universo infinito

Porque não somos insignificantes neste universo infinito novidade

Muitas pessoas, entre as quais renomados cientistas, assumem frequentemente que o ser humano é um ser bastante insignificante, senão mesmo desprezível, no contexto da infinitude do universo. Baseiam-se sobretudo na nossa extrema pequenez relativa, considerando que o nosso pequeno planeta não passa de um “ponto azul” situado num vasto sistema solar.

Mais do que A Voz da Fátima

Pré-publicação

Mais do que A Voz da Fátima

Que fosse pedido a um incréu um texto de prefácio para um livro sobre A Voz da Fátima, criou-me alguma perplexidade e, ao mesmo tempo, uma vontade imediata de aceitar. Ainda bem, porque o livro tem imenso mérito do ponto de vista histórico, com o conjunto de estudos que contém sobre o jornal centenário, mas também sobre o impacto na sociedade portuguesa e na Igreja, das aparições e da constituição de Fátima e do seu Santuário como o centro religioso mais importante de Portugal. Dizer isto basta para se perceber que não é possível entender, no sentido weberiano, Portugal sem Fátima e, consequentemente, sem o seu jornal.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This