“Posicionamento institucional” do CNE

Dimensão afetivo-sexual integra projeto educativo do escutismo católico

| 4 Out 2023

Escuteiro molda coração em barro. Foto Facebook CNE

Em termos gerais, o documento assume as crianças, adolescentes e jovens como “protagonistas do seu desenvolvimento integral”, valorizando no seu percurso educativo a vivência da afetividade e da sexualidade. Foto © CNE.

 

O escutismo católico português, representado no CNE – Corpo Nacional de Escutas, acaba de aprovar um “posicionamento institucional” sobre a afetividade e a sexualidade no seu programa educativo, que visa contribuir para a “construção de um projeto de felicidade” dos seus membros, repudiando “todos os comportamentos agressivos e de discriminação injusta, nos relacionamentos interpessoais, afetivos e sexuais”.

O CNE é um movimento de educação não-formal de crianças, adolescentes e jovens, que segue o método escutista proposto por Baden-Powell, interpretado à luz do Evangelho. O movimento valoriza a multidimensionalidade da vida dos jovens e a dimensão afetiva já fazia parte do seu projeto educativo. A vivência pessoal da sexualidade não tinha sido, até estes anos mais próximos, objeto de atenção particular, apesar da consciência da sua importância para os membros da associação.

Em declarações ao 7MARGENS, o padre Luís Marinho, que foi nos últimos dez anos assistente nacional do CNE, salientou que se trata também de capacitar os dirigentes e educadores escutistas e, através deles, todo o movimento para “uma abordagem serena e aprofundada” de uma matéria em que, frequentemente, mesmo em ambientes cristãos, predominam os slogans, as polarizações e as tomadas de posição”.

 

Um vocabulário e uma língua comum

Nesta linha, Luís Marinho chama a atenção para uma questão básica, mas nem por isso suficientemente cultivada: a criação de um vocabulário para que haja uma ‘língua comum’ que facilite o entendimento, nas conversas. Por isso mesmo – e este é um aspeto certamente interessante e singular do documento agora produzido – mais de uma dúzia de termos ou expressões utilizadas no texto do “posicionamento” são objeto de explicação e desenvolvimento numa coluna lateral (ex.: projeto pessoal de vida, afetividade, compromisso, sexo , género, projeto de felicidade, etc.).

O texto, entre outros pontos, valoriza e afirma a doutrina da Igreja sobre a sexualidade, o amor e o matrimónio; “reconhece o contributo da afetividade e da sexualidade para um projeto de vida feliz e não ignora a existência de situações de dor, de sofrimento e de exclusão”; reconhece que “a expressão sexual do amor é também querida por Deus no contexto do amor autenticamente humano”; e exprime o desejo do CNE de sensibilizar os seus membros para as “situações de sofrimento de pessoas com diferentes orientações sexuais, decorrentes dos processos de construção da sua identidade pessoal”.

Em termos gerais, o documento assume as crianças, adolescentes e jovens como “protagonistas do seu desenvolvimento integral”, valorizando no seu percurso educativo a vivência da afetividade e da sexualidade e “ajudando-os a crescer e a tornarem-se adultos ativos, com espírito crítico, capacidade de intervenção social, iluminados pela fé cristã e preparados para encontrar e dar respostas às perguntas do dia a dia”.

O reconhecimento da “centralidade do respeito pela liberdade pessoal e pelo envolvimento das famílias como elementos essenciais no processo educativo das suas filhas e filhos, à luz do Evangelho de Jesus Cristo” é também um ponto do compromisso agora assumido pelo Corpo Nacional de Escutas.

 

Um longo trabalho de auscultação e aperfeiçoamento

Posicionamento Institucional subordinado ao tema da vivência da afetividade e da sexualidade no programa educativo do CNE

O padre Luís Marinho salienta que esta posição institucional sobre a afetividade e a sexualidade é apenas o fim de uma etapa, num caminho que terá, agora, uma fase de aplicação e concretização.

O documento orientador surgiu de um trabalho de mais de dois anos, no âmbito de um projeto intitulado Entre Linhas, a que o 7MARGENS fez referência, a meio do percurso. Segundo o padre Luís Marinho, a dinâmica passou pela constituição de um grupo de trabalho que integrou escuteiros de diferentes idades, regiões e sensibilidades, e também parceiros externos do CNE; pela auscultação de um significativo número de especialistas de diferentes áreas das ciências sociais e humanas; e pela escuta dos jovens escuteiros, com particular incidência no grupo dos caminheiros (18-22 anos) e de jovens dirigentes (franja etária subsequente).

Esta escuta envolveu iniciativas em que os jovens puderam expressar o que vivem e sentem e como a fé cristã ilumina (ou não) essas dimensões e experiências da vida. Para além desta vertente presencial e interativa, a escuta passou igualmente pela disponibilização de uma ferramenta online que recolheu contributos livres sobre a mesma problemática.

Neste último ano, chegou-se a um primeiro esboço de texto que procurou captar os pontos fundamentais do debate. A partilha e comentário tanto no interior da associação, como também entre outras entidades e instituições eclesiais, foram permitindo apurar este “posicionamento institucional” até à versão agora dada a conhecer.

O documento sublinha a vontade de articular este processo com o processo sinodal que a Igreja Católica está a viver. O ex-assistente nacional do CNE faz notar que, apesar de a convocação do Sínodo sobre a Sinodalidade ter ocorrido já depois de criado o grupo de trabalho, essa orientação sinodal foi adotada e caracterizou todo o trabalho desenvolvido, no que diz respeito à escuta, à participação e à cultura do cuidado com o desenvolvimento integral que se pretende promover no CNE.

O padre Luís Marinho salienta também que a posição institucional sobre a afetividade e a sexualidade é apenas o fim de uma etapa, num caminho que terá, agora, uma fase de aplicação e concretização.

“O documento não é um regulamento, antes define horizontes educativos para o enriquecimento do projeto educativo e a capacitação do CNE”, diz o presbítero. Falta agora uma nova etapa, já fora do projeto Entrelinhas, que passará, nomeadamente, pela elaboração de módulos de formação para dirigentes e tipologias de atividades com as crianças e jovens escutistas.

 

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