Diocese da Pensilvânia cria Fundo de Reparação de Sobreviventes de abusos

O bispo de Erie, Lawrence T. Persico, falando aos jornalistas sobre a criação do Fundo de Reparação de Sobreviventes (Foto © Anne-Marie Welsh/Diocese de Erie)
A diocese de Erie (Pensilvânia) criou um Fundo de Reparação de Sobreviventes, estabelecido para pagar indemnizações às vítimas de abuso sexual por parte de clero ou leigos daquela diocese. Ao mesmo tempo, a diocese manifesta-se empenhada na transparência e honestidade sobre o tema.
O fundo tinha sido anunciado a 8 de Novembro de 2018 e está a funcionar desde o passado dia 15, sexta-feira. Todas as vítimas que tenham uma queixa de abusos (que seja investigada e comprovada) são elegíveis a poder obter uma compensação monetária pelos danos que o crime lhes possa ter causado. Adicionalmente, as vítimas já conhecidas são convidadas também a utilizar o mesmo.
Além disso, o fundo terá um mecanismo para as vítimas poderem aceder aos arquivos da diocese em relação ao seu caso. A diocese faculta ainda a possibilidade de ter um advogado sem custos que lidará com todas as burocracias.
Na altura do anúncio da iniciativa, o bispo da diocese, Lawrence T. Persico, manifestou a sua esperança de que esta medida trouxesse alguma justiça ou ajudasse a pôr um fim ao sofrimento, acrescentando: “Apesar de o dinheiro nunca sarar as feridas sentidas pelos sobreviventes, este fundo é um passo crucial na reconciliação e esforços de reforma que temos feito.”
No comunicado a propósito da iniciativa, a diocese expressa ainda o desejo de lançar uma segunda fase, que recompensaria familiares de vítimas falecidas e vítimas de pessoal não-diocesano.
Em declarações ao 7MARGENS, Anne-Marie Welsh, directora do gabinete de comunicação da diocese de Erie, diz que a diocese tem estado empenhada na transparência e honestidade: “Há muitos anos, as pessoas pensavam que conhecer este tipo de comportamentos iria escandalizar os que têm fé. Mas não trazer os assuntos a público criou um escândalo ainda maior. Hoje, somos grandes defensores da transparência. As pessoas têm o direito de exigir do clero que os serve que vivam as vidas que proclamam”. Parte desta transparência está refletida no site da diocese, onde, na página principal, são visíveis vários botões com o intuito de relatar abusos.
A diocese de Erie é uma das dioceses da Pensilvânia. No conjunto, este estado norte-americano é um dos 25 casos mais graves de abusos sexuais de membros do clero católico em todo o mundo, até agora registados. O 7MARGENS enviou a porta-vozes e responsáveis de dioceses, conferências episcopais e instituições um conjunto de perguntas para avaliar o grau de gravidade do que sucedeu, as respostas dadas, a forma como os católicos viveram esta questão e o que está por fazer.
No relatório do grande júri do estado da Pensilvânia, publicado em agosto de 2018, relativo aos abusos que ocorreram em seis de oito dioceses daquele estado norte-americano, são contabilizados abusos por parte de pelo menos 300 membros do clero (por comparação, em Boston falava-se de 150 a 250). O relatório dá conta ainda que “apesar da lista de padres ser longa, não achamos que tenhamos apanhado todos os infratores”, por se saber que há vítimas que ainda não terão tido coragem de falar. Precisamente por isso, diz o documento, é que são incluídos na lista de abusadores os padres que já morreram pela “suspeita de que muitas vítimas podem estar vivas – incluido vítimas que nunca relataram o que sucedeu por acharem estar sozinhas. Essas vítimas merecem saber que não estavam sozinhas e que a culpa não foi delas.”
No relatório da Pensilvânia, são referidas histórias que, entre muitas outras, se destacam pela natureza particularmente cruel: um padre que violou uma menina de sete anos quando a foi visitar ao hospital, um que obrigou um rapaz de nove anos a fazer sexo oral e depois utilizou água benta para purificar a boca da vítima e uma mulher que testemunhou a sua história em tribunal mas que, por causa do que lhe tinha sucedido, se tinha tentado matar.
Em relação aos pormenores do relatório, Welsh destaca a revolta mas também a resiliência da fé perante o horror: “É muito difícil ouvir os detalhes, especialmente dos crimes cometidos. Muitas pessoas ficaram profundamente magoadas ou ofendidas. Mas tenho ficado impressionada com o número de pessoas que permanecem comprometidas com a Igreja. A sua fé é especialmente em Jesus e não nos humanos que falharam.”
Na diocese de Erie – que serve pouco mais de 220 mil católicos, um quarto da população da região -, esclarece a responsável, há 41 abusadores registados pelo relatório da Pensilvânia, na sua maioria com mais do que uma vítima. Vários cumpriram ou estão a cumprir penas de prisão, outros foram expulsos do ministério. Desde 2002, acrescenta, quando os bispos dos EUA publicaram um guia para a protecção de crianças e jovens, as incidências destes casos foram “drasticamente reduzidas” – aliás, o relatório do Grande Júri refere também isso mesmo.
Além das outras medidas já mencionadas, o gabinete de comunicação de diocese dá conta de que “tem incluido orações como um dos passos para a cura”: “O bispo Persico anunciou um dia de preces quando o relatório do grande júri foi lançado. Todas as 97 paróquias da diocese aderiram à iniciativa, com as igrejas abertas das 7 da manhã às 7 da noite”. “Este é um compromisso para continuar”, acrescenta Anne-Marie Welsh, que diz ainda que o bispo tem recebido muitas mensagens de crentes a querer ajudar os que não conseguem ultrapassar o sucedido.
(Foto de abertura: Mary Solberg/Diocese de Erie; a entrevista teve o contributo de António Marujo)
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