Diocese de Lamego prepara acção de conjunto dos padres sobre violência doméstica

| 4 Dez 19

Maria do Rosário Carneiro (CNJP), Elisa Brites (APAV) e António Lucena, um dos organiadores da acção de formação. Foto © Diocese de Lamego

 

A diocese de Lamego vai preparar uma iniciativa sobre a questão da violência doméstica, que pode passar por, no mesmo dia, as homilias dos padres nas missas da diocese terem todas esse tema, com conteúdos de informação semelhantes e preparados previamente.

No final da jornada de formação diocesana do clero, que decorreu segunda-feira, dia 2, essa foi uma sugestão avançada pelo director do Departamento Justiça e Paz (DJP), António Lucena, “bem recebida” pelo clero e leigos católicos presentes, como refere ao 7MARGENS por aquele responsável, que foi um dos principais organizadores da jornada.

“O DJP vai agora trabalhar a ideia”, que poderá passar pela preparação de informação para distribuir aos párocos e tópicos para referir na homilia, acrescenta Lucena. O objectivo é levar as pessoas que eventualmente necessitem de apoio a aproximarem-se dos padres, tendo estes previamente informação sobre os passos a dar e aconselhar as eventuais vítimas.

Se a ideia se concretizar, será a primeira vez que uma diocese ou uma estrutura católica (descontando congregações religiosas que apoiam mulheres, incluindo vítimas de violência) tomará uma iniciativa concreta de sensibilização e acção sobre este tema.

O bispo da diocese, António Couto, presente na jornada, desafiou também os perto de 80 participantes a “pensar as melhores soluções para os problemas”, destacando que “o contributo de cada um é importante” no caminho do serviço mútuo entre as pessoas.

 

“Responsabilidade de não olhar para o lado”

O tema da violência doméstica foi abordado, na jornada, por Elisa Brites, da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), de Vila Real, e Maria do Rosário Carneiro, vice-presidente de Comissão Nacional de Justiça e Paz. “A violência doméstica é um crime de natureza público, pelo que todos, crentes ou não crentes, temos a responsabilidade de não olhar para o lado, para não sermos cúmplices dessa mesma violência”, diz António Lucena. Em qualquer caso, acrescenta, “o princípio basilar de toda a acção é o princípio da autonomia da vítima, para o qual é necessário promover uma decisão informada”.

O director do DJP justifica a atenção: “Uma pessoa vítima de violência doméstica tem a sua felicidade e liberdade perdidas, mas também todo e qualquer ato de violência doméstica tem um impacto brutal quer a nível social, de saúde e mesmo em termos de desempenho profissional.” O papel das paróquias e dos párocos, como espaços e factores de proximidade, é alargar a consciência de que “a violência doméstica é um problema global, mas com uma intervenção local, pelo que as paróquias podem ser locais diferenciadoras na detecção e tratamento deste flagelo”.

Como dizia a fundadora do Lar de Santa Helena, das Irmãs Adoradoras, em Évora, “devemos estar atentos a quem chora nos últimos bancos da igreja”.

A jornada de formação foi organizada em conjunto com o Departamento Diocesano para a Vida e Ministério dos Sacerdotes e contou ainda com uma abordagem de questões relativas ao Regulamento Geral da Proteção de Dados, tendo em conta a necessidade de as paróquias se adaptarem às normas nele previstas e vendo o RGPD como uma “oportunidade de reorganização”.

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