AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Helder Afonso, diretor da Pastoral Nacional dos Ciganos. Foto: Direitos reservados.

500 anos da expulsão dos portugueses ciganos

Diretor da Pastoral dos Ciganos quer Estratégia Nacional de integração

| 08/04/2026

 

Assinalam-se, nesta quarta-feira, 8 de abril, os 500 anos do alvará promulgado por D. João III, em 1526, que determinou a expulsão e perseguição das comunidades ciganas em Portugal. Meio milénio depois, esta data impõe-se não apenas como memória de um passado marcado pela exclusão, mas sobretudo como um apelo à consciência coletiva, à justiça histórica e à construção de um futuro mais digno e inclusivo.

Nas respostas a Sérgio Carvalho, Hélder Afonso, diretor da Pastoral Nacional dos Ciganos, reflete sobre o peso dessa herança, ainda visível nas desigualdades e no preconceito persistente, mas também sobre os sinais de esperança que emergem da resiliência e da riqueza cultural do povo cigano.

 

Hélder Albertino Carneiro Afonso, natural de Mouçós, Vila Real, tem um percurso nas áreas da educação, intervenção social e pastoral. Licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa (Porto) e em Serviço Social pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, é ainda Mestre em Ciências Religiosas. Exerce funções como professor do Ensino Básico e Secundário, nas áreas da Educação Especial e da Educação Moral e Religiosa Católica, conciliando a prática pedagógica com uma forte sensibilidade social e humana.

Destacou-se também pelo envolvimento cívico e comunitário, sendo atualmente presidente da Junta de Freguesia de Mouçós e Lamares, em Vila Real. Ale´m de ter coordenado projetos sociais na Cáritas Diocesana de Vila Real, desempenhou funções como delegado da Diocese de Vila Real para as áreas das Migrações e do Turismo, bem como coordenador dos departamentos das Migrações e Minorias Étnicas. Desde 2013, colabora com a Pastoral Nacional dos Ciganos.

PERGUNTA – Que significado tem esta data para a comunidade cigana em Portugal?

HÉLDER AFONSO – O marco deste meio milénio não deve ser apenas uma memória de sofrimento, de políticas repressivas e de anticiganismo estrutural, mas sim um ponto de viragem. Como salientei na mensagem para este Dia Internacional dos Ciganos de 2026, esta efeméride reveste-se de um simbolismo marcante. É o momento de reconhecermos o contributo inestimável de mais de meio milénio de vida cigana para a cultura e identidade nacionais. Apesar de cinco séculos de convivência forçada e muitas vezes dolorosa, as portuguesas e os portugueses ciganos têm demonstrado uma força inabalável e uma resiliência notável face à adversidade.

 

Este documento marcou o início de séculos de marginalização. De que forma essa herança histórica ainda se faz sentir na vida das comunidades ciganas hoje?

O preconceito é, infelizmente, uma herança pesada que se transmite de geração em geração. O anticiganismo continua profundamente enraizado na nossa sociedade. Um inquérito recente revelou que mais de metade das pessoas de etnia cigana em Portugal já sofreu discriminação, um número dramaticamente superior ao da população em geral. Esta exclusão manifesta-se de forma concreta no acesso à habitação, na educação e no mercado de trabalho, perpetuando ciclos de pobreza que aprisionam sucessivas gerações e mantêm grande parte desta comunidade à margem da sociedade.

Família da aldeia de Lagares, na freguesia de Mouçós e Lagares em Vila Real. Foto: Direitos reservados.

Família da aldeia de Lagares, na freguesia de Mouçós e Lagares em Vila Real. Foto: Direitos reservados.

A Igreja tem refletido cada vez mais sobre a memória histórica e as feridas do passado. Este é também um momento de exame de consciência para a sociedade e para a própria Igreja?

Sem dúvida. A Igreja Católica iniciou um caminho de aproximação e reconciliação perante o peso desta história de sofrimento. Recordo o histórico encontro de Pomezia, em 1965, quando o Papa Paulo VI mudou o paradigma da exclusão ao afirmar aos ciganos: “Vós na Igreja não estais às margens, vós estais no centro, vós estais no coração. Vós estais no coração da Igreja”. Mais recentemente, em 2019, na Roménia, o Papa Francisco sentiu a necessidade de pedir perdão em nome da Igreja, reconhecendo que, ao longo da história, os discriminámos e maltratámos “com o olhar de Caim em vez do de Abel”. Este exame de consciência é imperativo para toda a sociedade.

 

Que papel tem tido a Pastoral dos Ciganos na promoção da dignidade, inclusão e reconhecimento cultural do povo cigano?

A Pastoral dos Ciganos procura ser um construtor de pontes, seguindo o apelo do Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti. O nosso papel é promover o diálogo, escutar e respeitar. Trabalhamos para que a integração seja defendida para todos, sem exceção, compreendendo que dialogar com “o outro” não exige que este abdique da sua própria identidade ou renegue os seus princípios culturais. Procuramos dar visibilidade aos exemplos inspiradores de superação na comunidade e reiterar o compromisso de combater o anticiganismo em todas as suas frentes, lembrando sempre que a inclusão é um direito e o respeito mútuo é um dever.

O desconhecimento gera preconceito. Quais são os maiores estereótipos que ainda persistem em relação aos ciganos em Portugal?

Os estereótipos são usados para excluir e levantar fronteiras. O medo do outro, quando se transforma em rejeição e hostilidade, torna-se um problema social corrosivo. O anticiganismo, reconhecido pelo Conselho da Europa como uma forma específica de racismo, alimenta-se do desconhecimento. Muitas vezes, a sociedade associa a comunidade cigana à marginalidade, ignorando a riqueza da sua cultura e a sua capacidade de integração. No entanto, como vemos hoje, há cada vez mais jovens a quebrar barreiras, a frequentar o ensino superior, a assumir cargos de representação política e a destacar-se nas artes, provando que o futuro pode e deve ser diferente.

Como pode a Igreja, nas suas paróquias e comunidades, contribuir concretamente para uma maior integração e acolhimento das famílias ciganas?

A Igreja e a sociedade civil são chamadas a imitar a pureza das crianças, que não conhecem o preconceito e procuram apenas conviver em paz, superando as distinções que os adultos tantas vezes impõem. Concretamente, as paróquias devem ser espaços de acolhimento incondicional. Como sublinhou o Papa Leão XIV no Jubileu dos Ciganos de 2025, devemos respeitar a fraternidade universal, lembrando que “todo o ser humano nasce à imagem de Deus” e que “somos todos irmãos e irmãs”. É fundamental promover a educação inclusiva e apoiar as famílias no acesso equitativo à habitação e ao emprego, recusando os estereótipos fáceis e educando para a convivência.

Este aniversário pode ser também uma oportunidade pedagógica. Que iniciativas estão previstas (ou deveriam ser promovidas) para assinalar esta data de forma construtiva?

Esta data deve ser um catalisador para a ação política e social. É inadmissível que, em 2026, Portugal ainda não tenha uma Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas. A ausência deste instrumento perpetua desigualdades históricas e a segregação habitacional e escolar. Como diretor nacional da Pastoral dos Ciganos, apelo urgentemente aos decisores políticos para que avancemos com esta Estratégia Nacional. Devemos também promover espaços de diálogo, partilhar a riqueza da cultura cigana e celebrar os exemplos de sucesso que nos inspiram a construir um país verdadeiramente inclusivo. A inclusão não é um privilégio, é um direito; o respeito mútuo não é uma opção, é um dever.

Bandeira da comunidade cigana ciganos povo rom

Bandeira da comunidade cigana.

A cultura cigana é rica em valores como a família, a solidariedade e a espiritualidade. Que contributo específico pode oferecer à Igreja e à sociedade portuguesa?

A cultura cigana tem um contributo inestimável a oferecer. A figura do beato Zeferino Giménez Malla reflete perfeitamente estes valores: a promoção da vida, a centralidade da família, o acolhimento incondicional e a alegria de viver. As comunidades ciganas são verdadeiras peritas na fraternidade e na solidariedade. O Papa Leão XIV exortou os ciganos a fazerem “conhecer a beleza da sua cultura”, partilhando a fé, a oração e o pão fruto do trabalho honesto. Estes valores são essenciais para construir uma convivência verdadeira e pacífica, lembrando-nos de que as diferenças culturais não podem servir de desculpa para o afastamento ou a desconfiança.

O Papa Francisco insistia numa Igreja “em saída” e inclusiva. Como se concretiza este apelo junto das comunidades ciganas?

Concretiza-se sendo “protagonistas da mudança de época em curso”, como pediu o Papa Leão XIV. Significa ir ao encontro das periferias, não apenas geográficas, mas existenciais. O Papa Francisco lembrou-nos que devemos ter “um coração maior, ainda mais amplo: sem ressentimentos”, para seguir em frente com a dignidade da família, do trabalho e da oração. Uma Igreja “em saída” é aquela que não espera que os marginalizados venham até ela, mas que vai ao seu encontro, reconhecendo o valor incondicional de cada ser humano e trabalhando ativamente para derrubar os muros da desconfiança e do medo através do respeito e da solidariedade.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This