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Operação de resgate da equipa dos Médicos sem Fronteiras ao largo de Malta, Mediterranean Sea, May 2022. Photo by ANNA PANTELIAMSF

Relatório da Médicos Sem Fronteiras

“Dispararam contra o barco para tentar afundá-lo”

| 05/03/2024

Operação de resgate da equipa dos Médicos sem Fronteiras ao largo de Malta, Mediterranean Sea, May 2022. Photo by ANNA PANTELIAMSF

De acordo com a MSF, entre 2016 e 2021, o “número de pessoas que tentaram sair da Líbia pelo mar e que foram forçadas a regressar novamente ao país aumentou drasticamente”. Foto © Anna Pantelia/MSF

 

A organização Médicos Sem Fronteiras presta apoio aos mais vulneráveis em diversos pontos do mundo. Entre as pessoas que auxilia, estão aquelas que deixam os seus países em busca de melhores condições de vida, mas que nesse percurso reencontram de novo o sofrimento. Numa das histórias, a guarda costeira líbia disparou contra um barco de migrantes para o afundar.

 

As pessoas que procuram segurança “são muitas vezes encurraladas violentamente sem acesso a cuidados de saúde ou proteção em países que não pertencem à União Europeia (UE), mas que têm acordos de cooperação com a UE”, indica a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), no seu último relatório sobre o tema, intitulado Death, despair and destitution: the human costs of the EU’s migration policies (“Morte, desespero e miséria: os custos humanos das políticas de migração da UE”), escrito a partir do que membros daquela organização testemunharam entre agosto de 2021 e setembro de 2023.

Um dos exemplos é o da “conduta da guarda costeira líbia durante intersecções no mar que, em alguns casos, chega a pôr em risco a vida de pessoas em perigo”. “São-nos frequentemente relatados casos de violência durante intersecções pelos nossos pacientes na Líbia e no Geo Barents, o navio de buscas e salvamento da MSF”, refere a organização humanitária. De acordo com a mesma fonte, entre 2016 e 2021, o “número de pessoas que tentaram sair da Líbia pelo mar e que foram forçadas a regressar novamente ao país aumentou drasticamente”.

Um homem natural dos Camarões, resgatado no mar em 2022, contou à organização humanitária o que viveu a bordo do barco. “Fiz-me ao mar com 83 pessoas, num barco branco insuflável. Connosco estava uma mulher grávida. Às 19h30, vimos os líbios atrás de nós. Aproximaram-se e gritaram: ‘Parem imediatamente ou disparamos’. Dissemos-lhes que ‘Não’, que não podíamos parar. Eles circundaram-nos enquanto tentávamos escapar. O capitão recusou-se a parar. Dispararam contra o barco para tentar afundá-lo. Começou a entrar água. Aí não tivemos outra escolha. Atiraram-nos uma corda e vieram para cima de nós, gritando e insultando-nos. Ajudámos a grávida a entrar no barco líbio. Tivemos de embarcar rapidamente, porque o nosso barco se estava a afundar. Conheço um maliano e um guineense que se afogaram assim.”

Segundo a MSF, quando as pessoas regressam à Líbia “são frequentemente transferidas para centros de detenção”. “Migrantes e refugiados nesse país são detidos arbitrariamente e presos em centros à margem da lei, onde não há acesso garantido a cuidados de saúde”, refere a organização humanitária que, entre janeiro de 2022 e julho de 2023, realizou “23.769 consultas de saúde primária em oito centros de detenção no Oeste da Líbia”. As equipas da MSF assistiram “indivíduos em situações de extrema vulnerabilidade, incluindo crianças não acompanhadas, pessoas com deficiência física ou doenças crónicas e sobreviventes de tráfico humano ou tortura”.

 

Texto publicado ao abrigo da parceria entre o 7MARGENS e a revista Fátima Missionária.

 

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