A Casta dos Castos

Dissimulação e mentira

| 6 Nov 2023

A Casta dos Castos: eis um livro muitíssimo esclarecedor, que não se coíbe de pôr o dedo na ferida. Simplificando muito, todo o seu conteúdo se pode resumir à afirmação de que o celibato não passa de um logro! A instituição está longe de acreditar nas suas virtudes e, sobretudo, na sua exequibilidade em larga escala. Mas não deixa de o impor teimosamente, contra todos os factos, por constituir um meio altamente eficaz de estabelecer a clivagem entre clero e leigos, procedendo à divinização dos primeiros e, portanto, à diferenciação absoluta em relação aos segundos. Porém, muito poucos são os que efetivamente cumprem as regras que oficialmente vigem. A instituição sabe disso, mas pouco se importa com esse facto.

Em todo este processo milenar, o que é realmente relevante é a aparência e não a realidade. É por isso que o silêncio e a mentira sobre a forma efetiva como o clero vive a sua afetividade, e o sexo que lhe está associado, são dois elementos orientadores e estruturantes da vida pessoal e institucional. A consequência de uma tal situação é a proliferação de vidas inautênticas, fundadas na dissimulação e na hipocrisia, com tudo o que daí advém para a saúde mental (e moral) do clero. Mas à instituição pouco releva a saúde mental e o equilíbrio afetivo e psíquico dos membros da sua estrutura hierárquica. O que se torna determinante é a manutenção da aparência de santidade que envolve os seus hierarcas e que subjaz ao exercício do poder sagrado.

A dissimulação reina tanto na vida pessoal como na institucional. E ao contrário do que se pretende fazer crer, não se trata apenas de uma questão de moral individual e de orientação pessoal da vida, mas da imposição de uma forma de estar inteiramente desprovida de sentido, inexequível para a quase totalidade das pessoas. Mais um fardo impossível de transportar que, desta vez, atinge o clero, com óbvias repercussões sobre todos os que com ele vão conviver. A principal consequência, que é também o principal objetivo do celibato obrigatório, é a fundamentação da natureza “divina” do poder do presbítero e do bispo, bem como a clericalização da Igreja, com todos os desvios que daí decorrem, como o abuso de poder nas suas mais variadas formas de se manifestar, incluindo a pedofilia.

Torna-se, por isso, urgente eliminar o celibato obrigatório, desclericalizar presbíteros e bispos e reconhecer a centralidade da comunidade e de todos os seus membros na construção da vida comunitária de fé.

Tendo vivido vários anos no interior de um seminário, reconheci-me em larga medida na narrativa de Marco Marzano. E foi por sentir que me era de todo impossível fazer de conta que tudo corria bem, ao mesmo tempo que Troia ardia, que me senti eticamente constrangido a abandonar o barco antes de naufragar com ele.

Não se tratava apenas da questão sexual, embora este problema estivesse sempre presente. Foi também a constante renúncia à verdade e à transparência num sistema que punia insistentemente a verdade, a ousadia, a liberdade, o espírito crítico e a transparência. Sobreviver num tal sistema está intimamente ligado ao desenvolvimento de estratégias de dissimulação e hipocrisia não consentâneas com a minha maneira de orientar a vida.

A um dado momento, tornou-se impossível suportar uma tal estrutura. Se quis viver de forma autêntica, tive de procurar fora o que dentro da instituição era improvável encontrar: um ambiente propício à verdade e à autenticidade existencial, que permitisse o pleno desenvolvimento humano dos seus membros e não a sua menorização permanente. Não admira, pois, que todo o edifício se tenha mantido de pé à força de atitudes persecutórias, da ocultação da verdade, da inadmissível intrusão na vida pessoal, pelo constante incremento do sentimento moral e da culpa dilacerante sempre ligados ao omnipresente mas indizível sexo.

Somos humanos. Todos, sem exceção, sejamos ou não membros da hierarquia. E enquanto humanos, precisamos de satisfazer necessidades básicas de forma adulta e ética, sob pena de nos desumanizarmos e alienarmos. E tal como satisfazemos a necessidade de alimento, também a natureza exige que se satisfaça a necessidade sexual e afetiva. Será assim tão difícil perceber isto? Certamente que o é para quem erige o valor do poder sagrado acima da felicidade dos que o exercem.

Espero que o sínodo atual venha trazer um novo dinamismo às reformas necessárias, incluindo as questões do “poder sagrado” que tomaram conta da estrutura hierárquica da Igreja, ao longo dos seus já cansados dois mil anos. A construção de comunidades vivas, sadias, de iguais entre iguais, onde todos se sintam em casa e sejam ouvidos, releva de uma urgência que a todos deveria mobilizar.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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