Ditadura da esperteza ou psicopatia

| 20 Jan 20

Vivemos na era do destemor e do medo; da aceleração e da lentidão; das raivas e das guerras, mas também do desejo de paz; da ambição de conhecimento e da real ignorância sem qualquer sabedoria.

Enfim, existimos no tempo de tudo e de nada em que os perdidos se encontram e os encontrados parecem, tantas vezes, perdidos.

Somos cultos e iletrados, espertos e pouco inteligentes, inteligentes e pouco espertalhões.

Este é o caldo em que o ser humano submerge e, em simultâneo, tenta sobreviver.

O mundo que conhecemos e no qual vivemos está a ficar bizarro devido aos seus constantes paradoxos.

Muitos bons parecem maus e maus parecem bons; muitos genuínos surgem excessivamente discretos (se é que pode haver excesso de descrição) e muitos dissimulados aparecem como genuínos.

Vamos à história.

Era uma vez um homem.

E não é que era doutor?

Tinha duas especialidades – uma, a profissional. A outra, adquirida numa vida de infiltração e de manipulação. Estava nos melhores meios, não porque a eles pertencesse, mas porque neles se mostrava imprescindível, impingindo a sua presença única com um sedutor discurso, apesar de, tantas vezes, superficial. A verdade é que ninguém dava por isso.

Gozava, pois, de um bom verbo e de uma excelente memória. Sabia percentagens, decretos-lei, números de amostras, capítulos e versículos, enfim muito que fazia falta para impressionar quem o via ou ouvia.

Logo que teve pretexto negociou a sua estabilidade económica, mostrando quanta falta fazia.

Uma vez alcançada esta conquista, tratou de se colocar em lugares de destaque, sempre pela venda da sua imprescindibilidade, para aparecer, ser reconhecido e ir tratando, já agora, de garantir o seu epitáfio.

Tinha, afinal, o melhor dos dois mundos: ganhava muito, estava seguro, parecia e aparecia, era considerado como se representasse imenso, mas, afinal, servia-se dos outros a quem, recorrente e estrategicamente valorizava, para trepar nas suas frágeis omoplatas de bem-intencionados. Cada oportunidade era aproveitada para se fazer omnipotente.

É bem difícil abranger esta descrição maquiavélica que mais parece a trama de uma fita de terror, como antigamente se dizia. Sim, porque se hoje se disser fita, ninguém sabe do que se está a falar. Digamos que o enredo de uma série.

Retomemos – o pior é que estas são figuras com rosto de santos que andam por aí, estão onde não deviam e onde podem causar enormes danos.

Quantos são eles? Não sabemos de todos, mas conhecemos alguns.

Quem são eles e por onde andam? Não sabemos de todos nem todos os sítios, mas também conhecemos alguns.

Que pessoas são estas, sem experiência de culpa ou de remorso que estão onde não deviam; que ameaçam com ar de quem coopera e cujo único objetivo é o seu eu no centro?

São aqueles perto de todos que deviam estar longe da maior parte da gente; os vulgares psicopatas, hoje chamados de outra maneira; aqueles que nos engolem, mesmo ainda antes de termos percebido que estamos a ser mastigados; aqueles que dominam à procura de estatuto e de poder e não tardam em anunciar em sedes que consideram próprias que o conquistaram; os que entram de forma extremamente agradável na vida dos outros para que possam ficar no comando; os que têm raciocínio perfeito, mas a quem falta o amor e a empatia; os que desconhecem o arrependimento pelo mal que fazem; os que manipulam os outros como objetos, mas com lógica e coerência de pensamento…

Sou católica e, por isso, preocupam-me estes na nossa Igreja, nos nossos meios, nas nossas instituições, até nas famílias; os imparáveis na busca do próprio umbigo; os insaciáveis que nada mais querem do que tudo realizar aqui; aqueles que não concebem a vida humana apenas como uma etapa do seu existir, mas como o todo único para se fazer ser e, nisto, tudo jogar.

Que nos livremos dos que se identificam com estas descrições, mas que nunca o assumirão, nem que sejam descobertos.

Que a esperança nunca perdida seja o sentimento essencial de quem não pauta a sua conduta por esta mixórdia perigosa e perturbadora, de forma tão disfarçada e encoberta.

Que o otimismo dos dignos alcance a sua difícil vitória.

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