Ditosa sejas, Senhora do Ó!

| 17 Dez 19

Mestre Pero (1340-1360), Nossa Senhora do Ó. Escultura de pedra calcária policromada, dourada e estofada; Museu de Lamego. Peça exposta na mostra “Vestida de Branco, no Santuário de Fátima, patente até Outubro de 2020. Foto © António Marujo

 

Tal como acontece com outros passos dos Evangelhos, as narrações da Infância de Jesus em Mateus e Lucas apresentam leituras diversificadas.

Os nascimentos excepcionais são alegorias que pretendem explicar o mistério que envolve o nascimento de alguém que supera o padrão humano.

Em Mitos, Sonhos e Mistérios, (Edições 70, 1989) Mircea Eliade escreve que o mito é, para as sociedades arcaicas, o fundamento da vida colectiva. Exprime uma verdade absoluta, sagrada, no “tempo do começo do mundo”. Segundo os relatos do nascimento de Buda, a mãe ficou miraculosamente grávida depois de ter sonhado várias vezes com um elefante branco. Quando se dirigia com o seu séquito para ter o filho na terra dos pais, deu à luz ao pé de uma árvore: uma criança que saiu do seu flanco direito. O recém-nascido começou logo a falar, proclamando o seu grande futuro, confirmado depois por um adivinho.

Não se trata aqui de comparar os nascimentos de Buda e de Jesus, mas relevar o acontecimento prodigioso nos dois nascimentos. Narram os dois evangelistas que Maria de Nazaré, a Mãe de Jesus, sendo virgem, dá à luz o Filho de Deus. Sua prima Isabel, já de idade avançada, dará à luz um menino que será João Baptista.

O impossível torna-se possível. Comenta Juan Masiá, na obra El que vive: “(…) esterilidade, no caso de Isabel; virgindade, no caso de Maria: (…)um piscar de olhos celeste para revelar ao mundo o segredo de todo o nascimento, a importância da mulher no enigma da origem da vida.”

Na obra de Eliade já citada, os rituais de iniciação estão relacionados com o tempo primordial e deverão ser repetidos para dar continuidade ao sagrado, ao mistério. A iniciação das raparigas começa com a primeira menstruação. A rapariga vive, a partir daí, isolada. Após o período de isolamento, há uma série de rituais exprimindo a passagem da infância para a idade adulta. Depois, é assumida a condição de mulher, vivida como uma experiência religiosa. A partir daí, as jovens desfrutam de uma certa liberdade pré-nupcial e os encontros com os rapazes efectuam-se na casa de uma mulher mais velha onde elas se juntam para fiar. Nestas culturas, a virgindade é tida em alta estima; mas, nessa altura, os encontros são tolerados e encorajados pelos pais. Porquê?

Porque essa prática faz parte da ritualidade. Não é considerada “imoral”. Pelo contrário, é a tomada de consciência da função sagrada da mulher: a sua característica inata, a fecundidade. É uma experiência sagrada no feminino: “(…) Morre-se para se ser transformado e ascender a um nível mais elevado de existência.”

Todo o acto de concepção é criador de Vida. No plano cristão, através do Espírito Santo que naturalmente está presente: “Senhor que dá Vida, que é Fonte de Vida.”

No nascimento de Jesus: através do sonho, da contemplação, da visão, em Maria, mas também em José, surge a extraordinária notícia de um ser excepcional que vai nascer. José desconfia, visto a sua prometida estar grávida. De quem será o filho? Dele? De outro? É humano, numa relação entre dois seres que se amam haver interrogações. Mas o Anjo que surge em sonhos a José, apaga-as. (Mt. 1, 20).

Em Lc. 1,30, o anjo Gabriel apresenta-se a Maria. Está escrito em grego: “alegra-te” [kairízesthai]. “Alegra-te, Maria, transbordante de Graça.” A tradução posterior, em latim, é: Ave Maria, Gratia plena (“Saúdo-te/Salvé/Avé Maria, cheia de Graça”). Concluímos que no Evangelho de Lucas, a palavra-chave é “alegra-te”. A alegria da concepção triunfante.

Quanto à expressão “Graça”: segundo os teólogos, Deus concede-a gratuitamente, a todos os seres. Não é um mérito pessoal.

A mulher, ao saber que está grávida e depois, ao dar à luz, está cheia de júbilo. E essa alegria é tão grande que se esqueceu das dores de parto. Esse júbilo estende-se ao pai do recém-nascido, à família, à comunidade. Quem não se enternece com um recém-nascido? “Maria representa a humanidade agraciada e agradecida. Ao Senhor e a todos os seres.”

Santa Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Senhora do Ó [festa que tradicionalmente a Igreja Católica assinala a 18 de Dezembro]; da Boa-Hora; do Bom-Despacho; do Bom-Sucesso… tantos nomes para sacralizar o mistério do Nascimento, dos nascimentos.

A mulher, depois do parto, dever-se-ia purificar. O sangue, na menstruação e durante o parto é “impuro”. Este conceito surge no Antigo Testamento: (Lv.12). No catolicismo tradicional, a mulher é portadora do mal, do “pecado original”, de acordo com uma interpretação literal do Génesis.

Ora a “árvore do fruto proibido” simboliza a tomada de consciência, pelo ser humano, do bem e do mal. A sexualidade, pela sua natureza, encaminha os seres uns para os outros. É fonte de felicidade e fecundidade.

Jesus dá à mulher os mesmos direitos que dá ao homem, num caso de divórcio – o que, no seu tempo, é inconcebível, herético. Mat.19, 9: “eu digo-vos: se alguém repudiar sua mulher – excepto em caso de adultério – e casar com outra, comete adultério.”

Pelo Espírito, todos criamos e procriamos.  Sócrates comparava-se a uma parteira: ajudava a nascer o homem novo, pelo auto-conhecimento. Ao falar da sua Evangelização, Paulo compara-se a “uma mãe que acalenta os filhinhos…” (I Tes. 2, 7).

Bendita sejas tu, Senhora do Leite, Mãe do Filho de Deus e nossa Mãe.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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