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[Entre Margens]

divertimento videopolítico: Virtuoso, Luzinha e o pássaro

| 25/02/2026

Virtuoso, grande caudilho, em ligação permanente, directa, i-mediada com o povo, de que colhe ensinamento e justa revolta contra as elites, ama animais de quatro patas. Uma coelha, por exemplo, e agora uma cadelinha que força, nas redes, que é onde tudo o que é real e verdadeiro acontece, uma sua discípula a adoptar.

A 4 patas Luzinha entra, assim, em casa da moça, com quem vai compartilhar a doçura de uma domesticidade à antiga: ela todo o dia passa a roupa do amado, passaja as meias, faz o jantar, come a cabeça do peixe, lava, arruma, deita-se e recomeça no dia seguinte, eventualmente grávida do primeiro e único catolicíssimo descendente, que levará à missa especial dos que professam em latim, choram Lefebvre e viram em Francisco um adjuvante do anti-Cristo. Nas américas seria uma evangélica do Sul, armada até aos dentes e distintíssima pasionaria loura (é do protocolo) dos Proud Boys. Por cá, só lhe resta, a título de aventura, um pai correspondente electrónico do MAL, que, inocente, tomava pela newsletter do Mercado da Pontinha, coadjuvado nas idas à Procuradoria por advogado que já foi correligionário e agora aparece destacado num pequeno partido satélite em regime de franchising.

Há também, com Virtuoso, umas coisas mal explicadas acerca de correspondência enviada ou recebida dos patriotas com código postal 1143 e um amor pela ordem pública concebida segundo o modelo dos últimos anos da República de Weimar e, depois da cedência do poder pelas elites não-é-bem-assim ao homem do bigodinho, juridicamente sustentada nos ensinamentos do Professor Carl Schmitt (heil!), o tal do estado de excepção permanente, que o bendito Virtuoso, a exemplo dos mestres, tentou forçar nas últimas eleições para a Liga Protectora dos portugueses-de-bem-que-só-querem-saber-das-suas-coisas.

Terá Luzinha um baloiço para brincar? Fonte: https://library.wobook.com/samples/MPtX0Qw7jk3wPn1X

Virtuoso e o cãozinho lembram uma pecha dos povos europeus bem ilustrada na manchete do Nouvel Obs de 5 de Fevereiro, que aqui se reproduz com a devida vénia, ou na amplificação regular do espaço reservado a alimento e acessórios para os ‘nossos filhos de 4 patas’ nas grandes superfícies comerciais, em detrimento das papas para bebés com apenas duas pernas. Essa pecha chama-se, para os entendidos em ataques à civilização cristã, a da mais pura ortodoxia, e à família, seu expoente moral, chama-se, dizia, A GRANDE SUBSTITUIÇÃO. Dos filhos humanos pelos de 4 patas, sejamos claros, que ainda estamos à espera do menino da IA pré-anunciado por Spielberg no filme do mesmo nome.

É que, por enquanto, em matéria de robots humanoides inteligentes (contradição nos termos, dizem os réprobos), ainda só temos uns amigos dos cábulas e dos tecnólogos educativos hiper-liberais que, quando ‘falam’, se chamam Raquel (nesse mundo de ectoplasmas hi-tech só as fêmeas têm voz – ou só as vozes têm fêmea? –, vá-se lá saber porquê!) e dizem cretinices avulso em programas da manhã. Quem sabe, talvez seja apenas por falta da indispensável aceleração tecno-política que os salvadores dos 4 patas se organizam em grupos solidários com nome de organização terrorista da Irlanda do Norte: ainda não terão compreendido o enorme avanço de ‘andar à porrada pela pátria’ com uns bonecos metálicos saídos dos estúdios robocop inc.pt.

Albert Camus

Albert Camus (1913-1960). Foto na capa da edição de bolso de Actuelles, Écrits Politiques, Gallimard, 1977.

Os maledicentes, porém – que os há, e muitos! –, vêem no edificante espectáculo de que Luzinha foi involuntária compère, a expressão de uma preferência que radica em deformação caracterial que já Albert Camus (como sabemos, amigo do Irão, da Venezuela e de Cuba, mas jamais de Putin, Órban, Meloni ou Trump: doente, portanto, de SOCIALISMO QUE MATA) assinala com precisão num texto publicado, em 1944, no suspeitíssimo jornal Combat. Nele fala do mundo de deslumbrante beleza que se ofereceu, em 1933, ao planeta, mas já medrava – o ovo da serpente! – uma década antes, também na cabeça dos pacíficos cavalheiros e cavalheiras das elites peninsulares e insulares, enfim, por muitos lares onde se não falava alemão e se sabia comer com faca e garfo. Diz ele, a propósito da GRANDE SUBSTITUIÇÃO:

«Em 1933 principiou uma época que um dos maiores entre nós [André Malraux] apelidou com justiça o tempo do desprezo. Durante dez anos, a notícia de que seres nus e desarmados tinham sido mutilados por homens cujo rosto era igual ao nosso pôs-nos a cabeça à roda, e todos perguntávamos como era isso possível. Mas era mesmo possível. […] E os que tal fizeram eram dos que sabiam oferecer o seu lugar no Metro, como Himmler, que fez da tortura uma ciência e uma profissão e que, à noite, entrava em casa pela porta das traseiras, com receio de acordar o canário favorito.» (Albert Camus, Actualidades, Contexto, 2001, p. 22.)

Dorme tranquila, Luzinha. O papá vela por nós.

 

João Santos é professor. O título é livremente inspirado no vídeo exibido, em 5.2.26, no noticiário das 22h00 da RTP Notícias.

 

 

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