Dizer “olha o fascista” resolve muito pouco

| 10 Out 19

André Ventura entrou na Assembleia da República e, pela primeira vez, teremos uma organização partidária onde o populismo, a irresponsabilidade e a desinformação são parte fundamental do seu programa e das suas ideias. Vivemos dias difíceis e enfrentamos desafios que há muito têm lugar pela Europa e por algumas outras democracias liberais no mundo.

Le Pen é uma realidade há muito tempo, Salvini consolida-se em Itália, Trump irá, provavelmente, para o seu segundo mandato e Bolsonaro governa. Até aqui, ao lado, em Espanha, onde esta vaga também demorou a arrancar e num país que partilha de semelhanças interessantes com Portugal na organização e cultura política, Abascal, do Vox, vai ganhando força. Os exemplos são mais que muitos e as conclusões muitas vezes repetidas.

Muitas destas forças partilham um eleitorado com um nacionalismo realmente perigoso que vê aqui uma oportunidade de as democracias, sobre as quais são céticos, lhes darem voz. Contudo, ainda que possa admitir que, em alguns casos, estas pessoas até possam ter algum peso nas elites de decisão, não acredito que essa seja a maioria dos casos nem que seja muito relevante.

E não o é por um simples motivo. Na democracia representativa só tem força quem tem eleitorado a votar neles. E há quem esteja a votar nestes fenómenos políticos. Urge, consequentemente, resolver isto. Dos mais moderados aos menos moderados, há um espetro muito grande que reconhece que há um problema a resolver, para preservar a responsabilidade dos partidos em democracia representativa como forma de guiar a vontade dos cidadãos da melhor forma possível.

 

Porque aderem as pessoas a estes fenómenos?

Primeiro e o mais importante passo para resolver o problema: perceber por que é que estes fenómenos políticos têm adesão. A sociedade mais moderada nem sempre tem tido capacidade de perceber isto e o primeiro motivo é logo a falta de capacidade em distinguir ou definir conceitos, colocando tudo num mesmo saco de forma errónea. Várias vezes vi uma hostilização à Iniciativa Liberal, ou até mesmo ao PSD no período de Pedro Passos Coelho que, independentemente das análises políticas, não tem qualquer sentido. Não devemos equipará-los a projetos nacionalistas e populistas como por vezes vejo. Não, não é tudo fascista e pronto. E isto tira credibilidade a quem quer andar por aí a alertar quem é fascista. Sobretudo quando nestes dois exemplos estamos perante ideias enquadradas perfeitamente no espaço democrático moderado. Conhecemos todos a história de “Pedro e o Lobo”.

Mas a verdade é que nem agora, onde, de facto, a moderação acabou e o perigo chegou, o termo fascismo faz propriamente sentido. O que se passa hoje é algo diferente. Não quero, contudo, perder-me em discussões sobre o que significa ou não o termo: essa discussão é pouco útil. Sabemos que esta nova vaga política tem de ser combatida e isso é que importa.

Acerca do Chega: os resultados mais elevados deste partido registam-se a sul do Tejo (Portalegre, Faro, Beja, Évora, Lisboa e Santarém, com 2% ou mais), onde, precisamente, a esquerda é tradicionalmente mais forte. Verifica-se ainda um foco em zonas de potencial conflito social, sobretudo étnico, como algumas freguesias de Sintra, Seixal, Montijo ou Loures. Estes dados são reveladores do potencial crescimento do Chega, das zonas sensíveis e do eleitor-tipo.

Todo o populismo europeu tem tido razões de ascensão por problemas nacionais específicos. Em Espanha, a crise económica e as crises partidárias e institucionais, sobretudo a nível da corrupção. Em Inglaterra, Alemanha, Países Baixos, etc. tem muito que ver com a gestão da imigração. Em Itália ou Hungria tem muito que ver com a gestão direta das rotas migratórias dos refugiados. Em França há um misto de imigração e uma revolta para com a globalização e integração económica que retirou as indústrias do país.

Portugal terá, portanto, razões específicas para a ascensão deste tipo de discurso. Em todos os casos existe um exagero dos impactos dos problemas ou um exagero na forma como esses agentes vendem a necessidade da sua solução. Em Portugal temos, por exemplo, a corrupção e o companheirismo entre as instituições, que é um problema, de facto, mas que não se resolve com as propostas de André Ventura.

 

Munidos de informação, paciência e argumentos

Mas há também outras matérias que são claros exageros e que vivem de meios de comunicação que lhes aumentam a escala. Este é o caso da segurança, por exemplo. Portugal é um país muito seguro, quando comparado com o resto do mundo, inclusivamente relativamente a países com poder de compra e qualidade de vida bastante superior. No que toca à própria integração de comunidades mais marginalizadas, estamos longe de sofrer os problemas de outros países europeus, por vários motivos que não pretendo agora detalhar.

Esta política que não sabe pesar impactos de problemas e de medidas não é nova nem se resume ao populismo que aqui falo. O próprio PAN tem matérias e assuntos que coloca no centro do debate público e que são, comparativamente, menos relevantes ou prioritários que outros. E isso vem de uma incapacidade de pesar impactos de medidas na vida das pessoas e no caminho em prol do bem comum.

Ora, as pessoas que querem acabar com a “impunidade” da corrupção, que entendem que Portugal não é um país seguro, que se lamentam com um país que vive pior hoje do que vivia antes da abertura ao mundo liberal e até mesmo as que entendem que há certos grupos que vivem às custas do sistema, não acordaram fascistas no dia 6 de Outubro. A democracia só faz sentido se partirmos do pressuposto de que é possível convencer o eleitorado. No entanto, muitas vezes temos perdido a capacidade de sermos pedagógicos nesse processo. A verdade é que muito dos argumentos e ideias do André Ventura são facilmente desconstruídos, temos é de chegar ao seu eleitorado e explicar isso. E creio que já o soubemos fazer.

Enquanto perdermos o nosso tempo (pessoas e média) apenas a chamar fascista ou extrema-direita a André Ventura (independentemente de o ser ou não) e nos ficarmos por aí, só estamos a alimentar a ideia do mártir anti-sistema, dando o combustível que ele pretende. Mas isso só acontece quando a discussão fica rasteira. Façamos como Macron fez com Le Pen e destruamos essas fracas ideias em debate.

Nós, os moderados, percamos tempo a conversar com aquele amigo ou aquele familiar a explicar porque é que cada uma daquelas propostas de André Ventura não fazem sentido, ou que se baseiam em desinformação. Acreditar na democracia é não deixar os eleitores para trás, porque todos os votos valem o mesmo. Não esqueçamos que todos nós somos condicionados pelos nossos contextos, a nossa formação, o nosso meio, os nossos medos, as nossas paixões. Todos nós já fomos enganados, já fomos teimosos ou já insistimos que não fomos enganados e não fomos teimosos. Todos nós temos de reconhecer que a racionalidade ilimitada é coisa dos modelos económicos apenas.

É por isso que espero que, durante estes quatro anos, façamos todos um esforço para combater o Chega, munidos de informação, paciência e argumentos e não com insultos e frases feitas.

 

João Catarino Campos é estudante de Economia no ISEG – Lisbon School of Economics and Management e vice-presidente da comissão executiva do Conselho Nacional de Debates Universitários. Contacto: joaopccampos24@gmail.com

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