Músico morre aos 79 anos

Do Apocalipse às conexões invisíveis de Vangelis

| 28 Mai 2022

Evángelos Odysséas Papathanasious (1943-2022)

Evángelos Odysséas Papathanasious (1943-2022). Foto: Direitos reservados.

 

Este “rapaz” não foi só o autor de algumas das bandas sonoras que percorreram os nossos dias… se em 1981 foi Chariots of Fire (com a qual ganhou um Óscar), logo em 1982 assinou a fantástica BSO (banda sonora original) de Blade Runner… E, dez anos depois, outra que “polvilhou” o país de norte a sul (até porque acompanhou, também, uma campanha eleitoral): 1492: a conquista do Paraíso.

A carreira de Vangelis tinha-se iniciado, no entanto, bem antes, ainda na década de 60 do século passado, prolongando-se até setembro de 2021, quando editou Juno to Jupiter, na Decca Records (trabalho que contou com a colaboração da soprano Angela Gheorghiu). Em todo este longo e bastante diverso percurso destacam-se alguns notáveis trabalhos e um experimentalismo que fizeram dele um dos fundamentais nomes da música eletrónica.

Evángelos Odysséas Papathanassiou nasceu a 29 de março de 1943 em Agria, na Tessália, uma pequena cidade da costa leste grega pertencente ao município de Vólos (centro do país, entre Atenas e Tessalónica), e morreu no passado dia 17 de maio, em Paris, aos 79 anos.

Em 1967, com os seus amigos e conterrâneos Demis Roussos (voz, baixo, guitarras acústica e elétrica), Loukas Sideras (bateria, voz) e Silver Koulouris (guitarra elétrica), Vangelis (teclados, flautas) forma os Aphrodite’s Child, uma banda de rock progressivo com assumidas influências psicadélicas que teve uma curta vida: em 1970, o projeto conceptual que o músico idealiza e impõe acentua sobremaneira essas linguagens musicais; a cisão com os restantes elementos leva ao fim da banda (Demis Roussos, que haveria de ter uma carreira a solo mais marcada pelas referências pop, tinha gravado o seu primeiro disco a solo), apesar de terem iniciado o processo de gravação de 666, duplo álbum escrito de parceria com o letrista Costas Ferris e onde conta, já, com a colaboração de Irene Papas (a ela regressarei, por conta das parcerias futuras). O álbum é inteiramente baseado no Livro do Apocalipse, ou da Revelação, o mesmo que havia já inspirado autores tão diversos como Miguel Ângelo, Johann Sebastian Bach, Olivier Messiaen[1]

Em 666 é-nos proposta uma releitura do livro de São João: nela, uma trupe circense apresenta, à sua audiência, uma performance baseada no livro do Apocalipse enquanto, no exterior da tenda, acontece o Apocalipse (ele mesmo!) para, no final, os dois eventos se fundirem num só. Se Costas Ferris classifica este trabalho como um concept book, as referências a Tommy (a ópera rock dos The Who) e a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (desde logo, a trupe de circo) são, para alguns autores, evidentes[2].

Enquanto se arrastam as gravações de 666, Vangelis avança com vários projetos para televisão, cinema e teatro: Sex Power (1970), L’Apocalypse des Animaux (série documental francesa, de 1970, realizada por Frédéric Rossif, cujo disco é editado em 1973). É, pois, o início de uma longa carreira que conta com mais de duas dezenas de álbuns de estúdio (onde se incluem dois não oficiais), doze bandas sonoras, para além de imensas e marcantes colaborações.

Saliento, desde logo, a menos conhecida com Maria Amalia “Melina” Mercouri (atriz, cantora, ativista e política; ministra da Cultura entre 1981-1989 e 1993-1994; responsável pela criação da “Capital Europeia da Cultura”, em 1985), com quem grava o tema Je Te Dirai Les Mots (1974), incluído no álbum Si Melina… M’Etait Contée.

Voltemos a Irene Papas, como prometido: enquanto atriz, havia tido participações marcantes em diversos filmes, de que se destacam Os Canhões de Navarone (1961), Zorba, o Grego (1964), The Trojan Women (1971; prémio Melhor Atriz para o National Board of Review), Iphigenia (1977), tendo desempenhado os papéis principais em Antigone (1961; prémio Melhor Atriz no Berlin International Film Festival) e Electra (1962). Foi, ainda, agraciada com vários prémios de carreira. 

A carreira na música inicia-a em 1968 com Songs of Theodorakis, um álbum com onze canções de Mikis Theodorakis. Em 1979 edita Odes, agora com Vangelis, um disco de canções tradicionais gregas, inteiramente produzido pelo multi-instrumentista. Já em Rapsodies, de 1986, a dupla explora a riqueza (poética e musical) dos cantos litúrgicos da tradição ortodoxa grega.

Esta frutuosa parceria, do ponto de vista musical, abre outros caminhos à música de Vangelis, pelas diversas referências da música tradicional que carregam.

A mais conhecida e mais prolongada das colaborações que mantém, contudo, é a que estabelece com Jon Anderson, o vocalista da banda de rock progressivo Yes, selada em duo batizado de Jon and Vangelis: daqui resultaram Short Stories (1980), The Friends of Mr. Cairo (1981), Private Collection (1983) e Page of Life (1991), os três primeiros com assinaláveis êxitos.

De todo o percurso que Vangelis vai trilhando, é sobejamente conhecida a exploração que ele faz de toda a instrumentação eletrónica, conseguindo percorrer caminhos que o levam do rock progressivo à eletrónica, da respiração clássica ou sinfónica à world music, passando pelas linguagens do jazz e as referências à música ambiente e, por fim (but not least), o trabalho, profundo e por vezes notável, na chamada música avant-garde/experimental.

Se em Heaven and Hell (1975), Albedo 0.39 (1976), Spiral (1977), Beaubourg (1978), China (1979), aceita inspirações tão díspares quanto o universo, a filosofia Tao, o Centro Georges Pompidou e a cultura chinesa, em See You Later (1980) espreita a sátira e o experimentalismo. A sua paixão pela ciência e pelo experimentalismo leva-o a editar, sucessivamente:
Soil Festivities em 1984, inspirado na interação entre a natureza e os seus seres vivos microscópicos;
Invisible Connections (1985, com o selo da prestigiadíssima Deutsche Grammophon) que se inspira no mundo das partículas elementares invisíveis a olho nu;
Mask, também de 1985, sobre a temática da máscara, artefacto milenar desde sempre usado para ocultar, por mistério ou diversão;
e, por último, Direct (1988), primeiro disco da era post-Nemo Studios (o estúdio de Vangelis em Londres), centrado no método de composição e gravação do músico em que a espontaneidade é fundamental, processo permitido pelo facto de a composição e a gravação poderem ocorrer simultaneamente.

A todos quantos queiram partir para essa descoberta (no caso de ainda não a terem concretizado), ficam mais umas quantas sugestões, musicais e escritas.

Fontes escritas

Aphrodite’s Child:
https://en.wikipedia.org/wiki/Aphrodite%27s_Child,
https://en.wikipedia.org/wiki/666_(Aphrodite%27s_Child_album)

Vangelis:
https://en.wikipedia.org/wiki/Vangelis,
https://en.wikipedia.org/wiki/Vangelis_discography

[consultados em linha a 21-23 de maio de 2022].

Rui Miguel Abreu, O que nos deixou Vangelis, o mestre do som épico? Rock progressivo, grandes bandas sonoras e a ‘arma secreta’ de António Guterres, consultado em linha a 22 de maio de 2022.

Frederico Batista: Ilustres Desconhecidos: Aphrodite’s Child, publicado a 21 de janeiro de 2009 e consultado em linha a 22 de maio de 2022.

John Schaefer (June 1985). “New Sounds”Spin. Vol. 1, no. 2. p. 49. ISSN 0886-3032. in: https://books.google.pt/books?redir_esc=y&hl=pt-PT&id=16jp_aFRHdgC&q=Vangelis#v=onepage&q=Vangelis%20&f=false, consultado em linha a 23 de maio de 2022.

Nemo. http://www.nemostudios.co.uk/nemo/main/vangelis/v07.htm, consultado em linha a 23 de maio de 2022.

Melina Mercouri. https://en.wikipedia.org/wiki/Melina_Mercouri, consultado em linha a 21 de maio de 2022.

Irene Papas:
https://en.wikipedia.org/wiki/Irene_Papas
https://en.wikipedia.org/wiki/Odes_(Irene_Papas_album)
https://en.wikipedia.org/wiki/Rapsodies
consultados em linha a 21-23 de maio de 2022.

Jon Anderson. https://en.wikipedia.org/wiki/Jon_Anderson, consultado em linha a 23 de maio de 2022.

 

Notas
[1] cf. Bíblia. volume II – Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Tradução do texto grego, apresentação e notas de Frederico Lourenço. Lisboa: Quetzal Editores. 2017. pp. 551-554
[2] cf. Engelen, Henk, “The concept book synopsis”, in: Vangelis Lyrics, consultado em linha a 23 maio 2022

 

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