Do autocarro 736 eu cheguei ao campo

| 7 Jul 2023

 Cidade

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral

 

Viajar no autocarro nº 736 de Lisboa “tem sido uma experiência incómoda mas interessante”. Foto © Teresa Vasconcelos.

 

Desde que me reformei há já quase dez anos que decidi andar nos transportes públicos por razões ecológicas, de salvaguarda do planeta. Já desejava esta mudança há muito tempo, mas não tinha transportes capazes para o meu local de trabalho. Aliás, no âmbito do Graal Internacional existe uma Rede TERRA que articula projetos e iniciativas (mesmo as pessoais) nos quatro cantos do mundo. Passei a usar o carro apenas para as saídas de Lisboa ou aos domingos. Tenho o privilégio de habitar bem perto de uma estação de metro, o que facilitou a minha decisão. Uso consistentemente a Linha Amarela transferindo-me para as outras conforme o local para onde me desloco. Mesmo em tempo de máscara obrigatória usei consistentemente o metro. Apenas evitava as horas de ponta. Não sou mais do que qualquer outra/o cidadã/o que tinha de se deslocar diariamente para o seu local de trabalho.

Fui recentemente surpreendida com as obras de alargamento do metro que têm abrangido grande parte da “minha” Linha Amarela. Assim vejo-me obrigada, no Lumiar, a utilizar o autocarro nº 736 em direção ao Rossio ou ao Campo Pequeno e que, em geral, vem de Odivelas, subúrbio de Lisboa onde moram muitas minorias étnicas e há significativa pobreza. Os tempos de espera passaram a ser maiores (houve um dia que chegou aos 45 minutos!); faça chuva ou faça sol, as filas vão aumentando e os abrigos na paragem não chegam para todos os passageiros. E nas filas, há sempre os “chicos espertos” que, ao bom jeito português, tentam entrar no autocarro desrespeitando a ordem de chegada…

Apesar do calor impiedoso, muitos autocarros não têm ar condicionado. Vêm a abarrotar e as paragens, as curvas e contracurvas apertadas e os solavancos são bem maiores do que no metro, tornando a viagem muito mais desconfortável. Confesso que encontro bem pouca ocasião de contemplar esta cidade magnífica, tais os atropelos dentro do autocarro. E um crescendo de irritação instala-se. O condutor não se preocupa com o bem-estar dos passageiros. Pessoas aos berros a pedir que as deixem sair, que o condutor não feche as portas quando ainda estão a descer… aconteceu-me isso uma vez… dei por mim a resmungar alto: “não somos sardinhas em lata, somos seres humanos!”

Tem sido uma experiência incómoda mas interessante: a minha “costela” de investigadora etnográfica-antropológica sente-se estimulada no meio daquele aperto. Há os quatro lugares da praxe reservados a idosos, grávidas ou mães/pais com crianças. A minha “provecta idade” e algumas mazelas já permitem que use esses lugares. Mas sinto-me como se estivesse na sala de espera de um centro de saúde, todos a falar alto do seu problema, bem maior que o do passageiro do lado… até podem provar com a “declaração médica” que levam dobrada em quatro no interior da carteira. Evito esses lugares, confesso, prefiro ir aos sacões com mochila e saco de compras e não ouvir tantos queixumes.

Não há dúvida de que prevalece a geração dos mais velhos: muletas, suspiros, olhares tristes, doridos, à espera de alguma compaixão. Até vejo, em horas de ponta, pessoas em cadeiras de rodas ou, mais raros, carrinhos de bebé. Há poucas crianças neste país. Fico perplexa quando um adulto dá à criança um lugar, em vez de ele próprio se sentar ou de ceder esse lugar a uma pessoa mais velha. O mundo está um bocadinho ao contrário, não? As crianças não podem ir de pé ou encostadas às nossas pernas? E os avós terão de carregar as mochilas dos netos sentados, mantendo-se de pé?

“Viajei no nº 736 para me deliciar com o concerto do Chico Buarque no Campo Pequeno. Nunca tinha visto o Chico ao vivo.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

No metro, as pessoas isolam-se coladas aos seus telemóveis. Nos autocarros não tanto. Com tantas voltas, reviravoltas e travagens, há o perigo de um qualquer descolamento da retina, o que não convém. Assim as pessoas interagem mais, falam alto, interpelam-se entre si ou reclamam com o/a motorista se ele/a não presta atenção a quem entra e quem sai. Por vezes a má disposição chega ao rubro: “Esses que nos governam deviam é andar em transportes como estes para verem como é…”. “Sim, talvez as coisas estivessem melhores”, corroboro. “Era bom que os nossos governantes [“eles…”] viessem pr’aqui nas horas de ponta.” E continuam: “Eles têm de saber o que é a vida do povo…” Aí desabam as críticas e preconceitos: “Este país está cheio de migrantes e assim não cabemos todos…” Lembro que precisamos deles para o trabalho que já não queremos fazer – trabalho escravo, frequentemente! – e que os migrantes, porque querem ter filhos, ajudam a renovar a nossa população envelhecida, e contribuem ainda para a Segurança Social.

Alguém menos mal disposto corrobora: “Lá isso é verdade. Somos um país de velhos”… e  “quer ver a fotografia do meu neto que vive na Covilhã?” diz-me uma senhora com emoção a atravessar os olhos. “Vai lá vê-lo com frequência ou eles vêm cá?”, pergunto. “Pouco” – e esconde o olhar triste. Assim vou respondendo quando me parece oportuno e, se as coisas começam a ficar demasiadamente alteradas, desvio o olhar para os jacarandás da Avenida 5 de Outubro. No metro parece que os sentimentos não estão tanto à tona….as pessoas isolam-se em si mesmas.

Há dias, a mãe de uma criança pediu desculpa porque o seu filho de 4 anos estava a fazer barulho. “Mas que bom, haja crianças neste país a fazerem barulho! Velhos já somos muitos!” Vários passageiros menearam a cabeça com sorrisos de ternura. Somos um país que gosta de crianças, sim, somos. Queremos uma vida boa para todas! Só é pena, pensei eu para os meus botões, que os casais jovens não se resolvam a ter filhos e prefiram ter cães ou outros animais de companhia…

Viajei no nº 736 para me deliciar com o concerto do Chico Buarque no Campo Pequeno. Nunca tinha visto o Chico ao vivo apesar de sorver as suas músicas e canções desde sempre. Em tempos colaborei num livro editado no Brasil sobre as mulheres nas canções do Chico Buarque. Fiquei espantada com a criatividade deste artista que, prestes a fazer os 80 anos, ainda faz novas músicas e anda em tournées pelo mundo para as divulgar. Não desiste, resiste. Só já na parte final do concerto revisitou algumas das suas canções mais antigas pondo a plateia ao rubro. Levava na mochila o livro para, se o acesso aos camarins fosse acessível, ir pedir-lhe que me autografasse o livro… mas o acesso era mesmo… “inacessível”… Regressei feliz a casa – no nº 736, claro!…. –, trauteando as canções do Chico, com muito menos passageiros àquela hora tardia!

Numa destas noites, já depois da hora de jantar, entram no nº 736 as “mamãs” que andaram nas limpezas dos escritórios da Baixa. Muitas delas são “migrantes” também, e vão para Odivelas. Um tocante chilrear. Apesar do cansaço impera a alegria e a boa disposição. Ocupam o espaço todo, maciças e fortes, gargalhando entre si, frequentemente falando crioulo. “Tudo bem, nada mal”, lembram-me Moçambique e as “mamãs” a vender fruta nas ruas de Maputo. Joie de vivre.

Um dia em que ia sentada quando regressava a casa dei por mim a desenhar flores e flores numa folha de papel meio amarrotada… apenas vejo os muros e as paredes…

 

Montanhas e planícies mais vastas

Uma exacum affine, diz o meu livrinho sobre plantas, conhecida vulgarmente por “violeta persa”. Foto © Teresa Vasconcelos.

 

Aproveito os feriados e descanso do “736” e de outras viagens bem urbanas. Vou para uma povoação a 16 quilómetros de Vila Velha de Ródão onde uma amiga tem uma casa de campo. Uma pequena freguesia de não mais de 500 pessoas (no verão a população duplica), uma casa no limite dessa freguesia, circundada por um terreno com limoeiros, laranjeiras, uma romãzeira, marmelos a querer despontar, uma pereira e uma macieira. Três oliveiras bem velhinhas para venerar, claro. Há espinafres, coentros, salsa e hortelã. Louro, rosmaninho, alfazema. Variadas trepadeiras: glicínias, hera, “lanternas chinesas”, uma exacum affine, diz o meu livrinho sobre plantas, mas que é conhecida vulgarmente por “violeta persa”, clarifica uma amiga. E rosas, muitas rosas…  a minha amiga fica sempre feliz quando trata das rosas…

Nas tílias do largo passeiam-se industriosas abelhas. Sem as querermos “interromper” na sua labuta, trazemos flor de tília para pôr a secar à chegada a Lisboa e fazer chá durante o inverno… À noite, do silêncio emerge o cantar dos grilos.

Os fogos são uma ameaça latente. Em 2017 levaram os proprietários à venda das terras que possuíam e a ficarem apenas com a casa e respectivo terreno circundante.  Estive lá quando as terras arderam e encontrei a minha amiga em lágrimas, sobretudo por causa dos sobreiros e das oliveiras. Sai-se de casa e a breves metros começam os pinhais e os eucaliptais, numa breve estrada circundante por onde se pode passear à vontade porque não há trânsito. Sabe bem o campo, depois de tantos dias a lidar com… o 736!

Não sei se conseguiria viver aqui permanentemente, sou tão urbana! Mas a natureza descansa-me e gosto de meter teluricamente as mãos na terra e tratar das plantas… Tem razão quem diz: mas todos fogem do “campo”, só cá ficam os velhos que já não podem fazer trabalho “braçal”. Não há quem queira trabalhar a terra, “porque a terra não dá para viver, meninas, pelo menos por aqui, tudo tão seco com a falta de água”. Por acaso tivemos dois dias de chuva abundante e ribombaram trovões. Até a eletricidade foi abaixo. No alpendre da “casa de campo” observávamos as bátegas de água. Uma “graça de Deus”!

“No alpendre da ‘casa de campo’ observávamos as bátegas de água.” Foto © Teresa Vasconcelos.

 

 

Saber que tomas em ti a minha vida

Fui à missa no domingo; aliás, não havia missa, era “apenas” a “celebração da Palavra” conduzida por um grupo de mulheres. O pároco, já idoso, preside a mais paróquias da região. As mulheres cantavam, faziam as leituras. Uma delas presidia à celebração com alva e estola verde, seguindo um livro com orientações. Participavam sobretudo pessoas idosas, um casal, dois ou três jovens. A “celebrante” conduzia com à-vontade e segurança a celebração.  Tudo entregue às mulheres. Uma imensa dignidade e devoção. Sem pressa, pausando e repousando, saboreando as palavras, habitando-as com alguns silêncios. A homilia é lida a partir do livrinho. Sonho com o dia em que sejam elas a fazer a homilia, ou – ainda melhor! – que se introduza a possibilidade de uma homilia partilhada.

Para já, as mulheres seguem escrupulosamente as orientações do pároco. A oração dos fiéis é a do livrinho mas a presidente acrescenta duas novas intenções: pela saúde dos doentes da freguesia, “principalmente os que inspiram mais cuidado” e pelo rápido restabelecimento do Papa. É rezado o Pai Nosso em coro, a celebrante distribui a comunhão. Faz-se um suculento e prolongado silêncio de ação de graças. Denso. “Abençoe-nos Deus todo poderoso” e todos/as nos persignamos.

No final, claro que fui à sacristia falar com as mulheres responsáveis, enquanto a presidente/celebrante se desparamentava. Felicitei-as pela profunda dignidade daquela celebração: contaram que se reúnem a meio da semana para preparar a liturgia, escolher e ensaiar os cânticos. A celebrante não é uma religiosa, é uma cidadã comum. Lembrei-me de um livro de 2020 de Cristina Inogés Sanz, No quiero ser sacerdote. Vontade de conversar com a autora sobre esta celebração tão genuína, profunda, digna, alegre e participada…

“¿por qué este libro ahora? porque a veces hay que decir lo que se piensa para seguir siendo fiel a lo que somos? y donde, por supuesto, está la fidelidad a la forma y fondo de vida que se ha decidido vivir? y porque es el momento tras pensarlo durante mucho tiempo, tras hacer silencio, tras dejar espacio al silencio? el silencio? silencio? dijera. Así, desde la realidad de la escucha nace este libro (…) No todos los hombres de iglesia tienen miedo, pero sí una gran mayoría”…

Inogés partilha as suas reflexões  sobre a presença e o papel da mulher na Igreja:

“estar al borde, donde aparentemente nadie nos hace mucho caso, nos permite estar donde ella se mueve con soltura?”

Enquanto escrevo esta crónica lembro A Cidade e as Serras, do nosso Eça. No magnífico romance, a vida no campo é idealizada por um citadino. Talvez esteja a fazer o mesmo? pero que lo hay, lo hay… é que há algo de semelhante nas emoções provocadas pelas duas realidades circunstanciais que procurei descrever. Amanhã volto refrescada ao nº 736 que me leva ao centro da cidade. Vou-me consolando com as plantas da minha varanda. Falo com elas: já brotaram a salsa, os coentros e os tomatinhos. Um morangueiro premiou-me recentemente com seis morangos que fui distribuindo a quem passava cá por casa. Do “campo” trouxe hortelã. Vamos a ver se pega. Entretanto uma trepadeira está a subir parede acima (vi muitas delas no Rio de Janeiro). Diz um livrinho que me ofereceu em 1978 uma amiga muito urbana, mas de “mão verde”: é uma “glória-da-manhã” (ipomoea).

No meio deste arrazoado aparentemente disperso, fica-me um desejo: de aprender a viver no meio dos ruídos desta cidade e do autocarro 736, com o mesmo sabor que experimentei naquela casa no campo e na celebração litúrgica conduzida por um simples grupo de mulheres.

Sophia, uma mulher urbana e muito virada para o mar, sim, também fala para as flores:

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.

(No Tempo Dividido)

 

Desejo “essa promessa antiga”… esse silêncio “cheio de substância” (Saint Exupéry). Fico-me com o poema, para lembrar como gosto do campo, mas também como amo a luz de Lisboa e seus jacarandás a entornar-se pelas janelas do nº 736.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participante do Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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