[domingo xxi do tempo comum ― c ― 2025]
1. Hoje multiplicam-se as festas de S. Bartolomeu
com costumes diversos, alguns deles muito significativos.
Na freguesia de Rego, Celorico de Basto, por exemplo,
assiste-se à tradicional «Lavoura dos Cães»,
na qual o diabo à solta é preso por S. Bartolomeu.
Bem perto de nós, em Mar, Esposende,
os devotos, além de oferecerem galinhas pretas,
apresentam as crianças para o chamado «banho santo».
Dizem que este banho é para livrar as crianças dos medos.
Noutras localidades, como sucede na Foz do Douro,
os banhos são associados à renovação da vida:
entrando nas águas, as pessoas libertam-se dos trajes de papel,
isto é, da pele velha, numa espécie de ecdise batismal.
2. Estas e outras tradições poderão ajudar-nos
a mergulhar no banho-da-Palavra-divina,
a fim de renovarmos a nossa vida de discípulos de Jesus.
Na sua grande viagem para Jerusalém,
Jesus «ensinava nas cidades e aldeias por onde passava» (Lc13,22).
Procuremos, pois, aprender algo novo,
a partir da questão que uma pessoa anónima lhe colocou:
«Senhor, são poucos os que se salvam?» (Lc 13,23).
3. Nos ambientes rabínicos,
o tema da salvação futura era muito discutido.
Quem é que, depois da morte, ressuscitaria?
Apenas os justos? Seriam muitos ou poucos?
Os fariseus, por exemplo, sustentavam que a salvação
estava reservada aos justos do Povo eleito, o judeu.
Somente os pecadores graves não seriam contemplados.
Todavia, em certos círculos apocalípticos,
propensos a cultivar o pessimismo antropológico,
ensinava-se que poucas pessoas ― só judias ― seriam salvas.

[Senhor, são poucos os que se salvam? © fotografia (Praça de S. Pedro): Joaquim Félix]
4. Confrontado com a pergunta, sem responder diretamente,
Jesus evita entrar em especulações, na lógica contabilística.
E, de forma inesperada, sem subterfúgios nem maciez,
rasga, na muralha do seu pensamento,
um horizonte de reflexão mais vasto.
Abre-lhes, sim, uma brecha com uma imagem paradoxal:
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita,
porque Eu vos digo
que muitos tentarão entrar sem o conseguir» (Lc 13,24).
Para Jesus, a salvação exige esforço, porque é um dom a acolher.
Não aparece por inércia, nem como uma garantia
sustentada em tradições exclusivistas ou pela via da meritocracia.

[Aquilo que o sol é para as flores, os sorrisos são para a humanidade © fotografia (Morano Calabro): Joaquim Félix]
5. Que «porta estreita» será a que Jesus refere?
Ao tempo de Jesus, como aliás até aos idos medievais,
quase todas as cidades estavam protegidas por muralhas,
com portas que, à noite e em tempos de perigo, eram fechadas.
Havia portas relativamente mais amplas,
para que os carros do gado e as carruagens passassem;
e outras estreitas, onde só passariam pessoas.
Há biblistas que sugerem que, em Jerusalém,
existiria uma porta estreita,
na qual os transeuntes só a atravessariam quando livres de haveres.
Estaria Jesus a sugerir a quem o escutava,
nomeadamente aos discípulos, a via do despojamento?

[A via do despojamento © fotografia: Joaquim Félix]
6. Hoje, mais uma vez, sem receio de se repetir,
ouvimos Jesus a recorrer à parábola do banquete
para se referir ao reino de Deus.
A parábola é narrada com detalhes preciosos.
Jesus parece dirigir-se aos tais círculos judaicos,
que pretendiam reservar a salvação só para eles,
persuadidos de que a sua origem ― de especial eleição ―
bastaria para serem reconhecidos por Deus.
Dirigia-se aos judeus, sim,
mas também a todos aqueles que com Ele seguiam para Jerusalém,
ou que O seguem, ainda hoje, como nós e tantos outros discípulos.
A porta fecha-se, por mais que nela se bata ou grite,
e não há reconhecimento para os que praticam o mal.

[Súplica de um peregrino (medieval) no batente da porta do Duomo de Salerno © fotografia: Joaquim Félix]
7. «Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade» (Lc 13,27).
Por estes dias, Jesus diria isto aos judeus, denunciando o mal
que estão a praticar nos territórios de Gaza e da Cisjordânia.
Conforme tantas ONG já tinham denunciado,
foi declarada oficialmente pela ONU fome em Gaza.
Não constituirá isto uma hedionda iniquidade?
8. Quando não cultivamos a memória, notemos bem,
criaremos condições para cometer antigas e novas barbaridades.
O povo judeu foi profundamente atingido no Holocausto.
Não passaram assim tantas décadas,
e esse povo está a infligir graves violências contra os seus vizinhos.
Como bem sustenta o Pe. João Lourenço, em declarações à Ecclesia,
se Israel não assumir a diversidade de povos na terra Santa,
estará a «cavar a sua própria sepultura, o seu próprio túnel,
a vala comum do futuro».
Segundo o testemunho de um outro padre a viver em Gaza,
há «bombardeamentos dia e noite» e, pior do que isso,
«nenhuma ordem de evacuação» para que se possa fugir deles.

[Sem memória, cometeremos antigas e novas barbaridades © fotografia (Alarico, rei dos Godos. Segundo a lenda, no regresso de África, foi sepultado juntamente com o seu cavalo. Escultura em Cosenza): Joaquim Félix]
9. Procuremos conversar em família, no trabalho e na escola,
sobre esta e outras tragédias, que poderão ainda agravar-se.
Esta semana ― confesso-vos ― fiquei deveras sensibilizado
com duas iniciativas, uma em Portugal e outra na Itália.
A primeira refere-se ao filme Noite e Nevoeiro,
que o Prof. João Santos passou na sua escola,
para espanto e aprofundamento da memória dos seus alunos.
Recordo que o título do filme corresponde
ao nome dado pelos nazis aos deportados, na sua maioria judeus,
para os campos de extermínio, onde morreram milhões deles.
Valeria a pena ler o artigo que ele escreveu sobre a experiência,
onde conta que até os alunos habitualmente mais distraídos
o viram com atenção e se puseram a pensar.
Se pudéssemos, também nós poderíamos ver este filme,
e inclusive ouvir uma canção de Jean Ferrat inspirada nele,
acompanhada com imagens desses campos.
E se alguém desejar um comentário ao filme,
poderá ver o debate disponibilizado pelo Instituto Humanitas Unisinos.
10. A segunda iniciativa, passou-se em Itália:
o cardeal Matteo Zuppi, Presidente da Conferência Episcopal Italiana,
no dia 14 deste mês, promoveu uma para-liturgia memorial
― ao lado da igreja de Casaglia, na colina Sole di Marzabotto ―,
que consistiu em ler os nomes de 12.200 crianças mortas em Gaza.
Iniciou ele a longa litania, mas, depois, grande número de pessoas
― incluindo várias dezenas de crianças ―
revezaram-se na leitura-quase-infinita até ao cair da noite,
sob os carvalhos do parque junto às ruínas daquela igreja,
por sinal muito simbólica, uma vez que nela, no outono de 1944,
os nazi-fascistas a incendiaram com gente no interior.
11. Voltemos a Jesus, para o nosso banho santo na sua Palavra.
«Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul,
e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
Há últimos que serão dos primeiros
e primeiros que serão dos últimos» (Lc 13,30).
Com este remate, Jesus rompe com os limites identitários
com que os judeus desejavam restringir a salvação.
E, como Porta Aberta que é, reconduz-nos à leitura do Terceiro Isaías,
na qual ouvimos Deus dizer, em oráculo:
«Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas,
para que venham contemplar a minha glória» (Is 66,18).
Recordemos que, naquele tempo, isto é, durante o exílio e a seguir,
Israel estava povoada por muitos estrangeiros.
Os judeus sentiam grande dificuldade em integrá-los
e promoviam restrições, como os casamentos mistos.
Mais, negavam-lhes o acesso aos espaços mais santos do templo.
Deus, porém, rompe-lhes essa miopia de horizonte,
dizendo-lhes, como um pai que educa os filhos (cf. Hebr 12,5-7.11-13):
«Também (entre os estrangeiros) escolherei alguns deles
para sacerdotes e levitas» (Is 66,21); isto é, para oficiarem no culto.

[Virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória © fotografia: Joaquim Félix]
12. No próximo ano, o «Juízo final» (parusia)
pintado por Miguel Ângelo na capela Sistina
receberá obras de limpeza e, por isso, ficará mais luminoso.
Nela aparecerá mais viva a pele de S. Bartolomeu,
em cujo rosto ele, Miguel Ângelo, se afrescou.
Sirva-nos a imagem para avivar a nossa memória à luz da História,
com a certeza de que não é indiferente praticar o bem ou o mal.
Quem cuida das pessoas, nomeadamente dos últimos
― frágeis como os estrangeiros, ou débeis como os sem-abrigo ―,
não terá a mesma sorte de quem os ataca e exclui.

[Quem cuida dos últimos não terá a mesma sorte de quem os ataca e exclui © fotografia (escultura de sem-abrigo em frente ao Ospedale Santo Spirito in Sassia, Roma: Joaquim Félix]
Quem cuida da natureza não terá a mesma sorte
de quem incendeia e destrói as paisagens e as florestas,
tantas delas reduzidas a cinzas durante esta semana.
No «meio da instabilidade deste mundo» (Coleta)
os justos e pacíficos promoverão uma passagem
pelo centro das teias da aranha,
cuja multiplicidade de fios parecem uma cadeia de morte.
A porta estreita é o tempo que nos é dado.
Quem vigia com misericórdia atravessará o tempo até à salvação,
viverá o presente com a chave do futuro na mão de semear a paz.
Por isso, tal como fizemos a convite do Papa Leão XIV,
hoje, dia 24, continuemos a rezar pela paz na Ucrânia,
em sintonia com o apelo do Conselho Mundial de Igrejas.

[Viver o presente com a chave do futuro na mão de semear a paz © fotografia: Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 24 de agosto, [domingo xxi do tempo comum ― c ― 2025], proferida pelo padre Joaquim Félix na comunidade paroquial de Fragoso (S. Pedro), Barcelos.











