[domingo xxii do tempo comum ― c ― 2025]
1. Está o mês de agosto no seu último dia
e tantas coisas se ultimam: as férias, as festas e os festins;
as flores, ainda em esplendor, despojam-se das pétalas,
e a luz do sol, agora mais macia, mingua a cada jornada.
Neste cenário, deparamo-nos com os recomeços.
Oxalá nos sintamos mais descansados e prontos
para retomar, decididos, o ritmo dos trabalhos e dos estudos.
A meados deste mês, na visita a um casal de pessoas idosas,
vi a Benedita junto da sua mãe que deles cuida.
Menina de seis anos, estava toda entusiasmada:
mostrou-me a mala repleta com vários livros escolares
― sendo pesada, ainda bem que tem rodas ―,
para começar o primeiro ano numa escola que, em 2023,
decidiu proibir o uso de telemóveis nos seus recintos.
Constitua ela, a Benedita, um sinal de força e inspiração
para encararmos setembro como mês-das-transições.

Rosa branca a libertar-se das pétalas © fotografia: Joaquim Félix
2. Em vez de entrar já no evangelho,
hoje, gostaria de começar a fração da palavra
pelo início da primeira estrofe do salmo:
«Os justos alegram-se na presença de Deus,
exultam e transbordam de alegria» (Sl 67,4).
Encontramo-nos, aqui e agora, não para chorar as alegrias de agosto,
mas para entoar um cântico ao seu nome;
Ele que, sobre nós, derrama uma chuva de bênçãos.
Louvemo-lo também pela abençoada chuva,
que sobre as flores, os frutos das hortas, os campos e os montes,
faz brilhar a sua glória e apaga os incêndios
que cobrem de luto as pessoas e de cinza as paisagens.

Gotas de chuva sobre uma melancia na horta © fotografia: Joaquim Félix
3. Eis porque poderíamos cantar, com S. Francisco de Assis:
«Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água
que é tão útil, e humilde, e preciosa e casta».
A água da chuva ou das gotas sobre folhas, frutos e flores,
coloca-nos já no caminho da humildade
que, no coração da Palavra divina, é corrente de murmúrios.
Efetivamente, desde as sentenças de Ben-Sirá
até à parábola contada por Jesus no evangelho,
a humildade soa como a chuva ou as águas das cascatas.

A humildade soa como a chuva © fotografia: Joaquim Félix
4. Tendo celebrado há poucos dias a memória
de santo Agostinho e de sua mãe, santa Mónica,
gostaria de propor à nossa meditação,
uma passagem de um sermão dele,
presente hoje no Ofício de Leitura,
precisamente sobre o caminho da humildade:
«Sigamos, portanto, os caminhos que Ele nos indicou,
principalmente o caminho da humildade
que Ele tomou para vir ao nosso encontro.
Ele mostrou-nos este caminho da humildade
não só com os seus ensinamentos,
mas também com o seu exemplo,
percorrendo-o até morrer por nós.
Para poder morrer por nós Aquele que era imortal,
o Verbo fez-se carne e habitou entre nós.
Assim o imortal Se revestiu de mortalidade,
para poder morrer por nós e destruir a nossa morte com a sua morte».
(Sermão 23 A, 1-4: CCL 41,321-323).

Ele mostrou-nos este caminho da humildade © fotografia (Crucifixo de Pietro Barliario (séc.XII). Museu do Duomo de Salerno: Joaquim Félix
5. Antes de prosseguir a leitura de outro parágrafo do seu sermão,
permiti uma nota que, creio, poderá ir ao encontro do evangelho.
Os livros das leituras bíblicas ― lecionários e evangeliários ―,
que se faziam na liturgia das florescentes igrejas norte-africanas,
perderam-se todos, não subsistindo senão uns fragmentos.
Significativo é que,
a partir dos sermões e das homilias dos seus Padres,
é possível reconstituir os sistemas de leituras de então.
Porquê? Já estaremos a depreender, creio eu:
eles eram muito fiéis à Palavra que era lida e escutada.
6. Por isso, não seria de estranhar que santo Agostinho
pudesse ter feito este sermão a partir do evangelho deste domingo.
Escutemos agora o segundo parágrafo:
«Isto fez o Senhor, este é o dom que nos ofereceu.
Sendo grande, humilhou-Se; humilhado, quis morrer;
tendo morrido, ressuscitou e foi exaltado,
para não nos deixar mortos no inferno,
mas para exaltar em Si, pela ressurreição dos mortos,
aqueles que neste mundo tinha exaltado apenas pela fé
e pela confissão do Seu nome.
Assim nos deu e mostrou o caminho da humildade»
(Sermão 23 A, 1-4: CCL 41,321-323).

Tendo morrido, ressuscitou © fotografia (A dúvida de Tomé (2021). Pintura de Ruberval Monteiro da Silva OSB, Rolandia, Brasil. Exposição no Museu do Duomo de Salerno: Joaquim Félix
7. Jesus, que gostava de comer e beber,
aceitou o convite para ― talvez após a liturgia na sinagoga ―
tomar uma refeição na casa de um distinto fariseu.
Estas refeições não lhe esburacavam o caminho da humildade.
Dentro de casa, na sua humildade que começava na atenção
― quase nos faz lembrar Simone Weil que escreveu:
«Atenção é a forma mais rara e pura de generosidade» ―
notou «como os convidados escolhiam os primeiros lugares» (Lc 14,7).
Jesus tomou então a palavra não porque o fariseu
evitara convidá-lo «mais para cima» (Lc 14,10),
ou se sentisse humilhado nos últimos lugares,
mas porque viu, na atitude dos convidados, vaidade e soberba.
8. Nesse sentido, dirigiu-se primeiro aos convidados,
a fim de que eles fizessem o caminho da humildade;
e, depois, ao fariseu para que de futuro mudasse a lista de convites.
A humildade não é soberba, não inveja lugares distintos,
afasta-se dos presunçosos e detesta os oportunistas.
Antes, a humildade é serviçal, generosa e genuína.
E, como Jesus, dispõe-se a esperar o lugar que lhe será dado.
Ao fariseu Jesus inverte a lista, sim,
dizendo-lhe que a generosidade não é interesseira,
nem procura retribuição.
Pobres, aleijados, coxos e cegos foram aqueles a quem Jesus
chamou de «amigos» e sentou à mesa no banquete nupcial do reino.
A retribuição sucederá «na ressurreição dos justos» (Lc 10,154).

Estas refeições não lhe esburacavam o caminho da humildade © fotografia: Joaquim Félix
9. Atento como é, tanto no ouvir como no olhar,
Jesus recorda-lhe ― e a nós também ― as máximas do sábio:
«Em todas as tuas obras procede com humildade
e serás mais estimado do que o homem generoso» (Sir 3,19).
Nem Jesus nem Ben-Sirá solicitam a humilhação negativa.
Sugerem, sim, a humildade de coração e de serviço aos irmãos.
Santo Agostinho, a quem já citei abundantemente,
escreveu nas Enarrationes in psalmos (Ps. XXXIII, serm. 1):
«Humilitas occidit superbiam» (A humildade mata a soberba).
10. Já que também somos atentos, não deixa de ser curioso notar
que esta expressão aparece na espada, em abreviatura (H-AS OS),
na pintura «David com a cabeça de Golias» (1609-1610),
feita pelo reconhecido pintor italiano Caravaggio.
Hoje, ninguém se dignaria pintar tal expressão nas bombas e drones
que Israel lança contra os povos vizinhos, jornalistas, médicos
e voluntários que socorrem as vítimas dos hediondos atentados.
Israel, com esta política beligerante de Netanyahu,
está a afastar-se das fontes de sabedoria de Ben-Sirá
e de tantos outros sábios da milenar cultura judaica.
Di-lo o mundo inteiro e, também, mais de 80 rabinos ortodoxos,
que pedem a Israel «clareza moral», perante a crise humanitária em Gaza.
10. No Ordo Virtutum, ou Teatro das Virtudes,
a sua autora, Hildegarda de Bingen, coloca, na cena 2, o diabo a dizer:
«Que Poder é este?
Como se não houvesse mais ninguém para além de Deus?
Digo-te: a quem quiser seguir-me e fazer a minha vontade,
eu dar-lhe-ei tudo.
Quanto a ti, Humildade, nada tens que possas dar aos teus seguidores:
nenhuma de vós sabe sequer quem é!»
Mas a Humildade, responde-lhe:
«As minhas companheiras (virtudes) e eu sabemos muito bem
que és o dragão antigo que queria voar mais alto do que o mais alto:
mas o próprio Deus atirou-te para o abismo».
E continua ela: «Eu, Humildade, rainha das Virtudes, digo:
vinde a mim, Virtudes, e eu vos darei a habilidade
de procurar e encontrar a dracma que está perdida
e coroar aquela que persevera com alegria».
11. A humildade está no topo da escada das virtudes;
ela que é uma escada de muitos degraus na vida espiritual
segundo o ensino e a prática quotidiana de Jesus.
Sabendo disso, S. Bento termina o capítulo VII da sua Regra
com esta sapiencial conclusão:
«Uma vez subidos todos os degraus da humildade,
depressa atingirá aquele amor de Deus que,
sendo perfeito, expulsa o temor.
E graças a este amor,
o que antes observava não sem um sentimento de terror,
começará a guardá-lo sem dificuldade alguma,
como que naturalmente e por hábito» (RB 7, 67-68).
12. Subimos os degraus da humildade,
descendo dos «primeiros lugares» (Lc 147)
até ao último limiar onde se encontra Jesus;
Ele que é «mediador da nova aliança» (Hebr 12,24).
É na mesa baixa desta casa, para onde fomos todos convidados,
que Ele nos lava os pés e serve à mesa da missa-em-humildade.
Que a humildade do coração de Jesus nos ajude
na liturgia do mês dos recomeços, na escola ou no trabalho.
Estou persuadido de que Jesus, para nos relaxar e dar entusiasmo,
a partir do tema da humildade, seria capaz de sugerir
uma música, um filme e um livro.
A música poderia ser o tema Humility,
do álbum After Virtue, de Wim Mertens.
HUMILITAS … redonner un peu de fierté au monde paysan
poderia ser o filme para restaurar o ânimo de tantas pessoas
― em especial, agricultores, pastores, apicultores, entre outros ―,
que viram destruídos os seus territórios com os incêndios.
O livro, esse seria a antologia organizada por Ruy Ventura:
Cânticos do cântico,
que reúne 40 poetas e celebra os 800 anos do Cântico das Criaturas,
de Francisco de Assis, o humilde servo da fraternidade universal.

Nossa Senhora da Humildade, obra do escultor Asbjørn Andresen, na Capela da Imaculada, Braga © fotografia: Nelson Garrido
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 31 de agosto (domingo xxii do tempo comum ― c ― 2025), proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de Santa Cruz, em Braga.










