O Sínodo convocado pelo Papa Francisco, consequência natural da sua forma de estar enquanto pastor da Igreja Católica, na sua atenção ao mundo e, sobretudo, às pessoas que o habitam, nomeadamente aquelas que foram atiradas para as margens, assim como as muitas declarações e escritos sobre vários temas que atravessam as nossas sociedades, criaram no universo cristão, especialmente no católico, expetativas muito para além do possível. Expetativas essas que não eram apenas alimentadas por quem acreditava numa mudança, mas também de quem esperava que pouca coisa mudasse. Se há quem veja em Francisco uma luz de esperança, nomeadamente de todos aqueles e aquelas a quem fecharam a porta e que foram condenados e condenadas a viverem a sua fé numa quase na clandestinidade, outros e outras houve que viram e veem em Francisco um inimigo da cristandade, uma espécie de intruso pronto a enfraquecer a Igreja (entenda-se Instituição de poder) [ver 7MARGENS]. Embora os ventos deste pontificado fossem favoráveis, criou-se a ilusão de que o contexto onde ele se insere, ou seja, a estrutura também o seria. Puro engano. O que nem sempre compreendemos é que o fio condutor do seu pontificado, para além da sua experiência numa América Latina sofrida, se encontre lá bem atrás no início dos anos 60. Ou seja, no Concílio Vaticano II. Com a curiosidade de Francisco ser o primeiro Papa depois do Concílio que não participou pessoalmente no mesmo. Terá Francisco razões para que assim seja e o Concílio se tenha tornado uma referência?
Contudo, os passos que foram sendo dados, mesmo se pequenos e insuficientes aos olhos de muitos, deixarão no chão as marcas das “sandálias” utilizadas na caminhada. E esse facto não deixa de ser importante, pois essas marcas desafiarão outros a fazerem caminho, mesmo se outros haverá que continuarão a colocar obstáculos nessa caminhada ou até, a esforçarem-se por os desviar do caminho ou a apontarem-lhes o dedo.

“A Igreja Católica, como todas as grandes instituições, foi mais uma vez ultrapassada pelos acontecimentos porque avessa a grandes mudanças por demasiado presa a tradições e porque as estruturas alicerçadas no poder têm uma enorme dificuldade em se adaptar.” Foto: Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro. Direitos Reservados
Desde o Concílio Vaticano II passou mais de meio século. Décadas de profundas transformações e de uma aceleração vertiginosa da vida quotidiana graças sobretudo à evolução tecnológica na área da comunicação. A Igreja Católica, como todas as grandes instituições, foi mais uma vez ultrapassada pelos acontecimentos porque avessa a grandes mudanças por demasiado presa a tradições e porque as estruturas alicerçadas no poder têm uma enorme dificuldade em se adaptar.
Se o Concílio Vaticano II, convocado por João XXIII (Humanae Salutis) se erigiu como resposta da Igreja ao mundo moderno, este Sínodo erigiu-se em nome do povo de Deus, em nome das pessoas, como resposta à desesperança e ao sofrimento no seio da própria Igreja e das nossas sociedades. E se o povo da comunidade cristã são todos os que pelo batismo se tornaram seus membros de pleno direito, diria que filhos e filhas de Deus serão todos os que habitam esta “Casa Comum”. Ninguém, mesmo ninguém, está de fora, porque a Sua misericórdia é infinita e porque o destino é continuarmos a caminhar juntos. Não há outra opção.
Vem isto a propósito das sementes que estes acontecimentos lançam no seio dos filhos e filhas de Deus (seja qual for a forma de a Ele se referirem) e que depois, mesmo se em tempos diferentes, elas florescem e frutificam. Todas as sementes possuem tempos diferentes de germinação e de floração. Se olharmos para o após Concílio Vaticano II, e apesar das suas limitações, foram muitas as portas que se abriram e muitos os que se envolveram em vários setores da sociedade para aí lançarem novas sementes. Basta relermos os testemunhos e os vários textos aqui publicados sobre o Pe Jardim Gonçalves.
O antigo dirigente sindical da CGTP, José Luís Judas, referiu na sessão evocativa que é errado ver a criação da CGTP-IN e o seu crescimento como obra exclusiva de militantes comunistas: “A CGTP tanto deve o seu nascimento aos militantes comunistas como aos militantes católicos. Em vários distritos, como o do Porto, de Braga, de Castelo Branco e em outros, a influência do movimento operário católico era muito maior do que a presença dos poucos militantes operários comunistas existentes nessas zonas.” Não foi apenas no setor operário ou em outros setores através dos movimentos da Ação Católica, foi também, com base em vários textos produzidos pelo Concílio, a consciência que os cristãos ganharam sobre o seu papel na sociedade. O que levou, por exemplo, ao envolvimento de muitos cristãos na luta contra o Estado Novo e contra a guerra colonial. Um outro exemplo bem conhecido de todos foi o aparecimento da Teologia da Libertação na América do Sul. E Francisco não deixará de olhar para essas experiências, mesmo se crítico.
Não podemos pensar que o Concílio é algo arrumado no passado, numa das gavetas da memória e que o Sínodo é a atualidade. Será assim? Não será o continuar de uma longa caminhada com dois milénios? Estes dois acontecimentos na vida da Igreja encontram-se interligados, são duas partes do mesmo caminho.
Como bem lembrou o Papa Francisco no prefácio do livro “João XXIII. Vaticano II, um Concílio para o mundo” (2022):
“(…) o último Concílio Ecumênico ainda não foi totalmente compreendido, vivido e aplicado. Estamos a caminho, e uma etapa fundamental deste caminho é a que vivemos com o Sínodo e que nos pede para sair da lógica do “sempre se fez assim”, da aplicação dos mesmos velhos esquemas, do reducionismo que acaba querendo sempre enquadrar tudo no que já é conhecido e praticado.”
A este propósito pode ler parte da entrevista concedida em 2022 a Emmanuel Van Lierde, jornalista do semanário católico belga Tertio. O que me parece importante é que não se perca a memória e relembremos o que é fundamental. A História da Igreja pode ser feita de contradições, incoerências, poder e até crimes, mas também de pessoas dispostas a dedicarem a vida ao outro e disponíveis para fazerem caminho com outros assumindo o risco das fragilidades que são as suas e da imperfeição que a todos habita.
Sempre houve pessoas que se envolveram em vários setores da sociedade ou através do seu trabalho e procuraram viver a sua fé de acordo com a mensagem evangélica ao serviço dos outros e na procura do bem comum. E assim continuará a ser, pois esse é o mistério da vida e da esperança que continuamos a alimentar através do cuidar do outro e do mundo que nos rodeia.

Estes dois acontecimentos na vida da Igreja encontram-se interligados, são duas partes do mesmo caminho. Foto © António José Paulino
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