Do confinamento às Minas

| 10 Jul 20

Minas de S. Domingos. Foto © Teresa Vasconcelos

 

Sair de casa e mudar de paisagem tornou-se-me necessário. Viajei com amigos para o Alentejo profundo, até às minas de S. Domingos, a cerca de 14 quilómetros de Mértola. Uma descoberta para mim. Fiquei alojada numa das casinhas brancas que bordam as ruas, antes destinadas às famílias mineiras; isto é, cada família tinha direito a um quarto, à medida que a atividade mineira se foi ampliando e não havia casas para todos. Bem perto, a “barragem da Tapada Pequena” com água suave e temperatura agradável que permitiu longos momentos de natação. Tudo verde à nossa volta. Terra vermelha semeada a renques de oliveiras em plantação extensiva (a paisagem está drasticamente mudada nesta parte do Alentejo) e eucaliptos. Chaparros e sobreiros aqui e ali.

Mas a revelação foram as minas. O vasto complexo mineiro é considerado uma Zona de Proteção Especial, com uma tradição mineira que remonta aos fenícios, aos cartagineses e aos romanos (entre os séculos I e IV com o objetivo de extração de cobre, ouro e prata). Está localizado na Faixa Piritosa Ibérica a qual abrange o Alentejo, o Algarve e a Andaluzia, num arco de cerca de 250 quilómetros de comprimento e 30 de largura.

Exploradas desde 1858 pela companhia inglesa Mason and Barry, mantiveram a sua atividade até 1965, ano em que se esgotou o minério e a mina encerrou. Foi a maior exploração mineira portuguesa. Chegaram a trabalhar nela mais de mil pessoas. Ao longo dos anos foram retirados 25 milhões de toneladas de minério: cobre, zinco, chumbo e enxofre. Um assalto e uma violação. Em que termos terá sido negociada esta concessão? A imagem com que nos confrontamos é de uma terra abandonada, destruída, devastada como se tivesse havido uma guerra: águas estagnadas e gravemente poluídas pelos ácidos, ruínas, ferros torcidos, vestígios de uma estação de caminho de ferro que levava o minério até ao porto fluvial de Pomarão. Este foi um dos primeiros caminhos de ferro construídos em Portugal, com cerca de 17 quilómetros de extensão. No porto, que os ingleses tornaram mais profundo de modo a permitir a navegação, o minério seguia até à foz do Guadiana e daí por via marítima para o Reino Unido.

 

Uma desolação

Apesar de decrépitas e sem telhados vimos, completamente reconhecíveis, as oficinas onde se reparavam os comboios (dois foram mesmo lá construídos), com os espaços destinados aos carris, uma ponte férrea. Um silêncio “ensurdecedor” … Um pouco mais acima, vê-se a lagoa de águas ácidas – extremamente tóxicas – com os socalcos de terra avermelhada a céu aberto de onde ia sendo extraído o minério. Uma verdadeira cratera. Águas muito escuras, quase pretas, com tonalidades cor de cobre junto às margens, os restos de uma central eléctrica (a primeira do Alentejo) e o cais do minério onde se fazia a descarga e separação do minério por várias categorias. Daqui o minério seguia diretamente em vagões para o porto fluvial ou para uma estação de tratamento.

Uma desolação. As plantas ainda não crescem (passados 52 anos) porque a terra ficou demasiadamente poluída. Com fundos europeus está-se a tentar despoluir as águas, mas a imagem de desolação persiste ao longo de inúmeros quilómetros.

Existe um pequeno Museu do Mineiro que mostra o interior de uma casa. Tudo reduzido à sua essência. A mina estava absolutamente estratificada em classes sociais: o palacete do diretor (agora um hotel) abrindo para um jardim com um coreto, apelidado de “jardim dos ingleses” e onde, ao domingo, tocava uma banda constituída por mineiros e seus familiares. Residências para os técnicos e pessoal administrativo. Nesta área da aldeia havia energia eléctrica.

 

Heróis e príncipes

“…onde houvesse um pedaço de terra à frente ou nas traseiras das casas, aparecia um quintalzinho com plantas decorativas e produtos hortícolas.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Bem afastadas, não permitindo grande interação a não ser nas situações de trabalho, vemos as ruas com fileiras de casas térreas caiadas dos mineiros. Mas o interessante era que, onde houvesse um pedaço de terra à frente ou nas traseiras das casas, aparecia um quintalzinho com plantas decorativas e produtos hortícolas. A estética a emergir das ruínas… A aldeia possuía várias associações desportivas e recreativas, um teatro, um hospital. Hoje ainda existe um mercado em que, dois dias por semana, há peixe fresco vindo do Algarve. Pão fresco todos os dias (e que pão!) na pequena mercearia que serve a aldeia. Retirado do centro existe o cemitério inglês com terra mandada vir diretamente do Reino Unido.

À boa maneira alentejana, tudo muito limpo e arrumado, não se vê um papel nas ruas. A aldeia é hoje habitada quase exclusivamente por velhos, alguns veraneantes nos meses de verão que usufruem de uma praia fluvial bem atrativa. Bancos de rua à sombra da qual se instalam velhos com os seus típicos bonés a contar as suas histórias. Mineiros, fiéis à sua classe operária, que nunca traíram o Partido Comunista apesar de terem sido torturados e tratados com violência.

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.

Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

Não posso deixar de relembrar o inesquecível poema de Sophia:

 

Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.

Minas de S. Domingos (aldeia). Foto © Teresa Vasconcelos

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior (aposentada) e participante no Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)

 

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