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Do conhecimento de Deus

| 21/07/2023

Esta é a vida eterna: que te conheçam (γινώσκωσιν) a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste.
(João 17:3)

 

Rubens, Vénus e Adónis (1614). Museu Hermitage, São Petesburgo (Rússia).

Se tivermos de definir o que é teologia, podermos afirmar que é a procura do conhecimento de Deus. Desde tempos imemoriais, o ser humano se tem embrenhado na procura de si mesmo e da realidade última, absoluta e divina a que chama Deus. Na Antiguidade, e especialmente nas religiões politeístas greco-romanas, o conhecimento acerca dessas divindades, aliás meramente intelectual, provinham essencialmente da mitologia grega registada, por exemplo, nas obras de Homero, Hesíodo e Cícero. Se tivermos em conta que a qualidade mais distinta dos deuses do panteão grego é o poder e que pouco ou nenhum interesse tinham pelos humanos, apercebe-se que as relações entre estes últimos e as divindades assentava basicamente numa relação impessoal.

No judaísmo, o conhecimento de Deus processava-se muitas vezes através de uma busca direta na Torá e no Talmud, os quais continham praticamente tudo quanto se necessitava saber acerca da divindade. Mas, já como postulava Kant, se tivermos em conta os limites da razão humana, conhecer Deus em toda a sua plenitude é algo que estará para além das nossas capacidades. As escrituras hebraicas relatam várias teofanias onde Deus se revela à humanidade, mas essas manifestações divinas eram sempre limitadas. Quando Yahweh se dá a conhecer a Moisés no Monte Sinai, jamais revela o Seu rosto: aquele que lhe vir a face jamais poderá sobreviver (Livro do Êxodo 33:20-23). Da mesma maneira, quando Isaías vê o Senhor, apenas lhe vê as franjas do Seu manto que enchiam o Templo e onde os próprios serafins cobriam os seus rostos com as suas asas diante do Senhor (Isaías 6:1).

A palavra hebraica יָדַע (yada’), que tantas vezes se traduz para português como “conhecimento”, ocorre no Velho Testamento cerca de novecentas e cinquenta vezes. Esta palavra, yada’, conforme apontou o professor José Augusto Ramos, docente de hebraico na Faculdade de Letras de Lisboa, pode significar todos os matizes que, em geral, se atribuem ao conhecimento. Geralmente concedemos, no imediato, um significado primário que remete para os processos mentais e cognitivos. Porém, tem essa particularidade de representar bem o lado relacional, não apenas nos vários matizes do afeto, mas também do reconhecimento, do acolhimento e do cuidado para com Deus e para com os outros.

Nesse sentido, vemos nas escrituras o uso da palavra yada’ apontando para uma relação íntima e amorosa entre duas pessoas: Adão conhece Eva e dá à luz Caim (Génesis 4:1), Elcana conhece Ana, que gera o profeta Samuel (1 Samuel 1:19). Observamos igualmente o profeta Jeremias a entender a verdadeira sabedoria e conhecimento de Deus como uma Imitatio Dei, observando-O no exercício da misericórdia, da justiça e retidão na terra e na defesa da causa dos pobres e necessitados: “Não é isso o conhecimento de Deus?”, questiona o profeta (Jeremias 9:23, 22:16).

Posto o anterior enquadramento textual e semântico, estaremos em condições de podermos ter uma nova abertura para a compreensão do texto de João 17:3. Estamos no coração do magistral discurso da despedida de Jesus, onde ora pelos Seus discípulos antes de partir para o Pai. Aqui Jesus, de olhos voltados para os céus e em oração ao Pai, é bastante assertivo quanto ao que entende por “vida eterna”: “Esta é a vida eterna: que te conheçam (γινώσκωσιν) a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste” (João 17:3). A palavra grega ginōskōs que se traduz aqui por conhecer, é precisamente a palavra hebraica igualmente usada para exprimir uma relação afetiva e íntima entre um homem e uma mulher. Aqui o desejo expresso por Jesus, não será tanto esse conhecimento racional de Deus, muitas vezes assente em asserções teológicas, doutrinais ou dogmáticas, mas num conhecimento íntimo como Ele tinha da mesma maneira com o Seu Pai.

Sem querer retirar qualquer valor ao conhecimento racional que possamos ter de Deus, se é que o conseguiremos alguma vez e de forma plena, atrevo-me a pensar que tudo aquilo que, de alguma maneira, não envolva tocar ou ser tocado – tal como dois amantes se tocam apaixonadamente – não é um verdadeiro conhecimento que tenhamos acerca d’Ele. Ao contrário do conhecimento experiencial, subjetivo (yada’), o conhecimento objetivo apenas conhece sem envolvimento. Isso também se aplica ao conhecer a Deus.

Para conhecermos o nosso Pai, tal como Jesus tão bem o conhecia, teremos de estar dispostos a esse envolvimento com Ele a partir da experiência de um relacionamento íntimo, apaixonado, deixando-nos tocar por Ele em todo o nosso ser. Só então é que poderemos afirmar que O conhecemos, pelo menos em parte. Paulo, no seu magnífico Cântico do Amor, no capítulo 13 da sua primeira Carta aos Coríntios, fala acerca dessa experiência, quando diz: “Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei (γινώσκω) como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor”.

Tudo passará: as profecias, os dons de línguas e a ciência; mas no fim de tudo, permanecerá somente o verdadeiro conhecimento de Deus. Isto é, o amor.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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