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Joaquim Félix. Foto

Do crisântemo branco com a cigarra verde

| 01/11/2023

 

[o crisântemo branco / acolhe a cigarra ― / canção da santidade! © haicai e fotografia Joaquim Félix]

1. Este ano, numa tarde de agosto, contemplei uma imagem,
que conservo na memória visual e sonora,
a qual, por nada, desejaria que fosse apagada ou emudecida.
Sim, vi, não «um anjo que subia do Nascente» (cf. Ap 7,2),
mas uma cigarra verde subindo à corola de um crisântemo branco.
E demorei-me naquela paisagem-icónica, pensando neste dia,
― o da Solenidade de Todos os Santos ―
tantos são os crisântemos que, nos cemitérios dos cristãos,
cobrem de cor e de perfume as campas e os jazigos.
Confesso-vos que pensei em Jesus a deter-se nesta imagem
para construir uma parábola a fim de apresentar a santidade.

2. A que havemos de comparar a santidade?
É semelhante a um crisântemo, símbolo da vida cheia e completa;
cresce no jardim, nos pomares, à volta de casa,
e perfuma a vida, da cozinha até à jarra da sala, com simplicidade e perfeição.
O sol abre-o e, da sua corola radiante, exala-se o perfume da existência.
Na diversidade das suas cores e pétalas,
podemos ler as nossas felicidades quotidianas em gestos simples e honestos,
e as lágrimas de lutos e dores enxugadas na esperança dos perfumes pascais.
E se uma cigarra verde sobe às suas pétalas,
então a vida abre-se, pela hospitalidade, nos seus cantares.
Podem as pétalas oxidar de velhice ou com enfermidades,
mas não podem apagar as bem-aventuranças.
A quem desde já respira do seu perfume acordará, nas alegrias comuns,
a esperança da vida futura, como às crianças recordadas de suas mães.
E, jubiloso, semelhante à cigarra verde, pode cantar o «Te Deum»:

 

3. A santidade foi interpretada ao longo da história com várias acentuações:
sobriedade e realismo salutar, na apresentação bíblica;
heroísmo e mortificação, na Idade Média;
certo desinteresse e menosprezo, na época mais recente.
Parece que ela perdeu o encanto que teve nos séculos passados,
devido à sua apresentação estática, irreal, alienante e megalómana.
Um santo parece que tinha de entrar em levitação,
viver em cima de uma coluna, ou receber os estigmas…
Tal compreensão levou muitos a defender menos auréolas e resplendores,
e a considerar a santidade como um detalhe folclórico da vida da Igreja.
É, pois, urgente superar o moralismo e recuperar o sentido da santidade.
Ela resulta da iniciativa de Deus:
santificar o Homem é transformá-lo, elevando-o em Cristo à condição de filho,
ao qual o Pai se desvela em sua divina paternidade.
É por isso que S. João escreve na sua Primeira Carta:
«Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus.
E somo-lo de facto» (1 Jo 3,1).

4. Mesmo que muitas devoções aos santos se prestem à dispersão,
permanece, porém, viva a sua exemplaridade,
não como objeto de imitação dos seus gestos particulares,
mas do seu projeto existencial, na sua ética incarnada.
Todos os Santos, que honramos, dizem-nos que a santidade
não é luxo, mas um ‘bem e serviço de primeira necessidade’.
Se a vocação à santidade é universal, ela vive-se de diferentes formas:
pode-se ser santo em todos os estados de vida e em todas as profissões,
sem que disso se tenha consciência,
nem saber como se ‘proclama canonicamente’ um santo.
Os santos são homens e mulheres sensíveis à história e ao mundo,
que desenvolvem as suas capacidades na solidariedade;
cristãos sem espetacularidade, que passam inadvertidos,
dedicados às suas boas obras, com uma boa dose de abnegação;
provavelmente objeto de contradição, incompletos e vulneráveis.

5. Das guerras violentíssimas, que deflagram nos últimos tempos,
temos visto, todos os dias, demasiado sangue de inocentes a ser derramado,
desde logo crianças e mulheres, mas também de homens indefesos.
De alguma forma, o Ancião que interrogou S. João pode dizer-nos
a propósito do seu martírio, como daquele dos primeiros cristãos:
«São os que vieram da grande tribulação,
os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro» (Ap 7,14).

6. Esta passagem do Apocalipse e a presente situação de conflitos
fez-me relembrar a entrada numa capela,
instalada na entrada de outra capela, no caso, do séc. XII,
dentro de um museu, em Vallauris, no sul de França.

 

Nessa capelinha, que se assemelha na sua configuração
aos fornos do grés da ‘Fábrica Campos’, em Alvarães,
onde muita gente da nossa comunidade trabalhou,
Pablo Picasso pintou primeiro a «Guerra» e depois a «Paz».
No painel da «Guerra», os cavalos,
magros como aquele burro coberto de escombros em Gaza,
puxam, sobre um mar de sangue, a carruagem da morte.
Figura sinistra, o condutor carrega um cesto de crânios,
e do seu gládio escorre sangue.
O livro em fogo é pisado por um cavalo
e o féretro está cheio de necrófagos e catos.
Sozinho e despido, o guerreiro enfrenta-os com o seu escudo da paz
e a balança da justiça.
Do outro lado, o da «Paz»,
Picasso pintou um menino conduzindo um cavalo alado,
sem deixar de brincar com a lua.
Na praça, um músico toca uma flauta-dupla.
O dia é esplendoroso e do sol nasce trigo.
Aberto, o livro alimenta a cultura da paz.
E à sombra de uma árvore, com frutos luminosos, um recém-nascido é aleitado.
Ao fundo, Picasso pintou quatro figuras (a representar os continentes)
que levantam ao céu uma ‘hóstia’ amarela,
na qual se encontra gravada uma pomba com um ramo no bico.

7. Aqui e agora, sinto que vivemos entre a guerra e a paz,
e não nos podemos tornar indiferentes à multidão de mártires
que sucumbem às centenas cada dia, cada noite,
na Faixa de Gaza, em Israel, na Ucrânia e em tantos outros conflitos.
Que o livro aberto na liturgia não seja pisoteado e incinerado;
antes, que a sua Palavra seja promotora de paz e de santidade.
Que ela seja, sim, como ensina Jesus nas bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12),
uma extraordinária operação de multiplicação da felicidade,
sobretudo onde mais nos parece que seria impossível vê-la acontecer.
Vale bem a pena rezar, a partir de cada uma delas,
por exemplo, com a oração redigida pelo Cardeal José Tolentino Mendonça:

 

8. Não permitamos que os nossos olhos vacilem,
ou as nossas mãos fiquem vazias, sem oração nem partilha,
inclusive para a Liga Portuguesa Contra o Cancro.
Façamos, pois, deste poema de Sophia de Mello Breyner Andresen,
a nossa oração final, abrindo as mãos como crisântemos
habitados por cigarras verdes, ao sol da graça santificante:
«Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.» (Obra Poética, 61).

9. Quando, das nossas mãos, a hóstia do Cordeiro for levantada,
supliquemos, cantando, com o rosto de uma geração
que procura a face radiante do Senhor (cf. Sl 24):
«Da Pacem Domine» (Dá a paz, Senhor)

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia desta quarta-feira, dia 1 de novembro, solenidade de Todos os Santos na liturgia católica, na missa celebrada em Fragoso, Barcelos. 

 

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