Do desconforto das mulheres judias à oração no Muro das Lamentações

| 3 Mar 19

Ilustração © Sara Naves

Sendo a religião monoteísta mais antiga do Mundo, o papel das mulheres no judaísmo tem evoluído ao longo dos séculos. Atualmente, as duas maiores comunidades de judeus no mundo encontram-se nos Estados Unidos e em Israel.

Segundo os textos mais clássicos do judaísmo – não só a Bíblia, como também o Talmude e outros –, sempre existiram algumas diferenças entre os géneros. Nos primórdios dos tempos bíblicos, o casamento e a lei familiar favorecia os homens – por exemplo, o marido podia-se divorciar da mulher se quisesse, mas a mulher só se podia divorciar do homem com o seu consentimento.

A literatura clássica, como o Talmude, tem várias citações que colocam as mulheres subordinadas aos homens. Mas o contrário, por vezes, também acontece, com as mulheres colocadas num patamar superior ao dos homens:

  • Maior é a recompensa dada pelo Todo-Poderoso à (justa) mulher do que ao (justo) homem;
  • Um homem sem mulher vive sem alegria, benção e bem; um homem deve amar a sua mulher como a ele mesmo e respeitá-la mais do que a ele próprio;
  • Dez formas de discurso desceram ao mundo, as mulheres ficaram com nove;
  • As mulheres têm mais fé que os homens;
  • As mulheres têm um grande poder de discernimento.

Conforme se lê no portal digital Judaism 101, o Talmude acentua os papéis da mulher como mãe, esposa e cuidadora do lar. As mulheres são desencorajadas de ir para o ensino superior, sob pena de negligenciarem o seu dever primário como mães e esposas.  Como tal, tradicionalmente, a mulher judia estava dispensada de várias atividades religiosas que são apenas obrigações dos homens, para que os seus deveres de mãe não fossem comprometidos. Esta isenção diminui o papel da mulher na sinagoga, lugar da assembleia da comunidade, algo muitas vezes visto como menos importante que o papel dos homens no judaísmo. Aliás, para constituir tradicionalmente uma comunidade que se reúne numa sinagoga, são necessários pelo menos dez homens.

Rachel Adler, professora de Pensamento Judaico Moderno, teóloga e feminista, considera que muitas mulheres judias comprometidas com a sua fé se sentem “desconfortáveis com a sua posição no judaísmo”. No seu ensaio de 1971 The Jew Who Wasn’t There: Halacha and The Jewish Women(O Judeu que não estava lá: Halacha e as mulheres judias), Adler afirma que não se identifica com os estereótipos da mulher judia modesta e mãe. Analisa depois os preceitos de Halacha, as regras que devem ser seguidas para cumprir os preceitos da Torá.  

Para muitos, esta perspetiva feminista foi considerada inovadora na desconstrução dos papéis de género no judaísmo.

Recentemente entrevistada para um portal de notícias judaicas da Califórnia, Adler considera que é necessário inserir um olhar feminino na Torá e no Talmude, para que a Halacha se possa transformar num veículo de cura e não “numa ferramenta de opressão”. A professora comenta ainda que o movimento Me Too pode e deve encorajar uma revisão dos preceitos religiosos.

 

Do sexismo ortodoxo às primeiras mulheres-rabis

Hoje em dia, tal como em outras confissões, as diferentes correntes do judaísmo apresentam diferentes perspetivas do papel da mulher.

A ortodoxia judaica incluiultra-ortodoxos, ortodoxos e ortodoxos modernos. São, em geral, o ramo mais conservador dos judeus, as expectativas sobre as mulheres baseiam-se quase exclusivamente naquilo que está consagrado na Halacha. As vestes devem ser modestas, o cabelo tem de permanecer coberto e as regras acerca da escolaridade e do papel da mulher no lar são iguais às dos tempos bíblicos iniciais.

Enquanto que muitas mulheres se conformam a este estilo de vida mais regrado, outras tentam explorar o âmbito em que se encontram, permanecendo nos limites da sua fé. Em Nova Iorque, duas irmãs criaram uma linha de roupa dentro das regras do judaísmo ortodoxo, para que as mulheres se pudessem sentir bonitas mesmo vestindo-se modestamente. No mesmo estado, três mulheres ortodoxas criaram uma banda de rock e dão concertos só para mulheres – algo a que as mulheres não podem normalmente assistir

Num âmbito mais teológico, a americana Lila Kagedan, uma das poucas rabinas ortodoxas (ainda que o Conselho Rabínico dos Estados Unidos não a reconheça como tal) considera que é importante que se continue a insistir no acesso das mulheres ao rabinato: “O sexismo está muito presente na comunidade judaica. Este é um desafio que requer uma mudança cultural e filosófica radical para ser solucionado. Não é fácil conciliar filosofia antiga com valores contemporâneos. Mas agora, mais do que nunca, as mulheres líderes no judaísmo ortodoxo devem ser encorajadas a levantar-se e a ser bem sucedidas.”

Se nos ramos mais conservadores a mudança ainda passa pelo papel da mulher na sociedade, nos ramos mais liberais as mudanças são perspetivadas a um nível teológico. “Apenas recentemente as mulheres se tornaram professoras de teologia, rabis e contribuidoras para a Halacha”, dizia também Rachel Adler.

Até ao Renascimento judaico (Haskalah) nos séculos XVIII e XIX, a ideia de mulheres rabis parecia remota. Mas, nas últimas décadas, começou a assistir-se à formação de várias mulheres em escolas de rabis. A maioria das mulheres-rabis hoje em dia foram consagradas em seminários conservadores, reformadores ou reconstrucionistas. A primeira mulher-rabi oficial foi Regina Jonas, de Berlim Leste, consagrada a 25 de Dezembro de 1935 como rabi das comunidades judias da Alemanha. Nos Estados Unidos, o movimento Reformador ordenou a primeira rabina em 1972, o Reconstrucionista em 1974 e o conservador em 1985.

 

Rezar no Muro das Lamentações

Judeus a rezar no Muro das Lamentações: mulheres judias também querem ter acesso ao local em igualdade de circunstâncias (Foto © Richard van Liessum/Pixabay)

 

Nas comunidades conservadoras do judaísmo,a perspetiva é a de que a Halacha é vinculativa mas está sempre em evolução.

Em dezembro de 1977, uma assembleia de rabis e o Seminário Teológico Judeu criaram a Comissão para o Estudo da Ordenação das Mulheres como Rabis: daí a um ano, os onze membros concluíram não haver objeção à preparação e consagração de mulheres.

Entre as comunidades reformadoras, desde o início que se permite a homens e mulheres rezarem juntos. À medida que o papel da mulher foi mudando na sociedade, durante o século XX, formou-se nos Estados Unidos o Conselho Nacional de Mulheres Judias, que permitiu a entrada das mulheres no rabinato.

Os reconstrucionistas, finalmente, fundados por Mordecai Kaplan, um judeu estadunidense professor de teologia, têm mulheres rabis desde a sua formação, em 1968. Tal como os reformadores, acreditam que os homens e as mulheres têm direitos iguais, independentemente da Halacha.

Em Israel também tem havido mudanças. A organização Women of The Wall (WOW), um grupo fundado em 1988, defende que as mulheres devem poder rezar como um grupo (lendo a Torá) no Muro das Lamentações. Atualmente, a lei de Israel não permite que isto aconteça e uma mulher que o tente pode ser condenada a seis meses de prisão. As WOW integram milhares de mulheres de todo o mundo e de todos os ramos do judaísmo, incluindo ortodoxos

A 31 de Janeiro de 2016, o Governo israelita aprovou a criação de um espaço de prece igualitário onde mulheres judias (não-ortodoxas) e homens pudessem rezar no Muro das Lamentações. Esta decisão foi celebrada por vários líderes judeus mundiais e condenada por líderes ortodoxos.

Shoshana Gugenheim tornou-se uma das primeiras mulheres tradutoras da Torá em Israel e, em 2010, foi a líder do grupo de seis mulheres tradutoras The Women’s Torah Project. O projeto foi traduzido para a sinagoga Reconstrucionista de Seattle, em Washington (Estados Unidos).

Quão grandes são as diferenças de género dentro de cada religião? E o que querem as mulheres crentes em cada uma das confissões? Até 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, o 7MARGENS irá traçar um retrato da situação das mulheres nas principais tradições religiosas e falará dos debates existentes sobre os seus papéis dentro das diferentes confissões. 

Artigos relacionados

Breves

Leigo nomeado líder pastoral de paróquia alemã

Pela primeira vez, foi atribuída a um leigo a gestão pastoral de uma paróquia, por decisão da diocese de Münster, na Alemanha. A medida, aplicada à paróquia de St. Georg en Saerbeck, surge na sequência da saída do pároco anterior e da impossibilidade de o substituir, devido ao reduzido número de padres, avança o jornal ABC.

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Boas notícias

Sudão acaba com pena de morte para cristãos que não se convertam ao islão

Sudão acaba com pena de morte para cristãos que não se convertam ao islão novidade

O Governo do Sudão prossegue o seu programa de reformas ao código penal do país, tendo anunciado que vai eliminar a pena de morte por apostasia (neste caso, a recusa por parte dos cristãos em converter-se ao islamismo) e despenalizar o consumo de álcool para os mesmos. A criminalização da mutilação genital feminina irá também avançar, depois de ter sido aprovada no passado mês de maio.

É notícia 

Entre margens

Oração do silêncio novidade

O cristianismo tem uma longuíssima experiência da oração silenciosa ou meditação ou contemplação ou oração de Presença ou do Coração que, no Ocidente, se foi esfumando até quase desaparecer. O Concílio Vaticano II exprimiu a importância desta oração nos leigos, mas não pegou muito. Agora, surgem livros sobre o assunto e há mais prática desta oração. Há um livro que achei muito interessante: Pequeno Tratado da Oração Silenciosa, de Jean-Marie Gueullette, OP (2016, Paulinas Editora).

A sustentável leveza do jugo de Jesus

É incontestável o facto de que cada um de nós experimenta, uns mais do que outros e de formas variadas, o peso da vida. E esse peso manifesta-se de múltiplas maneiras, seja a depressão e solidão, a tensão e a ansiedade, a angústia e medo, a dor e a hostilidade. Carregamos até, voluntariamente ou não, os pesos de outros.

Desafia-te a viver positiva(mente)!

Assim, viver positivamente deverá impulsionar-nos a transcender essa visão ontológica do ser humano que tende a acentuar mais aquilo que é negativo ou que não funciona, procurando antes focar o olhar naquilo que cada circunstância oferece como aprendizagem, caminho necessário à mudança e ao crescimento, assim como naquilo que no mundo e no ser humano há de melhor.

Cultura e artes

Hagia Sophia, música de uma sublime respiração novidade

“Lost Voices of Hagia Sophia” (“Vozes perdidas da Divina Sabedoria”) é um disco ideal para tempos em que nos confinamos a viver afectos e contactos de forma receosa, com uma proposta inédita: recriar digitalmente o som daquela que já foi basílica e mesquita (a partir de 1453), hoje (ainda) monumento património da humanidade e que uma decisão do actual presidente turco pretende voltar a tornar mesquita.

Ennio Morricone (1928-2020): As bandas sonoras das nossas vidas

Na hora da morte de Ennio Morricone, o grande consenso em torno da música deste compositor italiano tomou de assalto meios de comunicação, de títulos tradicionais às instantâneas redes sociais, com as referências cinéfilas a saltarem ao sabor de temas que viveram muito para além das imagens a que emprestaram uma melodia. 

Filmar o desejo como quem pinta

Retrato da Rapariga em Chamas é um filme magnificamente feminino que coloca ao espectador – talvez ainda mais ao espectador crente – algumas questões que dão que pensar. Penso que não é um filme ideológico a fazer a apologia da homossexualidade feminina ou do aborto, mas um retrato sofrido, sobretudo das três protagonistas.

Ennio Morricone na liturgia católica em Portugal

Embora músico semi-profissional – pertencia então à Equipa Diocesana de Música do Porto, presidida pelo padre doutor Ferreira dos Santos – desconhecia por completo, em 1971, quem era Ennio Morricone: sabia apenas que era o autor de uma balada cantada por Joan Baez, que ele compusera para o filme Sacco e Vanzetti (1971). Não me lembro como me chegou às mãos um vinil com essa música. Também não tinha visto o filme e não sabia nada dos seus protagonistas que hoje sei tratar-se de dois anarquistas de origem italiana condenados à cadeira eléctrica nos Estados Unidos, em 1927, por alegadamente terem assassinado dois homens…

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

Fale connosco