Do diálogo inter-religioso às teologias pluralistas

| 23 Mar 19

É com crescente regularidade que hoje assistimos à realização de actividades de diálogo inter-religioso, em vários países do mundo. Não se trata, obviamente de uma inovação dos tempos modernos, nem tão pouco é uma moda. Diríamos que é uma tendência inescapável das religiões no mundo globalizado que tomou consciência da sua diversidade.

O envolvimento no diálogo inter-religioso não nos deve fazer esquecer que, durante muitos séculos, a esmagadora maioria das religiões considerou-se como a única, a verdadeira, a realização suprema de toda a manifestação religiosa. E a história da humanidade mostra-nos como essa noção de exclusivismo religioso foi um propulsor de conflitos entre comunidades e um obstáculo tremendo ao entendimento entre os povos. Os seus paradoxos são evidentes:

  • Como pode Deus ser criador de toda a humanidade e dar-Se a conhecer apenas a um grupo restrito?
  • Como se pode afirmar que Deus ama toda a humanidade e simultaneamente pretender que Ele apenas “salva” uma minoria?
  • Como se pode dizer que Deus é um Deus de amor universal e simultaneamente acreditar que apenas uma religião é verdadeira?

Todos percebemos que, nas últimas décadas, o nosso planeta testemunhou profundas mudanças políticas; as migrações de populações acentuaram-se; e a informação passou a fluir a uma velocidade estonteante. Simultaneamente, a maioria das sociedades deixou de ser monolítica e fechada, passando a ser multicultural, multi-étnica, diversificada, multi-religiosa e aberta.

Neste mundo constituído por sociedades plurais, uma religião que ignore (ou rebaixe) outras religiões corre um grande risco de ser considerada como inadequada ou ultrapassada. O exclusivismo religioso, portanto, tornou-se uma postura anacrónica.

Mas neste mundo diversificado, o diálogo inter-religioso não se pode resumir a encontros mediáticos entre líderes religiosos ou a sentimentos de auto-satisfação pelo encontrar da Regra de Ouro (o tal resumo de valores éticos comuns às religiões).

O grande desafio que o diálogo inter-religioso coloca às religiões é a exigência do desenvolvimento de Teologias Pluralistas, que reconheçam a importância dos outros credos, apresentando aos crentes uma perspectiva consistente com a diversidade religiosa das sociedades modernas, sem que isso cause a diluição da sua própria identidade.

As teologias pluralistas permitirão certamente a partilha dos recursos espirituais da humanidade. Afinal, o que impede um judeu de aprender algo mais sobre a sua religião com um hindu como Ram Mohan Roy? Não pode um budista ficar fascinado com a espiritualidade de um muçulmano como Ibn Arabi? E será que um bahá’í não pode desenvolver a sua espiritualidade ao ler obras de um luterano como Dietrich Bonhoeffer?

No futuro iremos certamente ver confissões religiosas a desenvolver teologias pluralistas. O caminho passa, acredito, por evitar o sincretismo e procurar uma transformação profunda na forma como as pessoas entendem o universo das religiões e o lugar que a sua religião ocupa nesse universo. As teologias pluralistas devem igualmente transmitir a ideia de que nenhuma religião em particular é a protagonista principal da história religiosa da humanidade. Esse protagonismo apenas pode ser atribuído ao próprio Criador.

Esperemos que as religiões e as futuras gerações estejam à altura deste desafio. E que o seu envolvimento no Diálogo Inter-Religioso seja um contributo significativo para o desenvolvimento de sociedades mais justas, harmoniosas e espiritualmente mais enriquecidas.

Marco Oliveira é membro da Comunidade Bahá’í

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