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Pré-publicação de Dietrich Bonhoeffer

Do «extraordinário» da vida cristã – As Bem-Aventuranças

| 17/11/2024

A capa do livro Seguimento, de Dietrich Bonhoeffer

A capa do livro Seguimento, de Dietrich Bonhoeffer

“Em tempos de renovação da Igreja, a Sagrada Escritura torna-se ainda mais rica para nós”, escreveu o pastor da Igreja Confessante alemã, Dietrich Bonhoeffer, assassinado pelos nazis em 9 de Abril de 1945, com 39 anos, semanas antes de Hitler se suicidar e um mês antes do final da Segunda Guerra Mundial.

Com aquela perspectiva, Bonhoeffer escreveu Seguimento, agora publicado em Portugal pela Lucerna, na sua coleção Calcutá, com o subtítulo A decisão por Jesus Cristo. No livro, o autor de Ética e de Resistência e Submissão, trata de temas como a vocação para o seguimento, a obediência, o caráter oculto da vida cristã, a segregação da comunidade dos discípulos, e os mensageiros (apóstolos), sempre a partir da reflexão sobre os textos bíblicos, num tempo de provação para muitos cristãos e em que se exigia uma nova atitude da Igreja – aqui entendida como o conjunto dos cristãos, fossem eles luteranos, calvinistas, anglicanos, católicos, ortodoxos ou outros.

Do capítulo sobre as Bem-Aventuranças, o 7MARGENS publica a seguir alguns excertos.

Do «extraordinário» da vida cristã – As Bem-Aventuranças

 

Dietrich Bonhoeffer: os discípulos de Jesus “sofrem pelo mundo, pela sua culpa, pelo seu destino e pela sua felicidade”. Foto: Direitos reservados

«Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus». Os discípulos sofrem privações em todos os aspetos. São simplesmente «pobres» (Lucas 6, 20). Sem seguranças, sem património que possam chamar próprio, sem um pedaço de terra a que possam chamar pátria, sem uma comunidade terrena à qual possam pertencer completamente. Mas também sem uma força espiritual própria, sem experiência, sem conhecimento que possam invocar, que os possa consolar. Por causa d’Ele, perderam tudo isso. Seguindo-O, perderam-se a si mesmos e, por isso, perderam tudo o que ainda os poderia tornar ricos. (…) Jesus também conhece os outros, os representantes e pregadores da religião do povo, os poderosos, respeitados, que têm os pés bem assentes na terra, inseparavelmente enraizados nas tradições nacionais, no espírito do tempo, na piedade popular. Porém, não é a eles, mas aos seus discípulos que Jesus diz: «Bem-aventurados, porque deles é o Reino dos Céus». Sobre eles, que por causa de Jesus vivem pura e simplesmente em renúncia e privação, abre-se o Reino dos Céus. No meio da pobreza, são herdeiros do Reino dos Céus. Têm o seu tesouro profundamente escondido, têm-no na cruz. O Reino dos Céus é-lhes prometido em glória visível e também já lhes é oferecido na pobreza perfeita da cruz. (…)

«Bem-aventurados os que carregam sofrimento*, porque serão consolados.» A cada bem-aventurança, adensa-se o abismo entre os discípulos e o povo. Os discípulos são chamados para fora de um modo cada vez mais visível. Pois os que sofrem são aqueles que estão dispostos a viver na renúncia ao que o mundo chama felicidade e paz, aqueles que não podem ser sintonizados com o mundo, que não podem equiparar-se ao mundo. Sofrem pelo mundo, pela sua culpa, pelo seu destino e pela sua felicidade.

O mundo festeja e eles estão de fora. O mundo grita «Alegrai-vos com a vida» e eles estão de luto. Eles veem que o navio onde se festeja alegremente já começou a naufragar. O mundo fantasia sobre progresso, força, futuro. Os discípulos têm consciência do fim, do juízo e da chegada do Reino de Deus, do que não está ao alcance do mundo. Por isso, os discípulos são estrangeiros no mundo, convidados inconvenientes, perturbadores da paz rejeitados. Porque tem a comunidade de Jesus, em tantas das festas do povo entre o qual vive, de ficar de fora? Será que já não compreende os seus semelhantes? Terá caído no ódio e no desprezo dos homens? Ninguém compreende os seus semelhantes melhor do que os discípulos de Jesus. Ninguém ama mais os seus semelhantes do que os discípulos de Jesus – por isso mesmo é que ficam de fora, por isso mesmo é que carregam sofrimento. É significativo e belo que Lutero traduza aqui a palavra grega por «carregar sofrimento». Tudo está em carregar. A comunidade dos discípulos não enxota o sofrimento, como se não tivesse nada a ver com ele – carrega-o. Nisso se manifesta o elo que os une aos seus semelhantes. Assim sendo, e ao mesmo tempo, os discípulos mostram que não procuram o sofrimento arbitrariamente, que não se excluem a si próprios numa atitude de desprezo obstinado pelo mundo, mas carregam o que lhes é imposto e o que, por causa de Jesus, recai sobre eles no seguimento. (…) Enquanto carregam sofrimento estão em comunhão com o Crucificado. Como estrangeiros, são levados pela força daquele que foi a tal ponto estranho para o mundo que este O crucificou. (…)

Pobreza, sem-abrigo, Lisboa, rua,

Uma pessoa pobre em Lisboa: Os discípulos de Jesus “têm um amor irresistível pelos pequenos, os doentes, os miseráveis, os humilhados e violentados, pelos que sofrem injustiça e os rejeitados. Foto © Miguel Veiga.

 

«Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a Terra». Nenhum direito próprio protege esta comunidade de estrangeiros no mundo. Nem eles o exigem, pois são os mansos que vivem na renúncia a qualquer direito próprio por causa de Jesus Cristo. Injuriados, permanecem calados; violentados, toleram; rejeitados, afastam-se. Não pleiteiam pelos seus direitos, não fazem alarido quando sofrem injustiça. Não querem nenhum direito próprio. Querem deixar toda a justiça para Deus. Non cupidi vindictae («não ávido de vingança»), segundo a interpretação da Igreja Antiga. O que é justo para o seu Senhor é justo também para eles. Apenas isso. (…)

A esses que não têm direitos, a esses impotentes pertence a Terra. Os que agora a possuem por meio da violência e da injustiça hão de perdê-la e os que aqui renunciaram completamente a ela, os que foram mansos até à cruz hão de dominar a nova Terra. Não se trata de uma justiça divina retributiva (Calvino), mas de que, quando vier o Reino de Deus, será renovada a face da Terra e ela será a Terra da comunidade de Jesus. (…)

«Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.» Os seguidores vivem não só na renúncia ao seu direito próprio, mas até na renúncia à própria justiça. O que fazem e sacrificam não lhes traz nenhuma fama. Não podem gozar de justiça, a não ser na fome e na sede que dela recebem. Nem a justiça própria, nem a justiça de Deus na Terra. Têm o olhar sempre posto na justiça divina futura, mas não podem instaurá-la eles mesmos. Os que seguem Jesus têm fome e sede no caminho. Trazem dentro de si o desejo do perdão de todos os pecados e de renovação total, anseiam por que a terra renasça, pela perfeita justiça de Deus. Por ora, ainda são cobertos pela maldição do mundo, ainda recai sobre eles o pecado do mundo. Aquele que seguem tem de morrer na cruz como maldito. Um anseio desesperado por justiça é o seu último grito: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?». O discípulo não está acima do seu mestre. É a ele que segue. Nisso são bem-aventurados os discípulos, porque lhes é prometido que serão saciados. (…)

«Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia». Esses desapossados, estrangeiros, impotentes, pecadores, esses seguidores de Jesus vivem agora também com Ele na renúncia à própria dignidade, porque são misericordiosos. Não lhes basta a própria aflição, as próprias privações, ainda tomam parte na aflição alheia, na miséria alheia, na culpa alheia. Têm um amor irresistível pelos pequenos, os doentes, os miseráveis, os humilhados e violentados, pelos que sofrem injustiça e os rejeitados, por tudo o que é atormentado e se apoquenta. Buscam os que caíram no pecado e na culpa. Nenhuma aflição é demasiado grande, nenhum pecado demasiado horrível para que a misericórdia deixe de se abeirar dele. O misericordioso oferece a própria honra ao caído em desgraça e toma a sua desgraça sobre si. Deixa-se ver junto de cobradores de impostos e de pecadores e carrega de bom grado a ignomínia da comunhão com eles. (…) Esta misericórdia fá́-los esquecer toda a honra e toda a dignidade próprias e procurar apenas a comunidade dos pecadores. Ainda que sobre eles caia a ignomínia, são bem-aventurados. Deus dar-lhes-á́ a sua honra e libertá-los-á, Ele mesmo, da desonra. Será́ uma honra para Deus carregar o opróbrio dos pecadores e revesti-los da sua honra. (…)

© WHO Homens caminham pelas ruas destruídas de Gaza

Destruição em Gaza provocada pela guerra: “Os seguidores de Jesus são chamados à paz. Não se devem limitar a ter a paz, mas criá-la e renunciam à violência e ao tumulto. Foto © WHO.

«Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus». Quem são os limpos de coração? Só́ aqueles que entregaram totalmente o seu coração a Jesus, para que só́ Ele reine nele. (…) A pureza de coração contrasta aqui com toda a pureza exterior, à qual pertence ainda a pureza da reta intenção. O coração puro está limpo de bem e de mal, pertence total e indivisamente a Cristo, tem o olhar voltado só para Cristo, que o precede. Só verá a Deus quem, nesta vida, olhou exclusivamente para Jesus Cristo, o Filho de Deus. O seu coração está livre de imagens que mancham, não se encontra dividido entre os muitos desejos e intenções próprios. Está completamente cativado pela contemplação de Deus. Verá a Deus aquele cujo coração se tenha tornado um espelho da imagem de Jesus Cristo.

«Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.» Os seguidores de Jesus são chamados à paz. Quando Jesus os chamou, encontraram a sua paz. Jesus é a sua paz. Agora, não se devem limitar a ter a paz, mas criá-la. Dessa forma, renunciam à violência e ao tumulto, que nunca servem a causa de Cristo. O reino de Cristo é um reino de paz e a comunidade de Cristo saúda-se com o ósculo da paz. Os discípulos de Jesus conservam a paz ao preferirem sofrer a fazer alguém sofrer, conservam a comunhão quando o outro a quebra, renunciam à autoafirmação e permanecem em silêncio perante o ódio e a injustiça. Assim superam o mal com o bem. Assim são fazedores de paz divina no meio de um mundo de ódio e guerra. Mas em parte alguma a paz será́ maior do que quando vão ao encontro dos maus em paz e estão dispostos a sofrer por causa deles. (…)

«Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa de justiça, porque deles é o Reino dos Céus». Não se refere aqui a justiça de Deus, mas o sofrimento por causa de coisa justa, por causa de um juízo e de uma ação justa dos discípulos de Jesus. Os que seguem Jesus na renúncia às posses, à felicidade, ao direito, à justiça, à honra, à violência distinguir-se-ão do mundo quanto ao juízo e à ação. Vão escandalizar o mundo. Por isso, os discípulos irão ser perseguidos por causa da justiça. A recompensa do mundo pela sua palavra e pela sua ação não é o reconhecimento, mas a rejeição. É importante que Jesus também declare que são bem-aventurados os seus discípulos quando sofrem não imediatamente por causa da confissão do seu nome, mas por uma coisa justa. Recebem a mesma promessa que os pobres, porque, enquanto perseguidos, são iguais a eles. (…)

Nem pode o mundo deixar de escarnecer com palavras, violência e difamação os estrangeiros mansos. A voz destes pobres e mansos é demasiado perigosa, demasiado sonora; demasiado paciente e silencioso é o seu sofrimento. Através da pobreza e do sofrimento, estes discípulos de Jesus testemunham com demasiada força a injustiça do mundo. Isso é mortal. Enquanto Jesus proclama «Bem-aventurados, bem-aventurados!», o mundo grita: «Fora! Sim, fora!». Mas para onde? Para o Reino do Céu. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu. Aí estão os pobres na sala do banquete. O próprio Deus enxuga as lágrimas do rosto dos que choram por estarem longe, alimenta os famintos com a sua ceia. Os corpos feridos e martirizados aí estão transfigurados e, em vez das vestes do pecado e da penitência, envergam a veste branca da justiça eterna. Dessa alegria eterna ressoa desde já uma voz dirigida à comunidade dos seguidores que se encontram aos pés da cruz, a voz de Jesus: «Bem-aventurados, bem-aventurados». (…)

 

* — Nota do Tradutor: Poderíamos traduzir esta expressão por «os que sofrem». Optámos por «os que carregam sofrimento» para melhor corresponder à peculiaridade da expressão alemã die Leidtragenden.

 

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