Do isolamento social ao deslaçamento social

| 22 Abr 20

Um dos perigos que nos espreitam no final da quarentena não é apenas a eventualidade de uma segunda onda viral. É também a possibilidade de passarmos do isolamento social ao deslaçamento social.

 

Todos os seres humanos são diferentes uns dos outros, também em matéria de relações sociais. Desde logo na capacidade e tendência para a socialização. Há os mais introvertidos, os que lutam com problemas de baixa auto-estima, os que sentem desconforto social e os que se fecham aos outros não só devido ao perfil da sua personalidade mas como resultados de eventos de vida que os marcaram, em especial os associados a sentimentos como desilusão, decepção e traição. Mas também há os histriónicos, os que só se sentem bem quando conseguem ser o cento das atenções, os manipuladores e os abusadores.

Passada que seja esta quarentena e o isolamento social dela decorrente, será interessante entender até que ponto tal situação terá feito despertar velhos fantasmas. Até que ponto ficaremos menos sociais, isto é, menos relacionais para lá do nosso círculo mais íntimo. Até que ponto o receio do contágio da covid-19 nos terá levado a atitudes excludentes, de modo a estigmatizarmos determinados indivíduos, em função da sua origem étnica (chineses), da sua profissão (médicos, enfermeiros) ou da sua faixa etária (maiores de 70 anos).

À partida esta poderá parecer uma preocupação descabida, tendo em conta que vivemos numa sociedade aberta ao mundo, num espaço comunitário europeu, com ligações históricas fortíssimas com África e uma conexão atlântica, quer no plano comercial e cultural quer no âmbito turístico e em muitas outras áreas. Mas a verdade é que já se ouvem umas quantas vozes no país a propor um bloqueio dos clientes às lojas e restaurantes chineses.

Alguns dos exemplos mais acabados de preconceito, falta de solidariedade, fobia social e, porque não dizer, pura estupidez, vem aqui do lado, de Espanha. Há dias, ao chegar à garagem do prédio onde vive, uma médica de Barcelona deparou-se com o seu jipe branco vandalizado por vizinhos com uma inscrição a tinta negra: “Ratazana contagiosa”. Mas não é caso único. Aconteceu com um médico que reside na zona sul de Madrid, e que encontrou ao chegar a casa um papel colado na porta, a manifestar desconforto pela sua presença no prédio. E também uma funcionária de supermercado em Cartagena encontrou por baixo da porta do apartamento onde vive com o filho, uma carta anónima onde se recomendava que abandonasse a casa a fim de não contagiar os moradores. Apesar de tudo, o senhorio da casa apoiou-a contra tal cobardia.

Há semanas, na fila dum supermercado em Setúbal, uma cliente afastou-se um pouco de um cliente idoso, a fim de manter a distância recomendada pelas autoridades sanitárias. Perante a estranheza do indivíduo ela esclareceu o motivo por que se afastara, mas ele terá reagido mal, quase ofendido. Talvez não fosse má ideia reflectir sobre como lidaremos a partir de agora com os mais velhos, sabendo-se que os lares de idosos têm sido focos privilegiados de contágio. Que sentido passarão a ter palavras como solidariedade, carinho, compaixão ou amor ao próximo? E que importância passaremos a atribuir às dinâmicas intergeracionais?

Até que ponto este isolamento social não irá potenciar o deslaçamento social, em particular nos casos das pessoas que revelam uma personalidade marcada por altos níveis de ansiedade, com manifestações de agorafobia, obsessivo-compulsivas, hipocondríacas, síndromas de pânico? E que capacidade terão as pessoas em geral para compreender a existência de tais dificuldades no seu semelhante?

Todos já ouvimos falar da história bíblica do Bom Samaritano. Optaremos pela mesma atitude do sacerdote ou conseguiremos ir mais além e interpretar o papel do homem de Samaria? É que o sacerdote não queria sujar as vestes nem correr o risco de ficar cerimonialmente impuro à luz da lei de Moisés (deixando de poder oficiar no Templo, em Jerusalém), isto é, não queria perder a sua dignidade sacerdotal. Só não entendeu que a dimensão da dignidade humana vem antes da função desempenhada e além disso radica no colectivo e não apenas no individual. A sua dignidade seria salvaguardada na exacta medida em que ele fosse capaz de socorrer um ser humano em aflição e profunda necessidade que lhe surgiu no caminho, ali mesmo à mão, já mais para o lado da morte do que da vida, independentemente da sua origem étnica ou inscrição religiosa. Numa palavra, o seu próximo.

É por isso que este inspirador episódio do Novo Testamento ainda hoje continua a falar tão alto a todos os seres humanos.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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