Do México, “con cariño” – das Pirâmides de Teotihuacan à Virgem de Guadalupe

| 27 Abr 19

Pedra do Sol e primeiro calendário Maya. Foto © Teresa Vasconcelos

 

Esta “crónica” começou a ser escrita no México (daí o seu título), foi interrompida por várias vezes devido a circunstâncias pessoais e vai, pois, um pouco em diferido.

Desde os meus tempos de estudante de psicopedagogia em Madrid (1972-73) que, convivendo com um grupo de estudantes mexicanos e visitando o célebre Museo de las Americas, persistia em mim um desejo profundo de conhecer in locoa ancestral cultura mexicana. Este desejo tornou-se realidade através de uma recente viagem ao México para participar num Fórum das Redes Transnacionais do Graal, com o objetivo de definirmos estratégias comuns. Em Lisboa, o grupo de pertença do Graal recebeu e enquadrou uma família de refugiados iraquianos. Tive, então, a intuição de que a criação de uma Rede Internacional de Migrantes e Refugiados fazia sentido. Vivemos num tempo de migrações em massa provocadas pelas alterações climáticas ou por guerras e perseguições cruéis e intermináveis, de que o Papa Francisco fala na Encíclica Laudato Si’.Veja-se o caso de Moçambique que tanto nos “dói” a todos e que levou Mia Couto a pronunciar estas palavras pungentes a propósito da cidade da Beira: Estou eu quase tão destruído quanto a minha cidade.

A cidade do México é uma cidade imensa de habitantes – mais do que a população de Portugal –, a 1.800 metros de altitude, a pérola da colonização espanhola do século XVI. Visitei a Plaza Mayor, bem mais larga e imponente do que a de Madrid, afirmando o domínio da nação colonizadora. Uma cidade de seculares contradições na diferença abissal entre os mais ricos e os mais pobres, com uma classe média trabalhadora mas empobrecida. As montanhas sobranceiras à cidade são invadidas por mais e mais bairros periféricos onde as pessoas vivem sem os elementos básicos para uma vida digna e em que a violência e a morte se tem tornado progressivamente um modo de vida porque o  tráfico e a violência se instalaram. Para chegarmos a qualquer ponto da cidade sabemos que temos de contar com, pelo menos, uma hora ou hora e meia porque o tráfego é tremendo. Imagine-se o que isto faz a uma cidade envolvida por montanhas: torna-a uma das cidades mais poluídas do mundo. A escassez de água (sobretudo no Verão) perpassa todas as classes sociais provocando uma míngua que só se resolve por quem tem o luxo (ou a prioridade) de ter um reservatório doméstico de água.

A par disto, e contraditoriamente, uma cultura preciosa e avançada em que coexistem em tempos diferentes os Aztecas, os Mayas e os Mexica (uma cultura guerreira). Os Mexica, a última cultura antes da colonização espanhola, eram um povo que, com base em tempos mais frágeis das culturas anteriores, as conquistou e criou as condições, no final do século XVI, para que os colonizadores espanhóis dessem um golpe final em civilizações que eram das mais avançadas do mundo. Ainda hoje o Instituto Politécnico Nacional produz em laboratório, com base em receitas dos índios e plantas naturais e orgânicas, um conjunto de medicamentos naturais eficazes usados em variadas doenças retirando às farmacêuticas lucros vantajosos. Tudo isto coexiste no México, bem como tantas outras tradições que têm sido recuperadas em favor do ambiente e de uma vida com maior qualidade para todos.

 

Estátuas e frescos a salvo

Deusa da Lua. Foto © Teresa Vasconcelos

 

A visita ao enorme Museu de Antropologia e Arqueologia (de que só tive tempo de visitar três das 16 secções) preparou-me para a visita às Pirâmides de Teotihuacan a cerca de 40 quilómetros da cidade – o lugar dos “deuses”: a pirâmide colossal do deus Sol (restaurada em 90 por cento), uma menor dedicada à deusa Lua rodeada de um conjunto de monumentos e habitações usadas pelos sacerdotes e altas personalidades e, finalmente, o mais recente e bem conservado templo da Serpente Emplumada que infelizmente não tive tempo de visitar.

Muitas das estátuas e frescos dos interiores destes edifícios estão “a salvo” no Museu Nacional de Antropologia. No meio daquela paisagem desértica, seca e poeirenta, senti a presença mística de uma espiritualidade profunda, reverente da natureza e da paz, numa ordem cosmológica que permite um desenvolvimento sustentado e harmonioso, ligando todas as dimensões humanas e naturais: vida e morte, homem e mulher, idoso e crianças, sol e lua, água e fogo; o jaguar ou o puma e a ave sagrada Quetzal-Mariposa, a pedra vulcânica obsidiana que cura muitos males físicos e mentais ou o cacto agabede onde se retira uma bebida com efeitos curativos (ex: a diabetes) e, simultaneamente, fibras para têxteis e mesmo, do interior, uma folha fininha correspondente ao papel usado na escrita; a parte mais pontiaguda e superior do cacto é uma agulha sólida que era usada alternadamente como ponta de lança ou agulha para unir as tiras dos teares manuais.

De Teotihuacan fui à Basílica da Virgem de Guadalupe, um dos santuários mais visitados do mundo (basílica antiga do século XVI e basílica moderna do século passado), situada no monte de Tepeyac, antes nos arredores da cidade e presentemente dentro da cidade. O choque foi maior do que aquele que por vezes experimento em Fátima quando o espaço entre as basílicas é transformado numa feira ruidosa apesar dos pedidos insistentes de silêncio. Aqui as portadas da basílica moderna desembocam praticamente para o centro da barulhenta cidade e os bazares de venda de recuerdosquase penetram o interior da basílica. Para se saber mais sobre a devoção a esta Virgem pode ver-se este documentário sobre o milagre de Nossa Senhora de Guadalupe.

 

Uma intensa devoção indígena

Imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Ilustração: Direitos Reservados

Quero apenas salientar a imensa devoção que os indígenas têm a esta Virgem que apareceu a um também indígena de 67 anos de idade, com o cristianizado nome de Juan Diego, a quem Maria, em sinal do milagre final que atestou o seu aparecimento, deixou a uma silhueta marcada num tapete de rosas. Por isso não encontramos estátuas tradicionais da Virgem mas apenas figurações em quadros e baixos relevos. Participei numa missa dominical organizada para/pelos indígenas nas suas vestes alegremente tradicionais, com um ofertório com danças e cantares tradicionais e um final em que os indígenas presentes ofereceram rosas a todos os visitantes.

Seria no entanto desonesta comigo própria se não afirmasse que senti, no terreiro imenso do “lugar dos deuses”, uma maior espiritualidade mística e integrada no cosmos, do que na segunda basílica mais visitada do mundo depois da de S. Pedro em Roma. Espero não ferir quaisquer sensibilidades, apenas relato o que se passou comigo.

Com o grupo que participava no Fórum das Redes do Graal visitámos o Museu Memória e Resistência sobretudo dedicado ao Holocausto (muitos judeus se refugiaram no México e noutros países da América Latina) mas também a holocaustos dos tempos mais recentes: povos que sofreram genocídios, como o Ruanda e o Uganda, a Guatemala e o Camboja, a Arménia e a ex-Jugoslávia. Na secção sobre a Tolerância há um convite para os visitantes se deterem e experimentarem como podem transformar o mundo através da revisita à Declaração Universal dos Direitos Humanos, da mudança de atitudes face à diferença, às raças e modos de vida, à discriminação no sentido de acolher o outro numa atitude de cuidado, responsabilidade e paridade (enquanto iguais) para assim aprendermos uns dos outros numa verdadeira hospitalidade. Um magnífico museu numa das zonas mais belas da cidade do México.

A Casa-Museu Frida Kahlo (A Casa Azul) representou um profundo encontro com uma pintora que me toca as vísceras tão profundamente. A Casa Azul demonstra bem o que foram os tormentosos anos de uma doença degenerativa, agravada por um grave atropelamento, que lhe trouxe uma progressiva invalidez até à morte em 1954, aos 47 anos. Tornou-se uma artista mundialmente reconhecida, até mais do que Diego Rivera, seu companheiro . Enquanto deambulava pelas salas comoveu-me o quarto com a cama de dossel em cujo tecto Frida afixava coisas belas (neste caso um quadro com inúmeras variedades de borboletas…), as belas roupas “étnicas” (tehucanas) com que se vestia ou um breve trecho do seu diário escrito aquando da amputação de um pé:  Piès para que los quiero si tengo asas para volar (Pés para que os quero, se tenho asas para voar). Frida, Frida, como foi bom este encontro contigo!

 

Concepción Cabrera, leiga, mística e apóstola

Concepción Cabrera. Foto: Direitos Reservados

 

Não poderia terminar este périplo pela cidade e cultura mexicanas sem falar de uma mulher leiga (tal como qualquer uma de nós, no Graal). Trata-se de Concepción Cabrera, beatificada pelo Papa Francisco e em processo de santificação. Nascida em meados do século XIX (1862), de uma família abastada, cresceu como a mais nova de vários  irmãos, casou e teve oito filhos, enviuvou aos 38 anos, criando sozinha os filhos em difíceis circunstâncias económicas.

Foi apelidada de mulher leiga, mística e apóstolaFundou duas congregações religiosas, as Religiosas da Cruz e os Missionários do Espírito Santo e desenvolveu aquilo que no México se chama a Espiritualidad de la Cruz e as Obras de la Cruz. Concepción Cabrera está a ser, de momento, um objeto de estudo e de inspiração pessoal para mim (a que regressarei no 7MARGENS): sou uma mulher leiga, cristã, empenhada numa sociedade do cuidado e numa democracia ética onde as mulheres possam dar um contributo original e paritário com os homens, lutando por uma sociedade melhor, mais justa e solidária.

Eis o meu bocadinho de México que aqui partilho.  Desta vez não me apeteceu regressar a casa. Talvez pela longa e pouco confortável viagem de avião, pelo jetlag que me tirou energias, ou talvez pelo puro encantamento que fui experimentando ao longo destes dias… fiquei com o sentimento de que não havia terminado a visita, que havia muito ainda para ver e, sobretudo, refletir. Já em casa, apanhada num quotidiano bastante frenético para meu gosto (tantas coisas “atrasadas”…) continuo a “gozar” quando cerro os olhos e respiro fundo: lá estou no espaço sagrado das pirâmides a reverenciar o sol, a lua, a água, sentindo-me parte integrante do Universo, abraçando a Vida em gratidão e alegria.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e membro do Movimento do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs); t.m.vasconcelos49@gmail.com

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