Do “não ter onde assentar a cabeça” ao alheamento do mundo

| 16 Fev 2023

Seminário

“Serão os seminários a melhor forma de preparar pastores para o serviço do Povo de Deus?” Foto: Seminário S. José, Alcains. © Blog Animus Semper (Associação dos Antigos Alunos das Dioceses de Portalegre e Castelo Branco)

 

Jesus, que dizia de si próprio “não ter uma pedra onde assentar a cabeça”, rodeou-se de um grupo de discípulas e discípulos que o seguiam. Retiravam-se para a oração com frequência, mas viviam no mundo: eram pescadores, muitos deveriam ser agricultores, se tivermos em conta o tipo de simbologia utilizada por Jesus nas suas parábolas. Jesus falava de Deus a partir da linguagem comum do seu tempo e a partir das vivências daqueles que O ouviam. Não existe prova nos evangelhos de que os seus discípulos se encerrassem para melhor O compreender. Aliás, só se encerraram quando Jesus foi executado e os discípulos homens ficaram com medo. Foram as discípulas que saíram, visitaram o túmulo de Jesus e anunciaram que Aquele que dá a vida não pode passar da vida à morte, antes rasga o tempo para revelar uma mensagem renovadora da vida: Deus ama todas e todos.

Ao que vem esta introdução, agora, quando foi divulgado o relatório sobre o abuso de menores na Igreja? Considere-se que pretendo, a partir dela, contribuir para uma reflexão acerca da estrutura “seminário”, do celibato obrigatório, dos papéis de mulheres e homens na Igreja, das questões relacionadas com a sexualidade, mas, acima de tudo, relacionadas com os afetos e as emoções. Há, contudo, um ponto prévio óbvio, mas, mesmo assim, que importa recordar: quando se fala de discípulas e discípulos de Jesus não se está a pensar no clero, mas sim em todo o povo de Deus, incluindo o clero, cuja missão é servir este povo, do qual faz parte. É essa a razão de ser da existência de pastores (pastores que contribuem para “fazer circular a Palavra de Deus” e não para criar rebanhos submissos).

Retomemos, então, os temas decorrentes da introdução, melhor, as interrogações que se me colocam:

  1. Serão os seminários a melhor forma de preparar pastores para o serviço do Povo de Deus? O encerramento numa “instituição total”, o alheamento do quotidiano, serão a melhor forma de levar futuros pastores a compartilhar “as alegrias e as tristezas, as esperanças e as angústias” que constituem a realidade de todos os seres humanos e de que a Gaudium et spes fala?
  2. O que tem o mundo e os crentes a ensinar aos futuros pastores? Não seria de considerar que a superação do modelo de “casta superior” poderia passar por uma formação dentro das comunidades humanas e, mais especificamente, dentro das comunidades cristãs, e não numa separação fatalmente artificial?
  3. Não contribuiria essa formação no contexto comunitário para a superação de um receio, ainda existente, das mulheres, para a superação da desconfiança ou de uma idealização da “mulher” como um ser associado à sensibilidade, ao cuidar, à maternidade, como se o cuidar e a sensibilidade não devessem ser comuns a todos, e não apenas às mulheres?
  4. Terá o celibato de ser obrigatório? Não considero que o drama dos abusos se deva ao celibato (infelizmente, sabemos que existem abusos dentro de famílias). Contudo, penso que deveria ser opcional e não obrigatório. O celibato não estará relacionado diretamente com os abusos, mas será que os seminários (a manter-se o modelo exclusivista) não deveriam fazer um escrutínio das motivações dos seus candidatos, já que a Igreja tem tantas estruturas de acolhimento, de educação e pastorais com milhares de crianças e jovens?
  5. Seria muito importante saber como se fala de sexualidade nos seminários. Se a linguagem for de sublimação, por exemplo, e atendendo à distância entre a realidade fora das portas dos seminários e o quotidiano dentro de portas (de acordo com o tal modelo exclusivista), é legítimo perguntar se os futuros padres são capazes de se compreenderem a si mesmos. Será que os futuros padres “sabem” que têm um corpo? Poder-se-á dizer que a sexualidade não passa apenas pela relação física. Claro que não: aliás, a própria Igreja o diz nos documentos em que fala da sexualidade no contexto familiar. É comum os documentos falarem da necessidade do enquadramento da sexualidade nos afetos. Será que esta perspetiva é tida em conta nos seminários? Como é que se “ensinam” afetos? A menção que tem sido feita nestes dias sombrios à necessidade de investir na educação sexual nos seminários resolverá alguma coisa? Não se correrá o risco de passar de um discurso eventualmente sublimado, para um discurso “técnico”, para uma abordagem “científica”, “biológica” que, mais uma vez, falha o alvo: os afetos? Além disso, não será útil ouvir psicólogos e psiquiatras que trabalham nas matérias relacionadas com os abusadores para saber se consideram que uma “educação sexual” ministrada por “especialistas” garantirá o fim dos abusos? Poderá alguém garantir que nunca mais acontecerão?
  6. Qual o papel dos cristãos e da sociedade, em geral, da qual todos fazemos parte, no escrutínio dos futuros pastores? É que, uma vez que a porta para a realidade tenebrosa da existência de abusos na Igreja se abriu, não teremos todos o direito, em nome da transparência, de pedir contas e de acompanhar estes processos?

Nota final: da leitura do relatório depreende-se (através de citações diretas) ter havido bispos que estão atentos e que compreendem a necessidade de tomar medidas enérgicas. Mas o relatório também inclui extratos de entrevistas com bispos que não parecem ter a mesma determinação. Não será legítimo perguntar-se qual será o grau de eficácia de comissões diocesanas em dioceses em que haja bispos que colocaram reticências à investigação feita pela Comissão Independente?

 

(Agradeço a todas as amigas e a todos os amigos que contribuíram e contribuem para estas reflexões)

 

Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Ed. Paulinas)

 

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