Este texto é o primeiro de dois. Em breve será publicado o segundo que dá sequência e complementa os conteúdos agora partilhados.

“Quem quiser viver no Japão precisa de aprender japonês. É uma língua complexa. Parece difícil mas possível, porque muitos já o fizeram.” Foto © Margarida Cordo
Há algum tempo escrevi um artigo que intitulei – Há vários Mundos no Mundo. Tratava-se de uma partilha sobre São Tomé e Príncipe, onde estive a passar umas férias e onde reconheci que a natureza, em contraste com o desenvolvimento que não se faz sentir, nos mostra que não podemos falar de uma realidade única, mesmo quando vivemos no mundo supostamente desenvolvido. Realmente ela é inigualável, irrepetível e irreplicável.
Dois meses depois viajei para o Japão e resolvi chamar a este texto – Do Outro Lado do Mundo.
Durante o tempo em que lá estivemos fizemos várias experiências não apenas de passeio e visitas guiadas, mas também de algum contacto com a população, fosse esse em ruas, lojas, restaurantes, hotéis, templos… Enfim. Um primeiro espanto foi que os japoneses em geral não falam outra língua que não a sua. É estranho que em receções de hotéis e mesmo em bons restaurantes não haja pessoas que interajam connosco em inglês minimamente fluente. Ou melhor, as que o fazem são muito poucas. Algumas esforçam-se, mas sabem quase nada e isto diz-nos que realmente não há alternativa. Quem quiser viver no Japão precisa de aprender japonês. É uma língua complexa. Parece difícil mas possível, porque muitos já o fizeram.
Li uma partilha do Padre Adelino Ascenso, de quem uma amiga me falou, em que este dizia que esteve a estudar japonês dois anos com quatro horas de aulas diárias e “muito trabalho de casa”, estou a citá-lo. Ainda assim, quando acabou esse tempo de estudo, gentilmente o povo referia-lhe que falava bem japonês. Um pouco mais tarde percebeu que isso era devido à delicadeza das pessoas que o reforçavam para que continuasse a estudar. Não me espanta. Na verdade é um povo de tal maneira gentil que, por exemplo, à saída de alguns restaurantes, bastantes colaboradores vinham à porta despedir-se de nós com um sorriso e um simpático gesto em jeito de voltem sempre.

“Durante o tempo em que lá estivemos fizemos várias experiências não apenas de passeio e visitas guiadas, mas também de algum contacto com a população, fosse esse em ruas, lojas, restaurantes, hotéis, templos…” Foto © Margarida Cordo
Ainda não tinha lido nada deste sacerdote que volto a mencionar e já tinha comentado em privado que o Japão me parecia um país um pouco paradoxal entre grandes tradições e grande desenvolvimento tecnológico e cultural.
O Pe. Adelino Ascenso, que por lá esteve alguns anos, referiu-se ao Japão como «um mundo enigmático, cativante, árduo, repleto de contrastes e contradições.» Realmente não posso estar mais de acordo.
Neste território, de cerca de 127 milhões de habitantes, há muito poucos católicos. Apenas cerca de 1%, entre japoneses e estrangeiros. Ainda assim, a nossa Igreja está muito bem organizada e presta grandes serviços à comunidade, quer no domínio da educação, desde a infância ao ensino universitário; quer no domínio da saúde. Talvez por isto, apesar de ser tão em minoria, a igreja católica e os católicos em geral são muito bem aceites neste país caracterizado pelo sincretismo religioso. Predominam o xintoísmo e o budismo e a religião, se é que se pode chamar assim, é um modo de vida, um código moral que, como alguém referiu, não se diferencia dos valores sociais e culturais do seu povo. Também aprendemos que não há pregações nem adoração. Isto mudou depois da Segunda Guerra Mundial, pois, até esta, o imperador era considerado um verdadeiro Deus.
No que se refere à forma atual de vida, mesmo nas grandes cidades, não me pareceu evidente que hajam enormes correrias. O ritmo flui. Não deixa de ser estranho que alguns passeiem cães em carrinhos de crianças. Existem também alguns cafés em que cães ou gatos habitam, para que crianças e adultos lhes vão fazer festas, parece que como forma de compensar algumas carências afetivas. Digo compensar porque isto não é rigorosamente o mesmo do que resolver ou satisfazer.
Parece que a natalidade tem descido significativamente. Muitos estão sós, entregues aos jogos e/ ou a uma forma de vida em metaverso. Existem uns com os outros apenas quase em ilusão e o resultado está à vista. Falei com uma japonesa que dominava bem o espanhol e que me contou que as duas melhores amigas de sua filha se tinham suicidado, “apesar de serem bonitas, cultas e com motivos para acreditarem no futuro”. A filha e o genro estão em tratamento psiquiátrico, sendo também pessoas de sucesso. A taxa de suicídio é das mais elevadas do mundo. É assustador. Num país onde pode haver quase tudo, fica o quase nada de um existir silencioso e solitário. Tanto quanto esta senhora me disse também o bullying nas escolas é algo que os preocupa muito e que tem, naturalmente, graves consequências na vida dos, hoje, adultos.

“Não deixa de ser estranho que alguns passeiem cães em carrinhos de crianças.” Foto © Margarida Cordo
Algumas das histórias que conto e que me contaram revelam, como sabemos, aliás, que mesmo as pessoas aparentemente mais bonitas, mais bem-sucedidas, com mais aparentes motivos de esperança podem ter graves problemas de saúde mental e, sim, sabemos isso. Não se passa apenas no Japão. Portanto, precisamos de estar atentos a cada outro e de nos deixar inquietar pelas suas “agendas ocultas” disfarçadas de bem-estar e de bem ser. Quando menos esperamos podemos ter uma nova missão a cumprir e agora refiro-me aos católicos. Devemos sentir-nos responsáveis pela escuta, pelo acolhimento, pela valorização do outro. Quem sabe – fazer um tempo missionário por países como este ou mesmo por este país. Gente precisa de gente. Humanos precisam de homens e de mulheres com sentidos apurados para o que não se deixa evidenciar.
Em geral organizam-se missões para jovens rumo a lugares pobres e subdesenvolvidos, com idiomas mais fáceis ou mais parecidos ao nosso. Quem sabe se não seria bom mudar um pouco esta perspetiva e missionar em territórios ricos, para ser e estar, depois de conhecer costumes e de ter aprendido a língua.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt









