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Do outro lado do Mundo (II)

| 10/12/2024

Após a publicação do primeiro texto de Margarida Cordo sobre o Japão, publicamos agora o segundo que complementa os conteúdos já partilhados.

Hiroshima, uma cidade nova e reconstruída, onde, no dia 6 de Agosto de 1945, a little boy foi lançada do Enola Gay pilotado pelo Coronel Paul Tibbets, Foto © Margarida Cordo

Ainda no Japão – Houve outra marca que nos deixou profundamente impressionados – Hiroshima. Uma cidade nova e reconstruída, onde, no dia 6 de Agosto de 1945, a little boy [1] foi lançada do Enola Gay [2], pilotado pelo Coronel Paul Tibbets, que também esteve associado ao lançamento da bomba atómica em Nagasaki, três dias depois. Destruiu aquele lugar. Morreram instantaneamente, sem saber como nem porquê, 70.000 pessoas e, nos poucos dias ou semanas a seguir, mais umas dezenas de milhares tiveram o mesmo destino. Alguns habitantes, que não estavam na cidade nesse dia, regressaram rapidamente para tentar resgatar os seus familiares. Viram também a morte em pouco tempo por contaminação dos solos ou da atmosfera e também pela queimadura resultante da chuva negra, radioativa, que caiu menos de uma semana depois.

O museu de Hiroshima é um lugar de dor. O silêncio que impera, independentemente de estarem centenas e centenas de pessoas a visitá-lo em simultâneo, é ensurdecedor. Tive, neste, uma memória ativada do campo de concentração de Auschwitz, que visitei há cerca de 25 anos. Um lugar de morte, do qual saiu a inspiração de Viktor Frankl para a logoterapia [3].

Voltando a Hiroshima, junto ao memorial das vítimas, algumas visitas de estudo de crianças mostravam reverência por aqueles que pereceram. Na verdade é um povo marcado pela necessidade de aprender, no sentido de não cometer erros semelhantes, como “braços de ferro” que só com terror vacilam.

Memorial da Paz de Hiroshima ou Cúpula da Bomba Atómica são as ruínas do Antigo Centro de Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima. Foto © Wikimedia Commons

Alguns costumes do Japão são mesmo diferentes dos do nosso ocidente – cumprimento com uma vénia; uso frequente de máscaras, desde o período pós II Guerra Mundial; banhos onsen, também disponíveis em alguns hotéis. Sobre estes devo dizer que vale a pena experimentar; respeito pelo silêncio; tirar os sapatos para entrar em casa e ter sapatos próprios para usar nas casas de banho; filas organizadas; pouco contacto físico e respeito pelo espaço pessoal de cada um;.. Enfim. Muito mais poderia ser dito, mas, em síntese, digo que é uma cultura inspirada numa mescla de antiguidade, modernidade e profundo respeito pela natureza.

Os desenhos animados preenchem também o imaginário deste povo. A Hello Kitty, gata ou menina, faz este ano 50 anos. Que personagem! Sempre com o mesmo slogan – «Nunca se pode ter demasiados amigos.» e, como sabemos, sem boca. Parece que a intenção é que as pessoas possam interpretar os seus sentimentos como quiserem. Apetece dizer – é mesmo à japonês.

Vale a pena perceber o que são as maikos e as geishas. Nada têm a ver com prostituição, mas com arte e entretenimento. Se lermos sobre as tradições neste país, compreenderemos melhor o que é o seu trabalho e conseguiremos respeitá-lo verdadeiramente.

Dos cerca de 70 países que já visitei posso dizer que este é aquele em que o asseio é mais evidente. Nunca estive num lugar em que, em cidades grandes e menos grandes; lugares mais tradicionais e lugares mais movimentados e ocupados por milhares de pessoas, não encontramos lixo em qualquer jardim ou outro espaço público. O curioso é que também não há caixotes. Há, isso sim, uma educação generalizada. Não se come na rua e quem, por alguma razão, tem algo para deitar fora, leva, o que for, consigo até sua casa.

Os hotéis e os restaurantes são de uma organização e modo de funcionamento irrepreensíveis. Nos transportes públicos (andámos num comboio comum, no comboio bala, em teleféricos) não se ouvem tocar telemóveis nem as pessoas estão a falar neles. É impressionante o respeito mútuo que impera, a maneira natural como as regras são cumpridas.

Parece-me, depois desta viagem, de férias, que posso considerar que foi uma “visita de estudo” e, por causa disso, julgo poder afirmar que o que está a faltar entre os povos do mundo, mas, especificamente, no povo japonês, é este cimento cola que resulta da expressão afetiva, da proximidade humana, do facto de ser relevante que as pessoas não fiquem sós, atrás de ecrãs que emprestam amigos virtuais, mas que procuram parecer-se com gente que sente. Trata-se de uma ilusão alienante e, diria eu, manifestamente perigosa.

Desejo que todas as pessoas vivam umas em função das outras. Realmente, não sendo a solidão uma doença classificada, como se sabe aliás, ela mata mais, de forma direta ou indireta, do que a grande maioria das doenças conhecidas.

O Japão é um lugar onde vale a pena ir; um sítio que vale a pena conhecer; uma lição de vida que merece ser recebida, trazer para casa e tirar ilações para o nosso quotidiano.

Japão

“Nunca estive num lugar em que, em cidades grandes e menos grandes; lugares mais tradicionais e lugares mais movimentados e ocupados por milhares de pessoas, não encontramos lixo em qualquer jardim ou outro espaço público.” Foto © Margarida Cordo

A distância, no mundo de hoje, conta pouco e, por isso, devíamos deixar-nos contagiar pela delicadeza, mas também pela contribuição que podemos dar no sentido de realçar a urgência de estarmos uns com os outros e pelo serviço que podemos prestar-nos mutuamente. O ser humano, como dizia Martin Buber, precisa de ser confirmado. Isto acontece no seu dia-a-dia, na execução dos seus projetos, na forma como sonha e concretiza. O ser humano precisa de toque e de olhar. O ser humano precisa de pessoas de verdade.

Talvez este caminho, o de ser uns com os outros, seja a melhor vacina contra aqueles estados mais ou menos graves e com consequências mais ou menos limite a que chamamos, porque o são, doenças mentais.

Vou terminar com uma tradução grosseira de um autor que desconheço – «Bom mesmo é quando nós entendemos que não precisamos de ser perfeitos (…) que não precisamos de agradar a todas as pessoas, que não precisamos de estar certos, que não precisamos de ter razão, que não precisamos de vencer, nem sequer precisamos de competir… Porque descobrimos que bom mesmo é ser nós próprios.» É não ignorarmos os outros, ainda que nos incomodem, que sejam mesmo diferentes de nós e que acreditem em coisas também diferentes daquelas em que nós acreditamos.

 

[1] Bomba atómica.
[2] Avião que transportou a bomba atómica.
[3] Abordagem psicoterapêutica baseada na busca de sentido para suportar o sofrimento.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt 

 

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