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Do que se fala e do que se devia falar

| 20/12/2023

“Os balanços frequentemente nos dirigem para o passado, é essencial não esquecer o valor do presente e o lugar do futuro. As diferentes abordagens deveriam referir-se não apenas ao que fizemos, mas ao que estamos a fazer para construir o amanhã.” Gravura: “Atrás de cada esquina espreitam várias direções.” Stanisław Jerzy Lec

 

Chegar ao fim do ano é, em geral, um convite a fazer balanços, sendo natural que as nossas conversas, os debates e as reportagens/ retrospetivas girem em torno do que aconteceu. É, no entanto, crucial questionarmo-nos se estamos a dirigir a atenção para os temas que realmente importam.

Quando olhamos para trás, em termos micro, por assim dizer, é comum destacarmos as conquistas e os desafios superados. E se é verdade que este é um momento valioso para retirar ilações importantes, muitas vezes divagamos pela nostalgia, esquecendo-nos de analisar criticamente as experiências efetivamente vividas. Em vez de simplesmente relembrar, deveríamos procurar compreender como tais eventos moldaram o nosso crescimento e influenciaram as nossas escolhas; como, frequentemente, tratamos os erros cometidos, considerando-os falhas inaceitáveis, em vez de os elaborarmos como oportunidades valiosas de aprendizagem; como podemos desdramatizar as faltas que tivermos tido, sabendo que elas também vão moldando o nosso caminho e tornando-nos mais tolerantes e capazes de crescer pessoal e  até profissionalmente.

Em termos globais, fala-se de desastres ambientais; guerras; política; religião; futebol; regulamentação da inteligência artificial; fracassos e vitórias; vidas e mortes daqueles que são manifesta e aparentemente relevantes; escândalos dos imaginados intocáveis; urgências dos hospitais que encerram; assim ditos influencers e seus quotidianos publicados ou, melhor ainda, formas sem conteúdo, mas com eco de não sei quê; … Enfim fala-se de muitas coisas e objetivamente não se fala de existências anónimas, aquelas que, como todos nós, nascem e morrem da mesma maneira, com mais ou menos dignidade, mais ou menos sabedoria e mais ou menos coragem ou dor. Acabam por se esquecer, assim, os temas com maior sentido, já que é, frequentemente, nestes seres humanos, que ninguém conhece, que estão projetados os maiores recados que a humanidade precisa de receber.

O sofrimento que não projeta, não dá fotos, não dá audiências, é ignorado como se não existisse. Não é importante. Não tem qualquer destaque o que acontece com algumas famílias; o que acontece com adultos e crianças de todas as idades, se forem desconhecidos ou não tiverem razão de evidenciação. O imprevisto que boicota os dias porque mal feitores decidem invadir as privacidades, seja isso de forma objetiva e concreta, seja de forma virtual, mas igualmente avassaladora, tem pouco destaque, sobretudo em termos comparativos. E, de facto, deveria ter, já que, por contraditório que pareça, para sermos livres e vivermos tranquilos no mundo de hoje, não podemos ser ingénuos nem andar distraídos.

Por outro lado, enquanto os balanços frequentemente nos dirigem para o passado, é essencial não esquecer o valor do presente e o lugar do futuro. As diferentes abordagens deveriam referir-se não apenas ao que fizemos, mas ao que estamos a fazer para construir o amanhã. Valorizar o agora ajuda-nos a tomar decisões conscientes e orientadas para objetivos, contribuindo para um existir com mais significado e com melhores condições, promovendo inclusivamente a nossa saúde mental, que tão dependente está de uma relação equilibrada com aquilo a que costumo chamar os três tempos do tempo – passado, presente e futuro.

As nossas partilhas deveriam expandir-se também a outras questões globais que afetam todos e que, no fim de contas, são desafios que enfrentamos como sociedade inteira. Não tem de ser obrigatoriamente aquilo que todos comentam sem, tantas vezes, saber o que dizem, mas pode incluir o que desses temas é verdadeiramente relevante – sustentabilidade, justiça social…

Falta, ainda, neste texto curto, mas em tempo de espera e de esperança, refletir sobre as atitudes fundamentais e que, por assim serem, não podemos ignorar. Nunca ou bem raramente se fala da relação com a nossa razão e da relação com a razão dos outros. É mais fácil gritar o que pensamos do que dar lugar ao pensamento alheio. No entanto facilidade e bem-estar nunca foram sinónimos.

Precisamos, pois, de discrição, de genuinidade, de autenticidade, de empatia e de compreensão, para que os diálogos enriqueçam e nos enriqueçam. Quando validamos o que nos dizem e conseguimos colocar-nos do lugar do outro com escuta ativa e atenta, também crescemos e nos tornamos pessoas capazes de melhor servir e de nunca deixarmos de evoluir na progressiva busca da consciência da nossa missão na vida.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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